terça-feira, 20 de março de 2012


O crack que ninguém queria ver.

Ainda não há nenhum remédio que cure a dependência da cocaína. E cada vez se usa mais o crack, o substrato da droga, portanto mais fatal que ela. Essa é uma das tristes conclusões que trago das aulas que assisti no início deste mês na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Ano após ano, busco a reciclagem no curso de Educação Médica Continuada da Universidade, o que me confere autorização da Associação Médica Americana para continuar atuando como especialista pós-graduado em dependência química.
Isso tem explicação em uma doença social. O crack deve ser visto como um produto qualquer dentro do sistema capitalista. Como uma solução mágica, ele vem revestido da idéia de felicidade imediata, satisfação instantânea, a preço muito baixo, já que cada pedra pode sair a R$ 1,00. Além disso, há uma forte propaganda boca a boca, enaltecendo o uso de drogas como sendo ‘uma boa’. Penso que a propaganda favorável aumenta às custas dos que se calam. O problema é que a grande maioria não diz aquilo que pensa. Essa pouca manifestação em geral é por temor de represália de violência, já que a venda do produto tóxico é realizada em ambientes sujeitos à violência, mas também pode ser por medo social de ser rejeitado por não estar de acordo com a conduta geral. Chegamos ao ponto absurdo em que um veneno extraordinariamente nocivo como o crack é usado nas ruas, por crianças, e fingimos que não estamos vendo.
E o pior: quando o governo toma a atitude de tratar destes menores, começa a receber críticas. Defendo a internação compulsória de menores proposta pelo Secretário Municipal de Assistência Social do Rio, Rodrigo Bethlem, que conta com minha assistência sempre que precisar. Conter involuntariamente uma criança que esteja se drogando é atitude humana, amparada na lei e tem o apoio do juizado de menores. É preciso considerar que nem sempre a pessoa que quebra um braço quer ser atendida pela ambulância: muitas vezes porque não conseguem avaliar adequadamente suas necessidades. A questão já foi até debatida por nós na Comissão de Justiça da Câmara dos Deputados, em Brasília, e o projeto do combate ao crack no Rio - mesmo imperfeito por ser uma espécie de cobaia está sendo imitado em outros estados.
Vamos lembrar que crack é uma droga que entra muito rapidamente na circulação sanguínea, enfraquecendo o organismo e predispondo-o a doenças infecciosas e à morte. Causa doenças pulmonares graves, porque o usuário respira veneno, a escória da cocaína. Quem se droga, se descuida da alimentação, ingerindo menos proteína e fabricando menos anticorpos. Também não se importa com a higiene, permitindo a entrada de micróbios agressores no organismo. O crack cria dependência em menos de dez vezes de uso. Sua ação cerebral grave altera a condução do pensamento, levando a transtornos mentais e comportamentais sérios, com aumento significativo da agressividade.
Minha experiência clínica me permite afirmar que até cinco anos atrás eram pouco freqüentes as internações pro crack no país. Mas agora, é raríssimo encontrar alguém internado para tratar dependência química que não tenha usado crack. Com isto, o tempo das internações também mudou. Se antes, precisávamos de 60 dias de internação para casos graves de dependência de cocaína, hoje são necessários seis meses para estancar a compulsividade que toma conta do usuário de crack, com equipe de médicos, enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, professores de Educação Física, nutricionistas... E depois da alta, o paciente depende de acompanhamento 24h e freqüência aos grupos de Narcóticos Anônimos, o recurso gratuito de manutenção da abstinência, para não facilitar a temida recaída.
Há muito tempo, ofereço um espaço gratuito para tratamento ambulatorial de dependentes químicos na Câmara Comunitária da Barra da Tijuca, onde também formo conselheiros. Este ano, o curso gratuito conta com 160 alunos. Serão eles que, em 2013, como todos os anos, vão se organizar para colocar na rua a banda Alegria Sem Ressaca, que faz prevenção à dependência química, desfilando pela orla de Copacabana no domingo anterior ao Carnaval. Será o décimo desfile da banda, que tem a atriz Luiza Tomé, familiar de dependente químico, como madrinha.
*Jorge Jaber é médico, especialista em dependência química pela Um de Harvard, diretor científico da Associação Brasileira de Alcoolismo e Outras Drogas (ABRAD), e assessor da presidência Associação Brasileiro de Psiquiatria, para assuntos ligados à dependência química (ABP).

domingo, 18 de março de 2012


A crônica de um menor viciado em crack.

Lauro Neto RIO - O adolescente X., de 14 anos, é viciado em crack desde os 10. Há 11 dias, ele foi recolhido por agentes da prefeitura numa cracolândia na favela do Jacarezinho e, há uma semana, está na Casa Ser Adolescente, uma unidade de abrigo compulsório da prefeitura para crianças e adolescentes dependentes químicos, em Campo Grande. Não é a sua primeira vez sob a tutela do município. Em quatro anos, X. passou 66 vezes pela Central de Recepção Carioca, responsável pela triagem dos menores acolhidos nas ruas.
O garoto é mais um no exército de menores de idade dependentes de crack no Rio. No próximo dia 31 de março, completa um ano que a prefeitura começou operações de recolhimento específicas para cracolândias. A partir daí, foram 3.579 acolhimentos. Desses, 544 foram de crianças e adolescentes, que, desde maio, são mantidos nos abrigos mesmo contra sua vontade, e só podem ser liberados pela Justiça.
Mas muitos fogem dos abrigos. Segundo o secretário municipal de Assistência Social, Rodrigo Bethlem, há, no máximo, 150 menores viciados em crack nas ruas e em atendimento. Boa parte, reincidente. Muitos foram abrigados ao menos três vezes desde 31 de março. Ano passado, X. foi acolhido e voltou às ruas três vezes. No último dia 7, ao ser abordado por agentes da Secretaria Municipal de Assistência Social, no Jacarezinho, ele até cumprimentou a equipe.
Já conheço todo mundo. Passei por todos os abrigos que existem conta ele, rindo. Fugi de um que ficava em Barra Mansa e voltei andando. Ano passado, pulei o muro do Ser Criança, peguei o trem e fui direto para o Jacarezinho.
‘Nossos abrigos não são presídios’, diz secretário
Desde que a prefeitura implementou o acolhimento compulsório, há dez meses, os menores só podem deixar o abrigo com aval da Vara da Infância e da Juventude. A medida gerou controvérsia. Para algumas entidades de direitos humanos, trata-se de uma agressão ao direito de ir e vir. Além disso, a Ordem de Advogados do Brasil (OAB) critica a estrutura do município para atender a essas pessoas. Mas o secretário Bethlem diz que é a única forma de combater o problema sem "enxugar gelo".
Não há outra solução para salvar a vida de um garoto que passou 66 vezes pela nossa rede e continua na rua usando crack. Nossos abrigos não são presídios. Não tem polícia ou grade eletrificada. Mas acabou esse negócio de portas abertas, de entrar e sair a hora que quer. O grau de evasão está muito inferior.
Ao chegar à Central Carioca, logo após ser tirado do Jacarezinho, X. foi tomar um banho. O garoto, que usa pingente no pescoço com a palavra "rebeldes" presente da namorada, também viciada em crack, conta que já roubou várias vezes, para manter o vício.
Já perdi a conta de quantas pessoas roubei para comprar a droga. Até um celular da minha mãe eu levei.
A mãe de X., segundo ele, mora no Morro dos Macacos, em Vila Isabel. A equipe do GLOBO tentou falar com ela, mas a prefeitura não conseguiu localizá-la. O próprio adolescente não a vê desde dezembro, quando foi liberado, temporariamente, para passar o Natal com ela e os cinco irmãos. X. conta que um outro irmão morreu na guerra do tráfico. O pai, diz ele, também está morto.
Ainda na Central Carioca, o dilema da diretora, Evelyn Serra, era decidir para onde encaminhar o menino, que já havia passado pelo acolhimento compulsório e por centros de atenção psicossocial:
Ele tem um histórico de drogadição muito grande, já foi reintegrado à família e fica nesse ciclo: casa, rua, abrigo.
Segundo a prefeitura, os 20 menores abrigados na Casa Ser Adolescente têm assistência psicológica e pedagógica, com aulas de desenho, espanhol e de educação física. Junto dos colegas e observado pelos funcionários do local, X., que só estudou até a 2 série, garante que quer se recuperar.
Não sei o que dá na minha cabeça quando fujo. Mas agora quero sair pela porta da frente, de cabeça erguida. Só volto para casa quando estiver gordinho, como minha mãe me viu. Meu sonho é entrar para a Aeronáutica.
Diretora da Ser Adolescente, Maria Cruz estima que só 15% dos jovens que passam por lá se recuperam, mas diz que a evasão diminuiu. O histórico de X. mostra que 47 de suas passagens pela rede de acolhimento foram em 2009. Dez delas aconteceram em 2010. Desde 2011, quando começou o acolhimento compulsório, foram quatro. Mas a advogada Margarida Pressburger, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, critica a forma como é feito o acolhimento no município.
Eu estive na Casa Viva, na Rua Alice, em Laranjeiras, e notei uma grande falta de estrutura médica e psicológica, tanto em termos de equipamento quanto de profissionais. Desse jeito, a prefeitura não está recuperando ninguém. Está apenas tirando das ruas, para a população não ver, e mantendo em cárcere.
A luta para deixar a droga no passado
Em dezembro, o governo federal anunciou um programa de enfrentamento ao crack com recursos de R$ 4 bilhões. Semana passada, a prefeitura de Recife e o governo pernambucano formalizaram sua adesão, e receberão R$ 85 milhões até 2014. Segundo o Ministério da Justiça, o estado e a cidade do Rio só não foram incluídos ainda por problemas de agenda das autoridades, já que a cerimônia de adesão envolve três ministros (Saúde, Justiça e Desenvolvimento Social), além do governador e do prefeito.
O objetivo do programa é permitir que viciados possam deixar para trás a droga. A carioca Bruna, de 18 anos, orgulha-se ao dizer que parou com o crack. Filha de uma família desestruturada, ela experimentou a droga aos 16. Em maio de 2011, foi encaminhada pela prefeitura para o centro de tratamento Bezerra de Menezes, em Guaratiba. Uma das primeiras adolescentes a ser mantida compulsoriamente num abrigo, Bruna ficou cinco meses no local, até fazer 18 anos. Hoje, casada com um ajudante de cozinha e grávida, está livre do crack há dez meses. Ela sonha ser educadora.
Antes, eu não aceitava que estava viciada, conta Bruna. O abrigamento me ajudou muito, mas a realidade é aqui fora. Sempre que bate a fraqueza, ligo para o pessoal da Bezerra de Menezes. Noutro dia, vi parentes fumando crack e não tive vontade. Eu venci, e tenho esperança de que eles vão conseguir um dia.
Contudo, para o coordenador do Programa de Estudos e Assistência ao Uso Indevido de Drogas do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, Marcelo Santos Cruz, o acolhimento obrigatório é uma medida de eficácia questionável.
Essa prática é uma resposta imediatista, que tem o resultado de diminuir a visibilidade do problema. Mas os efeitos desta política a médio e longo prazo são desconhecidos critica Cruz, que desenvolve uma pesquisa com 80 usuários de crack no Rio. Afastar os sujeitos das drogas e de outras situações de risco é uma coisa. Eles se tratarem é outra. É importante que a pessoa esteja motivada a parar de usar drogas.

Aumento do número de pessoas acima de 50 anos que usam a droga preocupa médicos
Sandra Kiefer
O Brasil ainda se nega a aceitar a própria velhice. Já o crack não tem preconceito de idade. Os fornecedores da chamada pedra do mal, que custa bem menos que uma dose de cachaça (de R$ 2 a R$ 10 a unidade) e vicia mais que a bebida, já descobriram suas novas vítimas. Depois dos jovens, perdidos como mendigos nas cracolândias, começam a atrair as pessoas acima de 50 anos. Segundo os últimos dados do Centro Mineiro de Toxicomania (CMT), dos 1.217 casos de dependentes de drogas lícitas e ilícitas que buscaram a ajuda da instituição no ano passado, o número de usuários de crack (119) com mais de 50 anos superou, pela primeira vez, o universo de entrevistados de mesma faixa etária que declararam ser usuários de álcool (113).
A diferença dos viciados de cabelos brancos é que, além de terem renda garantida pelo trabalho, aposentadoria e empréstimos consignados, buscam no vício uma saída para o abandono familiar, as doenças crônicas e o isolamento social que vem com a chegada da aposentadoria. “Quando dei por mim, estava debaixo do viaduto da Avenida Silva Lobo, morando com uma noiada (apelido que se dá aos usuários do crack que vivem em paranoia)”, revela o vendedor autônomo Antônio, de 54 anos. Para financiar o vício, ele vendeu dois carros (um Palio e um Peugeot) e uma casa de campo e queimou todas as economias. Só não perdeu o apartamento no Bairro Barroca porque foi interditado pelos filhos um dentista, de 25 anos, e um professor, de 28.
Os casos ainda são pontuais, mas servem de alerta às autoridades, segundo a gerontóloga Viviane Café Marçal, autora de Crack na terceira idade: o inimigo invisível. “Ninguém está preparado para lidar com idosos mexendo com drogas. Muitas vezes o paciente chega ao hospital depois de ter sofrido uma queda e diz ter misturado os remédios. Ninguém vai perguntar se ele usou cocaína ou crack, porque essa pergunta não existe no prontuário. E ele também não vai falar sobre isso na frente do filho”, avisa. Ela acredita que os casos são subnotificados, devido à falta de informação dos enfermeiros, policiais e familiares em relação ao tema. “É preciso acordar para a realidade atual. Caso contrário, em 10, 15 anos, o número vai ser alarmante”, completa.
Filha pede socorro
“No final do ano passado, uma filha nos procurou pedindo socorro. Ela buscava tratamento de saúde e tentava conseguir a interdição do pai, de quase 70 anos, que estava dilapidando o patrimônio da família com o uso do crack”, conta o defensor público Estêvão Machado de Assis Carvalho, da Defensoria Especializada do Idoso e da Pessoa com Deficiência, reativada há oito meses na capital. O mais comum, porém, é ocorrer o contrário, ou seja, o idoso pedindo proteção contra um filho ou neto envolvidos com drogas. Eles se tornam violentos ou usam indevidamente o benefício do INSS do pai ou avô para sustentar o vício. “O crack está se alastrando e a população de idosos está crescendo. É só uma questão de tempo para as duas pontas se encontrarem”, diz.

domingo, 11 de março de 2012


O consumo da droga avança, mas governo e entidades sociais enfrentam dificuldades para contê-lo. Ainda falta informação sobre o problema.

LILIAN TAHAN
ALMIRO MARCOS

Cada vez mais inserido na realidade de pobres e de ricos, de homens e de mulheres, os prejuízos pessoais e sociais do consumo de crack são evidentes. Os usuários sabem, a sociedade tem noção dos danos e o Poder Público, a responsabilidade de cuidar dos dependentes e de proteger os não usuários dessa droga que contamina a convivência em comunidade. Mas o fácil acesso e o consumo escancarado das pedras durante o dia ou à noite em endereços da periferia ou no centro do Distrito Federal são evidências de que o enfrentamento ainda não mostrou resultados suficientes, nem por parte do governo federal, nem do GDF.
Em 14 de agosto do ano passado, quando estava em viagem à China, o governador Agnelo Queiroz (PT) anunciou o lançamento de um programa envolvendo várias secretarias, que estariam engajadas no combate ao consumo e à venda de crack na cidade. Disse, na época, que o governo teria tolerância zero para enfrentar a situação. Sete meses depois, no entanto, ainda é possível fazer flagrantes em vários pontos da cidade onde o crack é combustível para a violência, como mostrou a reportagem na última semana. Desde domingo, o Correio publica a série Mulheres de Pedra, que aborda as consequências da dependência dessa droga no universo feminino.
Um mês depois de anunciar a ofensiva contra o crack, o GDF lançou a operação Marco Zero, com a participação de secretarias como a de Segurança, de Justiça, de Desenvolvimento Social e de Saúde. A iniciativa oficial era fazer uma ação conjunta que abordasse não só a repressão ao consumo e à venda das pedras, mas também um trabalho de prevenção. Segundo integrantes do governo, o projeto está na rua, nas escolas e nas unidades preparadas para lidar com usuários. O subsecretário de Políticas sobre Drogas, Mário Gil, explica que as ações foram planejadas para o período de quatro anos e que muitas delas ainda estão em fase inicial.
Gil cita, por exemplo, que o combate eficiente depende de um mapeamento confiável dos pontos onde a droga é vendida e consumida, bem como de estudo sobre o perfil dos usuários e da quantidade de pessoas envolvidas no problema. "A pesquisa de georreferenciamento, vulnerabilidade e pontos do crack ainda está em andamento. A falta de dados atrasa o nosso trabalho", admite o subsecretário.
O levantamento é coordenado pela Companhia de Planejamento do DF (Codeplan). Quando o órgão for a campo constatará, por exemplo, que usuários e traficantes consomem e vendem a droga explicitamente em endereços de Ceilândia, como na QNN 03 e na QNN 13, na área central de Taguatinga e, eventualmente, na Rodoviária do Plano Piloto.
Mais dependentes
A gerente do Centro de Atenção Psicossocial em Álcool e Drogas (CapsAD) da Rodoviária do Plano Piloto, Maria Garrido, informa que o número de atendimentos em fevereiro (467) foi o maior desde setembro do ano passado, quando a unidade passou a funcionar. "O crescimento da procura é um sinal de que mais pessoas sofrem da dependência, mas também demonstra que há um público maior assistido pelo Poder Público", defende. O CapsAD da Rodoviária atende 15 regiões administrativas do DF - Lago Norte, Lago Sul, Asa Norte, Asa Sul, Cruzeiro Novo e Velho, Octogonal, Sudoeste, ParkWay, Núcleo Bandeirante, Candangolândia, Varjão, São Sebastião, Vila Telebrasília e Vila Planalto (leia arte).
No combate ao crack, a dificuldade de mapear os pontos de compra e de venda e de conhecer o perfil dos usuários não são as únicas cobranças feitas ao Poder Público. Representantes de comunidades terapêuticas reclamam que é difícil manter o funcionamento das casas de recuperação sem recursos oficiais. Muitas clínicas de internação espontânea recebem pacientes recomendados pelos CapsAD. "O dinheiro de emendas é fundamental para sustentar a nossa rotina. Mas conseguir esses recursos é uma luta constante", conta Cláudia Britto, presidente da Transforme, que acolhe crianças e adolescentes.
Coordenadora de uma das três comunidades terapêuticas especializadas na recuperação de mulheres, Maria Lúcia Pereira aponta que uma das iniciativas oficiais capazes de ajudar a comunidade terapêutica não é compatível com a rotina dos usuários. "O governo oferece uma ajuda de custo de R$ 800 por paciente internado, mas deve-se comprovar que as internas ficaram o mês todo. Os recursos acabam fazendo falta para as que ficam", diz Lúcia, que mantém a casa com doações.
Apreensão de dois quilos
Um homem foi preso, na última quarta-feira, com mais de dois quilos de pedras de crack. A ação da polícia ocorreu às 19h50 em Sobradinho 2, em um depósito que servia de esconderijo para a droga. Segundo o delegado-chefe da 35ª Delegacia de Polícia, Rogério Rezende, Pedro Antônio Oliveira Júnior, 26 anos, era investigado desde janeiro. Após uma denúncia anônima, os policiais encontraram o deposito, na residência de um adolescente de 17 anos. O garoto fugiu e ainda não foi encontrado. Pedro Antônio acabou preso com 2,5kg de crack, que ao todo daria para vender 7 mil pedras da droga, além de 300g de cocaína.


Cigarro x informação

Jornal Diário de S. Paulo
É triste e chocante a constatação de que os brasileiros da classe C gastam mais com cigarro do que com alimentos, conclui a mais recente pesquisa Pyxis Consumo, feita pelo Ibope Inteligência. Sempre se soube que a carência de informação cria legiões de incautos em todos os setores. Não é de hoje, aliás, que a indústria do fumo se beneficia do contingente de desinformados que ela ajuda a formar, com a propaganda explícita e com a propaganda implícita, subliminar.
Nos últimos anos, com a ampla exibição de filmes antigos pelos canais pagos da TV, percebe-se como se incentivava o tabagismo nas telas.
Praticamente todos os personagens fumavam. Não só os machões durões, mas também as frágeis mocinhas de repente tiravam o cigarro da carteira e logo aparecia alguém com o isqueiro aceso, ou com o fósforo às vezes acendido por meio de surpreendente fricção na sola do sapato, na manga do paletó. O cinema foi um disseminador da vontade de fumar. É de se supor, aliás, que a indústria do tabaco esteja adorando (e financiando?) esses canais especializados em passar filmes antigos.
Até meados da década de 1980, a propaganda de cigarros era uma das campeãs nos meios de comunicação brasileiros. Houve um largo período em que todas as contracapas de revistas semanais traziam anúncios de cigarros. A partir das descobertas científicas de que o tabaco provoca uma infinidade de doenças, vem diminuindo em todo o mundo a propaganda das diferentes marcas. O Brasil tem seu crédito, no combate eficiente ao tabagismo, graças àquelas contracapas dos maços de cigarro com fotos terríveis de pessoas que tiveram a saúde comprometida pelo vício de fumar.
No Brasil, como na maioria dos países, multiplicam-se as restrições ao tabagismo. Primeiro em São Paulo, depois no restante do país, está proibido fumar em recintos fechados. Nos locais de trabalho, não podem mais existir os “fumódromos”, aqueles espaços reservados para fumantes. Quem quiser fumar, que vá para a rua, onde a fumaça se dispersa e os não fumantes (ou fumantes passivos) não têm os seus pulmões ameaçados pela fumaça que vem do cigarro alheio.
Infelizmente, a noção de que o cigarro é nocivo ainda não está consolidada entre as pessoas menos informadas. De um modo geral, essas pessoas são também as de renda mais baixa, responsáveis por 50% dos cigarros que serão consumidos no Brasil em 2012. Esse dado impressionante mostra que a guerra ao tabagismo precisa continuar. Além das autoridades, que não podem relaxar nas restrições à propaganda do cigarro, também os meios de comunicação têm o dever de levar aos brasileiros mais desinformados a informação de que nicotina é um veneno, uma ilusão que mata







Brasil se mantém como 2º maior consumidor de cocaína do mundo
Uol Notícias
O Brasil permanece como o segundo país que mais consume cocaína no mundo, enquanto Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai ainda são passagem de drogas de outras partes da América do Sul rumo à Europa e América do Norte, segundo dados divulgados nesta quarta-feira pelo governo dos Estados Unidos.
O Departamento de Estado americano divulgou nesta quarta-feira o relatório anual "Estratégia para o Controle Internacional de Narcóticos", documento que avalia a colaboração de outros países na luta dos EUA contra o tráfico de drogas.
ARGENTINA
A Argentina continua sendo uma passagem crucial para a cocaína produzida na região da Cordilheira dos Andes e, embora o recém-criado Ministério de Segurança tenha trabalhado para melhorar o controle de narcóticos, o "lento processo" de execução somado à queda da cooperação com os EUA reduziu a capacidade de interdição.
As autoridades americanas consideram que os esforços antinarcóticos no México e na Colômbia obrigaram os traficantes a utilizar outras rotas no mercado. A redução das capacidades de interdição de drogas na Bolívia também "contribui de maneira significativa" ao aumento do trânsito de cocaína através da Argentina.
A droga mais consumida continua sendo a maconha, importada do Paraguai, mas o uso da cocaína cresceu e a Argentina se transformou no segundo maior mercado interno desta droga na América Latina, após o Brasil.
BRASIL
O Brasil é o segundo maior consumidor de cocaína do mundo, após os Estados Unidos, e registra altas taxas de consumo de maconha. Além disso, é o principal país de trânsito para a cocaína com destino aos mercados internacionais, principalmente à Europa.
Os EUA reconhecem os esforços do Brasil na luta antinarcóticos suas forças de segurança são "muito profissionais e comprometidas" na luta antinarcóticos, mas os 16 mil quilômetros de fronteira que mais da metade são compartilhados com os principais países produtores de maconha e cocaína o tornam um país vulnerável.
O relatório indica que a indústria química do Brasil cresceu nos últimos anos, relacionada a setores lícitos da economia, mas também a compostos precursores para a produção de cocaína. Por isso, os controles da substância representam um desafio para o país.
"Como um dos dez maiores fabricantes de produtos químicos do mundo, líder na América Latina e o único país que faz fronteira com os três países andinos produtores de cocaína, os controles químicos representam um desafio particular".
Washington também destaca o Brasil por seu papel "pró-ativo" na identificação de ameaças de droga emergentes.
CHILE
O Departamento de Estado reconhece que o Chile "não é um grande produtor de drogas orgânicas ou sintéticas", mas ressalta que se trata de um país "significativo" para o trânsito de cocaína com destino a outros lugares, em particular à Europa.
Os EUA reconhecem que, devido a sua longa fronteira com Peru, Bolívia e Argentina, "difícil de vigiar", enfrenta uma dificulta maior para combater o tráfico de drogas.
Além disso, as restrições derivadas do tratado de paz resultante da Guerra do Pacífico (1879-1883) estabelecem que as autoridades chilenas devem solicitar permissão ao governo da Bolívia para inspecionar qualquer carga que transite pelo país.
"Essas restrições para inspecionar impedem os esforços de interdição de cargas de narcóticos ilegais, permitindo que alguns cargueiros passem pelos portos chilenos sem inspeção", lamentou o Departamento de Estado.
O Chile, da mesma forma que o Brasil, é fonte de químicos precursores utilizados na produção de cocaína no Peru e Bolívia, assim como de efedrina, um composto que costumam ser utilizado sobretudo pelos traficantes mexicanos para a fabricação de metanfetamina.
Os EUA lembram que, segundo o relatório anual de drogas da ONU, o Chile é o maior consumidor de maconha e cocaína per capita na América do Sul.
O relatório valoriza os planos do governo de Sebastián Piñera para tratar "todas as fases dos esforços do controle de drogas", inclusive o consumo interno, recomenda o aumento das unidades especializadas antinarcóticos e reitera seu apoio para "continuar sua parceria" contra o narcotráfico.
PARAGUAI
"O Paraguai enfrenta grandes desafios para lutar com eficácia contra o narcotráfico e a produção: sua localização e os desafios institucionais enfrentados pelos organismos de aplicação da lei e pelos tribunais continuam dificultando os esforços contra o narcotráfico".
O país é um dos principais produtores de maconha no Hemisfério Ocidental, droga que segue com destino ao Brasil e Argentina. Também é uma nação de passagem para a cocaína andina, a maior parte da qual se destina à Europa, África e Oriente Médio, além dos países vizinhos e, em quantidades menores, aos EUA.
O relatório assinala que, apesar de a demanda interna de drogas ilegais continuar baixa, "o consumo de crack aumenta".
Os EUA enfatizam a necessidade de o Paraguai melhorar os esforços antinarcóticos, assim como aprofundar a colaboração com a polícia brasileira, e pedem que Assunção continue tomando medidas contra a corrupção.
Por outro lado, "o tráfico de armas, lavagem de dinheiro, falsificação e outras atividades ilegais relacionadas ao tráfico de drogas também são frequentes".
URUGUAI
O Uruguai também não é país produtor, mas os narcotraficantes estrangeiros são cada vez atraídos pela localização estratégica marítima e pelas "porosas fronteiras" do país com Brasil e Argentina, o que facilita o trânsito ilegal de substâncias.
O consumo local da pasta base de cocaína "continua sendo um problema", indica o relatório, que assinala que os esforços para combater o tráfico e o consumo interno "são relativamente eficazes, apesar dos limitados recursos disponíveis" para os organismos policiais.

sexta-feira, 9 de março de 2012


Crack, pedra no sapato dos governos.


Feita a partir da mistura de pasta de cocaína com bicarbonato de sódio, uma forma impura de cocaína e não um subproduto, a fumaça produzida pela queima da pedra de crack chega ao sistema nervoso central em dez segundos devido ao fato de área de absorção pulmonar ser grande. Seu efeito dura de três a dez minutos, provocando euforia mais forte do que a cocaína, após o que produz muita depressão,levando o usuário a usar novamente para compensar o mal-estar, provocando intensa dependência.

O governo federal deve firmar com oito estados, até o fim do primeiro semestre, o termo de adesão ao ‘Programa Crack, é possível vencer’. O pacto entre as diferentes esferas de governo tem o objetivo de aumentar a oferta de tratamento de saúde e atenção aos usuários de drogas, enfrentar o tráfico e as organizações criminosas e ampliar atividades de prevenção.

O combate a esta droga nefasta requer a criação de uma força-tarefa que envolva as três esferas de poder. União, estados e municípios e que deve envolver equipes multidisciplinares que atuarão desde a repressão pelo aparato policial combatendo a entrada, distribuição e comercialização, ao atendimento médico e assistência psicológica aos dependentes químicos. O Governo lançou um plano nacional de combate às drogas, cuja metodologia deverá atuar de forma ostensiva nas fronteiras brasileiras, sobretudo na região norte, pela proximidade com a Bolívia, Perue Colômbia. Dados da Organização Mundial de Saúde revelam que,em 2008, os governos relataram a descoberta de 9.730 instalações clandestinas “laboratórios” envolvidas no processamento de coca, em comparação com 7.245 em 2007. Mais de 99% dos laboratórios foram localizados nos três países que cultivam a coca: Bolívia, Colômbia e Peru.

Nos últimos quatro anos, houve um aumento significativo no número de laboratórios de processamento de coca desmantelados nesses países e também em outras partes do mundo. Em 2008,a existência de laboratórios de cocaína também foi relatada em outros países da América do Sul,como Argentina , República Bolivariana da Venezuela, Chile e Equador.

Os governos de todo o mundo estão preocupados com o avanço do tráfico de drogas e que tem consumido uma parcela significativa dos orçamentos para o combate e a repressão a atividade ilícita. Há carregamentos de cocaína ocorrendo por via aérea a partir de diversos países sul-americanos (Brasil, Argentina, Uruguai,etc.), do Caribe (Antilhas Holandesas, República Dominicana, Jamaica, etc.) e de países da América Central (incluindo a Costa Rica) com destino à Europa. Os carregamentos também são enviados em pequenas aeronaves a partir da República Bolivariana da Venezuela ou do Brasil para diferentes destinos da África Ocidental.

A sociedade Civil precisa assumir a sua responsabilidade, pois o problema das drogas não é apenas dos governos ou dos viciados,é um problema de todos nós, da família, que deve ser a guardiã da estabilidade social e também das instituições religiosas que exercem uma influência muito grande nos costumes e cultura das pessoas. Depende de todos a mobilização por uma juventude sem drogas e por uma sociedade mais humana e fraterna.


George Hilton
 Deputado federal e membro da Comissão de Relações Exteriores e Defesa da Câmara dos Deputados


Beber, dirigir, morrer – por uma lei seca baseada em evidências.
Se você já tem uma opinião fechada sobre a “lei seca”, que nos proíbe de beber e dirigir, não precisa continuar lendo. As considerações a seguir são feitas para levantar algumas dúvidas que aparentemente não têm passado pela cabeça dos nossos legisladores, mas deveriam ser levadas em conta no projeto de reforma da lei que está em curso. Aliás, como não canso de dizer, deveríamos entrar em campanha permanente por uma Legislação Baseada em Evidências.
Enquanto a lei atual diz que é crime “Conduzir veículo automotor, na via pública, estando com concentração de álcool por litro de sangue igual ou superior a 6 (seis) decigramas”, há um projeto no senado que pretende criminalizar “qualquer concentração de álcool”. Visando o endurecimento da lei, o projeto prevê também não ser necessária a realização de testes, como o bafômetro, bastando quaisquer meios que “técnica ou cientificamente, permitam certificar o estado do condutor”, ou mesmo “mediante prova testemunhal, imagens, vídeos”. (A Câmara dos Deputados queira aliviar um pouco, estipulando sanções administrativas se os níveis forem abaixo de 6 e mantendo crime apenas se for acima disso).

Um parêntese: para facilitar a comparação com outros tempos e países, é preciso converter esses “6 de decigramas por litro” detectado no ar expirado (chamado Breath Alcohol Content – BrAC) em miligramas de álcool por decilitro de sangue, ou mg/dl (Blood Alcohol Content – BAC). A fórmula consagrada é BAC = 2100 x BrAC, o que quer dizer que o famoso “6″ da lei brasileira equivale aproximadamente a 120mg/dl de álcool no sangue. Fecha parênteses.
A história dos limites para beber e dirigir é paralela à história do tráfego urbano: no início do século XX começou a ficar claro que o álcool podia fazer da condução de veículos um risco inaceitável, e os parâmetros da proibição à época eram os sinais visíveis de embriaguez, como fala pastosa, incoordenação motora e desinibição ou agressividade. Foi a partir da década de 60 daquele século que iniciou-se a dissociação entre os sinais evidentes e a alcoolemia (nível de álcool no sangue), pois estudos indicavam que valores entre 50 e 100 mg/dl, embora não deixassem a maioria das pessoas bêbadas, já aumentava significativamente o risco de acidentes. Com o acúmulo de dados percebeu-se que a alcoolemia por si só não dizia muita coisa, sendo suas consequências diferentes conforme o sexo, a idade e a experiência dos motoristas. Assim, estima-se que 80mg/dl aumente em 9 vezes o risco de um acidente fatal em pessoas acima de 35 anos, mas eleve 34 vezes essa chance em homens com menos de 20 anos. Levando em conta tais nuances a maioria dos estados americanos, por exemplo, permite até 80mg/dl em adultos mas adota tolerância zero com menores de 21 anos. E conforme os estudos avançam mais se identificam alterações significativas com doses baixas de álcool: a capacidade de sustentar a chamada “atenção dividida”, fundamental para qualquer motorista, apresenta déficits a partir de meros 20mg/dl, e o aumento da probabilidade de um acidente é de 100% a partir de 50mg/dl (o que se atinge fácil com um único drinque). Quando estamos decidindo qual nível de álcool no sangue que vamos tolerar, portanto, estamos mesmo é escolhendo quanto aceitamos aumentar os riscos de mortes no trânsito.
A sociedade brasileira já decidiu não aceitar que ninguém beba nada antes de dirigir – não achamos que os goles valham os riscos. O que se discute agora é quanto um sujeito pode aumentar suas chances de provocar um acidente fatal para ser considerado criminoso (de acordo com os estudos, 120mg/dl – nível que o Senado quer zerar mas a Câmara quer manter – aumenta esse risco 196 vezes nos homens jovens).
Por fim, qual o valor das testemunhas ou outras provas para atestar a embriaguez? Infelizmente, mínimo. Os sinais inequívocos de bebedeira só começam a aparecer a partir de 150 mg/dl em média. Mesmo policiais e barmen erram 75% das vezes ao estimar a alcoolemia só pela observação. Ou seja, saber se alguém bebeu só de olhar é muito difícil, e mesmo que a pessoa esteja no criminoso nível de 120mg/dl isso pode tranquilamente não ser identificável a não ser por exames. Quer dizer que tentar resolver o problema da recusa ao bafômetro substituindo o teste por testemunhos, imagens ou vídeos não alivia muita coisa, pois o sujeito pode ser um enorme risco sem que isso seja notado. Não vi ninguém levantar essa lebre ainda, mas o código civil diz que a recusa a submeter-se a perícia pode “suprir a prova que se pretendia obter com o exame” – será que esse princípio não poderia valer para a lei seca?
Como disse, apresento aqui muito mais problemas do que soluções. Mas só iremos encontrar respostas precisas se soubermos as perguntas pertinentes, o que, me parece, tem faltado nesse debate.

quarta-feira, 7 de março de 2012


Internação compulsória e direito à vida
ANTÔNIO GERALDO DA SILVA
Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria

No quinto artigo, a Constituição Federal traz o direito à vida e à liberdade como garantias invioláveis do povo brasileiro. Por vezes, dois direitos tão fundamentais são confrontados. E aí surge a dúvida: entre a liberdade e a vida, com qual você fica? A capciosa dúvida, claro, não precisa ser levada ao extremo, mas o fato é que, sem vida, não há como reivindicar liberdade.
Ou seja, a liberdade possui limites. O que não tem limites e é inquestionável é o direito à vida. Nem que, para exercer esse direito em plenitude, o cidadão precise abrir mão da liberdade por algum período. O direito à vida deve ser compreendido ainda de acordo com uma visão global, incluindo na interpretação outros valores, entre os quais se destaca a dignidade humana, presente na curta relação de fundamentos da democracia brasileira.
E exatamente apoiada nos fundamentos da democracia, a Comissão de Assuntos Sociais do Senado está analisando o PLS 111/10, de autoria do senador Demóstenes Torres (DEM-GO), que altera o artigo 28, da Lei 11.343, a chamada Lei de Drogas, para estabelecer pena de detenção de seis meses a um ano para o usuário de drogas, bem como a possibilidade da substituição da pena privativa de liberdade por tratamento especializado.
Parlamentares já introduziram alterações ao texto original. Uma delas é a troca da prisão pela “internação compulsória”. Para a senadora Ana Amélia (PP-RS), relatora do PLS, a dependência química é questão de saúde e não de segurança já que 98% dos municípios brasileiros relatam problemas decorrentes do uso de álcool e drogas.
A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) cerra fileiras com a senadora e com os parlamentares que têm o mesmo posicionamento. Para a ABP, o dependente químico não é criminoso que precise de cadeia, é doente que necessita de atenção e atendimento especializado porque já está sentenciado à prisão sem grades determinada pelo uso das drogas.
Para o dependente químico e sua família, a internação compulsória, muitas vezes, se torna a única garantia de vida ou qualidade de vida. A ABP deixa claro, no entanto, que a internação compulsória deve ser acompanhada e indicada por psiquiatra.
Os críticos à medida argumentam que a internação compulsória expõe o caráter repressivo do recolhimento, afinal, a aversão a qualquer período de internação psiquiátrica é forte ainda nos dias atuais e baseia-se, principalmente, na legislação do direito à liberdade.
Acontece que a ação humana não é absolutamente livre, já diziam os filósofos. Todo agir está condicionado a escolhas e só está em condições de fazer escolhas e agir com liberdade quem melhor compreende as alternativas que lhe são oferecidas.
Sim, o direito à liberdade é muito importante, mas não é possível ser livre se se está preso a doenças mentais ou dependência química que, em última instância, levam o cidadão a ter comportamentos obsessivos, repetitivos, compulsivos, impulsivos, disfuncionais, autolesivos, suicidas de tal modo avassalador que ele perde a capacidade de amar e de trabalhar. Está preso a um automatismo mental que ele próprio reconhece ser tirânico e do qual não consegue se libertar.
Como afirma o filósofo-psiquiatra Henri Ey, o indivíduo perde a liberdade de decidir o que é bom e mau para si mesmo, perde até a liberdade de “pecar” por conta própria, dado o determinismo biológico e psíquico doentio a que está submetido. Espero nunca ser necessário fazer uma escolha que coloque em oposição o direito à vida e o direito à liberdade, mas se, para ter vida em plenitude, precisar abdicar de algum período de liberdade em local adequado, que assim seja.

Cada vez mais mulheres são dependentes

No Caps AD da Regional I, dos 4 mil prontuários existentes, cerca de 500 são de mulheres usuárias de álcool
A dona de casa Maria Dolores (nome fictício), 42 anos, ainda na infância, aos 12 anos de idade, foi apresentada ao álcool. Desde então, foram anos ingerindo uma garrafa de cachaça por dia, ao ponto de hoje apresentar problemas mentais em decorrência da bebida em excesso. No caso de Maria Dolores, ela sofreu influência da própria família para cair no vício, pois, desde criança, já convivia com pai e mãe dependentes do álcool.
A dona de casa tem três filhos, porém, por ser alcoolista e sem conseguir realizar o papel de mãe, os dois filhos mais novos se envolveram com drogas e, atualmente, um está na rua e o outro mora em um abrigo. Ela conta somente com a ajuda de uma tia que paga o aluguel da casa onde vive. "Comecei a beber por causa da vida que era dura pra mim. Diante disso, eu perdi a minha casa, passei a morar na rua e perdi meus dois filhos. O álcool é capaz de destruir a nossa vida e a daqueles que vivem próximos".
Quando se fala em dependência química, a preocupação maior é com as drogas ilícitas, cocaína, maconha, crack, ecstasy, entre tantas outras. No entanto, o grande inimigo está camuflado sob o manto do socialmente aceitável: o álcool. E, na correria da contemporaneidade, o acúmulo de tarefas faz com que as mulheres se tornem alvo fácil do alcoolismo.
Para se ter uma ideia, de acordo com uma pesquisa realizada pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS), através da coordenadoria de Saúde Mental, em 2011, a fim de refletir o perfil dos usuários atendidos na rede de Caps, dos 90 prontuários analisados, 17 eram mulheres dependentes de álcool, o que corresponde a 19% do total. Esse número cai para 14% dos atendimentos de mulheres usuárias de crack pelo mesmo serviço.
Segundo a terapeuta ocupacional e coordenadora do Centros de Atenção Psicossocial de Álcool e Outras Drogas (Caps AD) da Secretaria Executiva Regional I, Ticiane Neiza Sauders, em 2006, um ano após o início do funcionamento da unidade, existiam apenas 205 prontuários abertos e poucos pacientes eram do sexo feminino. Hoje, dos quatro mil prontuários abertos, pelo menos 500 são de mulheres, o que mostra um aumento bastante significativo.
Conforme ela, a maioria delas são alcoolistas, ou seja, dependentes de álcool, sendo que grande parte dessas mulheres têm entre 35 e 45 anos. As mais jovens, de acordo com coordenadora, são usuárias de múltiplas drogas. Apesar do número de mulheres em busca de ajuda ter aumentado, Ticiane Neiza ressalta que ainda existe uma subnotificação a respeito da quantidade real de pessoas do sexo feminino envolvidas com álcool, já que o preconceito e o estigma as afastam dos centros de tratamento.
Histórias

"Muitas chegam aqui contando que o viciado é o marido. Contam toda a história como se o protagonista fosse o esposo. E só depois de concretizado o vínculo confessam que a dependente química é ela", afirma Ticiane. Ainda conforme a terapeuta, o perfil dessas mulheres é diversificado. Existem umas que bebem por problemas na família, outras por dificuldades no trabalho, às vezes o marido é usuário de drogas, mas todas consomem a bebida com um único intuito: esconder-se dos problemas. "Muitas chegam em um estado crítico da doença e, por consequência disso, desenvolvem problemas mentais como psicose, transtorno bipolar, entre outros".
Segundo a coordenadora de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Rane Félix, para amparar essas mulheres, o órgão dispõe apenas de quatro das 12 vagas para tratamento de dependência química na Santa Casa de Misericórdia, seis Caps AD e 20 vagas na comunidade terapêutica Leão de Judá.
OPINIÃO DO ESPECIALISTA

Elas necessitam de tratamentos específicos

Nos últimos anos, vem acontecendo um grande aumento nos atendimentos às mulheres dependentes do álcool, nos grupos de autoajuda da Pastoral da Sobriedade, no Estado do Ceará. Em 2009, a grande parte das mulheres que procuravam os grupos de autoajuda eram por motivo da sua codependência (esposo ou filhos dependente do álcool ou outras drogas). Já nos dias de hoje, notamos uma grande procura por mulheres já acometidas da dependência.
As mulheres, apesar de serem mais suscetíveis aos efeitos do álcool, não são mais vulneráveis ao desenvolvimento da dependência. O risco é igual e depende da maneira como cada um se relaciona com a bebida. A necessidade de haver tratamentos especiais para mulheres alcoolistas se dá, principalmente, por causa do forte estigma sofrido pelas mulheres. O estigma do qual falamos cumpre um papel importante.
Como a maior parte dos tratamentos oferecidos é mista em relação ao gênero e a prevalência de homens é bem maior, as mulheres não encontram espaço apropriado nesses serviços, sendo vítimas de preconceitos dos próprios pares, encontrando dificuldades para endereçar suas questões pessoais. Por isso, é imperioso levar em conta a necessidade de criar tratamentos específicos para as mulheres que construam um espaço próprio que atenda suas particularidades e as protejam de estigma.
Só um governo eficiente, ético, não comprometido somente com interesses de grandes empresas, poderá diminuir essa tão grave epidemia de alcoolismo no Brasil. Já que não pudemos evitar a crise do setor hospitalar, que, pelo menos, possamos colaborar com ideias para conter o avanço do alcoolismo. Para o controle é preciso a proibição da propaganda de bebidas alcoólicas, pelo menos assegurar o cumprimento da Lei Seca, proibição da venda de álcool a menores e punição severa ao comerciante infrator. Só assim, haverá uma acentuada redução do uso abusivo do álcool não só no publico feminino mais em geral.
Rogério Melo
Coordenador da Pastoral da Sobriedade/Ceará
´O álcool funciona como uma saída para os problemas´

A sobrecarga de trabalho, além do papel tradicional que antigamente era de apenas cuidar da casa e dos filhos, a necessidade de estar sempre magra e saudável, a responsabilidade de ser um exemplo de mãe e ao mesmo tempo uma boa amante faz da mulher moderna um misto de emoções, diz o psiquiatra e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Fábio Gomes de Matos. Diante disso, segundo ele, as pessoas do sexo feminino se inserem no universo do prazer imediato e encontram no álcool uma "saída" momentânea para os principais problemas.
"A dependência do álcool começa como se fosse uma diversão, uma espécie de inibidor cerebral. Acho que, para reverter essa situação, seria fundamental desmistificar a história de que a ingestão do álcool gera prazer e mostrar que causa a doença", ressalta o psiquiatra. De acordo com ele, é essa ilusão que acarreta as doenças mentais, aumento das doenças químicas e uma redução significativa na expectativa de vida das mulheres, que chega a ser entre 10 a 15 anos a menos do que aquelas que não ingerem bebida alcoólica.
Fábio Gomes de Matos destaca que dados epidemiológicos mostram que, na década de 1960, a realidade era de cinco dependentes de álcool do sexo masculino para uma do sexo feminino. Hoje, conforme ele, esse dado é de três homens para uma mulher. "Atualmente, há um crescimento visível da quantidade de mulheres alcoolistas e, diante disso, o número de doenças como a depressão cresce, principalmente, entre mulheres de 30 e 40 anos. O álcool acaba com a vida da pessoa antes de matá-la fisicamente", destaca.
Para a terapeuta ocupacional Ticiane Neiza Saunders, muitas mulheres só procuram tratamento quando já estão muito doentes. Mas ressalta que, antes de tudo, para que tenham uma boa recuperação, é fundamental o apoio da família e boa vontade. "No começo, elas acham que beber é legal e que tudo não passa de uma brincadeira, porém só vão notar que estão doentes quando o estágio está avançado. Com o apoio da família é visível a evolução do tratamento dessa mulheres", finaliza.
KARLA CAMILA

Gatilhos dos vícios
Pesquisa publicada no British Medical Journal revela como algumas condutas aparentemente inofensivas servem como estímulos para péssimos hábitos. Uma das mais polêmicas conclusões é de que filmes com consumo de álcool incentivam esse tipo de ação
Algumas pequenas atitudes, para pessoas que têm tendência a vícios, podem servir como irresistíveis estopins para maus hábitos. Uma inocente xícara de café, por exemplo, é o suficiente para despertar a vontade quase irresistível de acender um cigarro em fumantes. O mesmo ocorre com bebida alcoólica, dupla quase inseparável do cigarro. De acordo com um estudo publicado no British Medical Journal e feito pela Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, alguns comportamentos podem, até mesmo, provocar o surgimento de vícios. Adolescentes que costumam assistir a filmes em que os atores consomem álcool, segundo os pesquisadores, têm duas vezes mais chances de começar a beber que jovens que não o fazem — e apresentam 63% mais chances de evoluírem para o binge drinking, termo cunhado para designar consumidores excessivos de álcool.
Durante dois anos, cerca de 6,5 mil crianças e adolescentes de 10 a 14 anos foram entrevistados sobre o consumo de álcool (se já haviam bebido ou não) e fatores que influenciariam o surgimento do vício, como ambiente doméstico com fácil acesso à bebida, comportamento dos pais em relação ao álcool e rebeldia pessoal. As cobaias assistiram a 532 filmes e foram orientadas a selecionar 50. Os pesquisadores mediram o tempo das cenas com consumo de álcool, bem como as imagens em que apenas a marca das bebidas foi mostrada.
Ao todo, os adolescentes ficaram expostos a uma média de 4,5 horas de cenas que mostravam o uso de álcool. Em alguns casos, dependendo dos filmes selecionados, esse número dobrou. Os pesquisadores, então, descobriram por meio de questionários posteriores que os jovens que selecionaram filmes em que os personagens eram alcoolistas foram aqueles que estavam duas vezes mais propensos a beber também. Além disso, 28% dos que passaram a ingerir álcool admitiram que se espelharam nos astros.
Ao longo dos 24 meses de estudo, a proporção de adolescentes que começou a beber dobrou: o índice dos que afirmaram já ter experimentado álcool passou de 11% para 25%. E o cinema não serviu apenas como ponto de partida para o vício. Os jovens que passaram a consumir álcool em excesso, ou seja, mais de cinco doses de bebida seguidas, triplicaram de 4% para 13%. A influência do comportamento dos pais dentro de casa foi, de acordo com o trabalho, uma das explicações para os resultados alarmantes. “O uso de álcool pelos pais foi relatado por 23% dos entrevistados, enquanto 29% deles disseram que poderiam obter álcool em casa com facilidade”, escreveram os condutores do estudo.
Colecionar roupas, chaveiros e outros objetos com marca de bebida também foi um dos fatores apontados como estimulante para o alcoolismo. A convivência com amigos que bebem e, claro, a própria personalidade dos entrevistados também contaram para a inclinação ao copo. Se o cinema dá vontade de beber, beber dá vontade de fumar. Outro estudo, feito pela Universidade de Otago, na Nova Zelândia, descobriu o que muitos frequentadores de bares já sabiam: a bebida alcoólica é um catalisador para o tabagismo. A presença de amigos fumantes, assim como no caso de bebidas alcoólicas, também funcionou como um incentivo para o ato de fumar.
O estudante Ítalo Martins, 23 anos, admite que a vontade de fumar e beber depende do contexto em que se encontra no momento. O clima propício do bar, o gosto da cerveja e a presença de amigos fumantes são os principais fatores que o levam a acender um cigarro, por exemplo. “Já aconteceu de me dar vontade de fumar depois que vi alguém fumando em filmes, propagandas e até desenhos animados”, descreve. “Penso imediatamente em como seria tragar aquela hora.” O estudante, contudo, não concorda que apenas assistir a pessoas consumindo álcool ou tabaco, em filmes ou na vida real, seja um fator forte o suficiente para desencadear o vício em quem quer que seja. “É um momento de descontração”, justifica. “Vejo as pessoas fumando, mas isso não significa que eu vá fumar. Só acho que bar e balada têm a ver com cigarro.”
Influência do lugar
Janet Hoek, professora do Departamento de Marketing da Universidade de Otago e uma das principais autoras do estudo, diz que muitos “fumantes sociais” — pessoas que só sentem vontade de fumar quando saem para festas, reuniões ou ocasiões específicas — nem mesmo gostam de cigarro. “Praticamente todos disseram que fumam porque querem fazer parte do grupo ou porque não querem que um fumante da turma se sinta alienado quando ele ou ela precisa ir para fora do estabelecimento para fumar”, detalha Janet. Ter que se deslocar do local onde todos estão reunidos parece um esforço desnecessário para quem não tem uma grande dependência de nicotina.

A dificuldade para encontrar um lugar para obter seu cigarro preferido faz com que Fernanda Akel, 30 anos, só fume quando está em terra. Fernanda é hoteleira e chega a passar seis meses no navio em que trabalha — período no qual dispensa a nicotina. Para ela, barreiras como essa ajudam a manter o vício sob controle. “Se não houvesse área de fumantes em lugar nenhum, eu não fumaria ou, pelo menos, não fumaria quase nunca”, opina. O quesito “social” do ato de fumar é, para ela, outro fator que dá impulso ao ímpeto de acender um cigarro. “Às vezes, você nem quer fumar, mas quase todos os seus amigos estão na área de fumantes, então você vai lá curtir com eles e acaba fumando também.”
Assim como Fernanda, Janet Hoek diz que muitos “fumantes sociais” não se consideram, propriamente, fumantes. Seguindo a pesquisadora, isso acontece porque eles têm definições mutantes de si mesmos, que variam de acordo com situações específicas, para que eles continuem encarando a si mesmos como livres do vício, como uma autodefesa. “Muitos não fumam sozinhos, não compram tabaco e afirmam que ‘escolhem’ quando querem fumar”, exemplifica. A crise de identidade que se segue a uma sessão de consumo intenso de álcool e tabaco vira uma bola de neve: o remorso dá origem ao conflito entre como eles se sentem (não fumantes) e o que fizeram. “Eles lidam com isso usando o álcool para explicar e justificar tal comportamento, e também para liberá-los para fazer tudo de novo, repetidamente.”
O hábito de sair à noite com os amigos para tomar uma cerveja é um dos programas que mais deixavam a radialista Joana Praia, 36 anos, com vontade de fumar. Essas ocasiões, contudo, não foram o motivo que a levaram a se tornar uma fumante social: desde a infância, ela já estava acostumada a ver a mãe fumando cerca de 60 de cigarros por dia. Na adolescência, veio a vontade de experimentar o tabaco — mas ela garante que nunca se tornou uma viciada. “Nunca fumei todos os dias, só quando saía”, reforça. “Acho que algumas pessoas são mais propensas a se viciar.” Desde o início da gravidez da filha, hoje com 9 anos, Joana não fuma. Além do novo estilo de vida, mais “tranquilo e caseiro”, o câncer de pulmão da mãe, diagnosticado há sete anos e já curado, serviu como alerta. “Minha família inteira também parou de fumar.”
Inclinação biológica
Além das influências ambientais, como familiares e amigos fumantes ou locais propícios, uma pesquisa publicada em abril do ano passado na revista especializada Biological Psychiatry descobriu que certas combinações genéticas podem ser as responsáveis pelo vício em tabaco. Os adolescentes analisados no estudo que tinham variantes de dois tipos de genes relacionados à dopamina e aos codificadores de subunidades dos receptores nicotínicos colinérgicos tinham três vezes mais chances de tornarem-se fumantes regulares na adolescência e corriam duas vezes mais risco de continuarem tabagistas quando adultos.

Três perguntas para Sueli Danergian, professora de psicologia das relações humanas do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP)
Filmes podem mesmo influenciar o início e a progressão de vícios, como o alcoolismo ou tabagismo?
Se você submete crianças a jogos e filmes violentos, isso estimula a agressividade de certas áreas cerebrais. Isso não quer dizer que influencia diretamente, mas há uma associação. Você induz a criança a agir daquela maneira. Antigamente, as pessoas eram muito influenciadas pelos atores e atrizes de Hollywood. Fumar era considerado charmoso, uma coisa chique. As pessoas viam os atores como se eles fossem mais importantes, e muita gente começou a fumar por causa disso, para imitá-los.

Outros fatores também podem influenciar o início de vícios, como o comportamento de pais que bebem ou fumam?
Sim, muitas crianças são inclusive iniciadas pela própria família. Já vi alguns casos de pais que até incentivam os filhos a beber. A propaganda também incentiva muito. Quanto mais ela acontece, mais o vício se instala. E as propagandas estão ficando cada vez mais incisivas. As de cerveja, em que as pessoas “louvam” a bebida, são um exemplo disso: as empresas estão apelando para que as pessoas não resistam às drogas, como cigarro e bebida. O cinema é um dos recursos apelativos da propaganda, já que é muito fácil que aconteça a identificação com esses ídolos. Aí, há um comportamento iniciativo, um estímulo a fazer também.

Como explicar a existência de “viciados ocasionais”, como no caso dos fumantes sociais?
Cada fumante social tem seu próprio processo. Algumas pessoas acham que é bonito, charmoso. Já ouvi de algumas pessoas que fumar dá um certo status, que faz com que elas se sintam diferentes dos outros. Mas isso não tem nada a ver. Certos indivíduos se apegam a coisas pouco significativas, como essas. No caso dos fumantes sociais, estar em uma roda em que só eles não fumam faz com que eles se sintam diminuídos e pensem que são consideradas menos importantes. Elas não percebem que, fugindo do modismo, demonstrariam personalidade. As pessoas acham que isso é bonito, mas o ideal é conseguir resistir ao que é modismo e afirmar a própria identidade sem que ela precise ser galgada na intimidação do comportamento dos outros. É mais difícil manter princípios e valores do que “seguir a onda”.


As meninas no tráfico
Elas se afundam na criminalidade e acabam exploradas na venda de drogas e na prostituição ainda na infância. Garotas representam 5% do total de jovens flagrados nessa atividade
Correio Brasiliense
» LILIAN TAHAN
» ALMIRO MARCOS

O caminho das mulheres de pedra passa inevitavelmente pelo submundo do crime. O consumo do crack arrebenta as usuárias e se torna um problema social porque é combustível para a violência. Na fissura pela manutenção do próprio vício, elas se envolvem em furtos, roubos, tráfico e prostituição. Muitas vezes, passam a figurar também nas estatísticas de homicídios. E, o pior, mergulham cada vez mais cedo na criminalidade.
Levantamento realizado pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT)nos últimos três anos mostra que a presença de adolescentes envolvidos em tráfico de drogas não para de aumentar. Há dois anos, 317 jovens foram flagrados vendendo entorpecentes, o que gerou a abertura de processos na Justiça. No ano passado, o número saltou para 795. A proporção de meninas nesse universo é de cerca de 5%, segundo o promotor Renato Barão Varalda, da Promotoria de Justiça da Defesa da Infância e da Juventude. Os dados foram reunidos nas varas da Infância e da Juventude de Brasília e de Samambaia.
Os exemplos desse ambiente de criminalidade entre crianças e adolescentes se espalham pelas ruas da capital. Na noite da última quinta-feira, carros faziam fila para percorrer uma via mal iluminada na QNN 3, Conjunto M, em Ceilândia Norte. O motivo do trânsito lento circulava entre os veículos: pelo menos duas adolescentes com menos de 15 anos carregavam pacotinhos. Despreocupadas, rapidamente elas se aproximavam da janela do veículo, entregavam a encomenda e pegavam o dinheiro. Na esquina, um homem recebia as notas e repassava mais material para abastecer os viciados em busca da pedra.
Normalmente, as meninas servem de avião (responsável pelo repasse de pequenas quantidades de droga) em troca da própria substância. Os traficantes usam as adolescentes nessa atividade e, em geral, envolvem-se sexualmente com elas. O promotor Renato Varalda confirma a realidade. “A maioria das meninas que pratica o ato infracional relacionado com drogas está envolvida emocionalmente. Se está usando, é porque o namorado consome. Se está traficando, é por influência do companheiro”, diz.
Atendimentos
Os casos que param nas estatísticas judiciais muitas vezes são acompanhados de perto pelas instituições e entidades ligadas à questão das drogas entre crianças e adolescentes no DF. O órgão oficial que faz essa assistência é o Centro de Pesquisa, Capacitação e Atenção ao Adolescente e Família (Adolescentro). É responsável por fazer o acolhimento e avaliar as necessidades de usuários, oferecendo terapias e fazendo acompanhamento clínico, psiquiátrico e psicológico.

A maior parte das cem entradas mensais tem relação com a maconha. O crack é minoria (5% a 6%), mas causa preocupação. “Quando chega aqui um usuário de crack é porque a situação já é complicada. Afinal, os seus efeitos no adolescente são mais rápidos e drásticos”, explica a gerente do Adolescentro, a psicóloga Michele Falcão.
As meninas representam um terço dos atendimentos da unidade e, no caso das usuárias da pedra, a reincidência é alta, ficando acima dos 50%. Elas são mais frágeis do que os meninos e dificilmente conseguem deixar o vício. “Mas isso não quer dizer que elas são irrecuperáveis. A taxa de recaída é grande, mas a abstinência total também é um processo. É muito importante o envolvimento da família. Além disso, é preciso trabalhar em conjunto com a escola, a sociedade e o Estado. O crack é um problema muito complexo”, avalia.
O Adolescentro registrou um recorde no atendimento de menores de 18 anos na unidade: uma menina de 9 viciada em crack. Ela deu entrada há seis meses e ainda está em acompanhamento. “É uma idade frágil e ela corre sérios riscos. Precisa ser acompanhada de perto por uma equipe multidisciplinar. É muito preocupante a relação de crianças tão novas com uma droga tão perigosa como o crack”, explica Michele.
Debate para internação
A internação compulsória é tratada por alguns especialistas no enfrentamento do crack como uma medida necessária para conter o uso da droga. Mas a medida demandaria a existência de clínicas de recuperação mantidas pelo governo. O assunto começou a ser debatido no Congresso Nacional. A Câmara dos Deputados tem hoje quatro proposições em andamento relacionadas com a internação imediata para tratamento de viciados. Todas deram entrada entre o ano passado e o início de 2012, justamente quando o consumo do crack cresceu no país.

Um dos projetos, de setembro de 2011 e de autoria da deputada Liliam Sá (PR-RJ), tem relação direta com crianças e adolescentes dependentes químicos e em situação de rua. Os demais tratam sobre usuários de maneira geral, independentemente da idade e do gênero. Ainda não há data definida para que nenhum deles chegue à votação final.
Na Câmara Legislativa do DF, ainda não há projetos que abordem a medida compulsória. Desde 1991, os deputados distritais apresentaram 140 normas sobre drogas, sete sobre dependência química e 18 sobre entorpecentes. Quatro propostas são específicas quanto ao crack, inclusive a que criou, no início do ano passado, a Frente Parlamentar de Combate ao Crack e à Dependência Química.
No recorte de gênero, tramita na Câmara um projeto de resolução que cria a Procuradoria Especial da Mulher no âmbito do Poder Legislativo. É possível que a proposta vá à votação nesta semana, por conta da proximidade com o Dia Internacional da Mulher. Após a publicação das primeiras matérias da série Mulheres de Pedra, desde o último domingo, que mostra o drama de usuárias de crack, a presidência da Câmara decidiu incluir o tema entre as atribuições da Procuradoria.
A internação compulsória de dependentes químicos só se dá em situações excepcionais no Brasil. O Ministério da Saúde usa como base a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, segundo a qual a internação de pessoas com transtorno mental só pode ocorrer quando houver risco iminente de morte para o paciente, por indicação médica ou por decisão judicial. “A internação compulsória é o último dos caminhos do tratamento. Só é usada quando não há mais saída”, explica a gerente do Centro de Pesquisa, Capacitação e Atenção ao Adolescente e Família do Distrito Federal (Adolescentro), a psicóloga Michele Falcão.
O exílio do crack
Sara* precisou mudar de país para fugir do crack, do namorado traficante e da morte. De tanto inalar a droga — em geral, os usuários fumam —, a jovem, hoje aos 22 anos, perdeu toda a cartilagem do nariz. “Eu não queria estragar os meus dentes, então cheirava a pedra. Entrava rasgando”, conta. Ela começou a usar drogas aos 12 anos, por curiosidade e para se integrar com os amigos mais velhos. Dona de uma personalidade forte, dizia à mãe que o uso do crack era uma opção. Mas precisou fugir da Colômbia para tentar se livrar da droga. A família veio para o Brasil para internar a menina em uma clínica e afastá-la de um relacionamento problemático. Há cinco anos, a jovem começou o tratamento. Teve duas recaídas, mas agora tenta se recuperar ajudando outros moças como ela a descobrir a beleza da vida sem as drogas.