sábado, 4 de fevereiro de 2012

Quais as conseqüências do uso prolongado de crack e cocaína? Como largar?
por Danilo Baltieri
"A Síndrome de Dependência de Cocaína/Crack é um quadro, geralmente, bastante grave e o paciente deve receber intenso apoio dos familiares. Infelizmente, muitos familiares querem ajudar, mas não conhecem a melhor maneira de fazê-lo. Dessta forma, a terapia familiar deve ser instituída em muitos casos"
Resposta: São inúmeras as conseqüências nocivas do uso de cocaína/crack. Após o consumo dessa substância, o usuário pode experimentar sintomas psíquicos e físicos, a saber:

a) Sintomas Psíquicos: euforia, aumento da vigília, sensação de bem-estar, autoconfiança exagerada, aceleração do pensamento;

b) Sintomas Físicos: aumento da freqüência cardíaca, aumento da temperatura corpórea, aumento da freqüência respiratória, sudorese, tremor de extremidades, espasmos musculares, tiques e dilatação das pupilas.

As complicações associadas ao consumo dessa substância envolvem praticamente todos os tecidos orgânicos. Abaixo, citarei alguns desses tecidos e algumas das respectivas complicações mais freqüentes.
1) Mucosa nasal e oral:

Efeito Agudo: quando a cocaína é inalada, ocorre ressecamento das narinas com posterior congestão nasal;

Efeito Crônico: se inalada, a cocaína pode provocar necrose da mucosa nasal até o desenvolvimento de ulcerações ou perfuração do septo nasal.
2) Complicações cardiovasculares:

Taquicardia, hipertensão, palpitações, arritmias cardíacas. O aumento do esforço cardíaco para bombear o sangue através da circulação pode levar ao infarto do miocárdio, mesmo em pessoas jovens e sem doença cardíaca prévia.

Indução de aneurismas, especialmente da aorta, tem sido bastante descrita.
3) Complicações pulmonares:

São principalmente relacionadas ao fumo do crack. São elas: pneumomediastino (ruptura dos alvéolos pulmonares com conseqüente extravasamento de ar entre os pulmões - mediastino), a conhecida síndrome “pulmão de crack” (caracterizada por dores no peito, falta de ar, tosse sanguinolenta), edema e necrose da mucosa da laringe.
4) Complicações neurológicas:

Hemorragias intracranianas, convulsões generalizadas, infartos cerebrais, prejuízo das funções cognitivas (memória, atenção, concentração).
5) Complicações gastrintestinais:

Colites induzidas pelo crack (caracterizadas por diarréia aquosa, cãibras abdominais dolorosas, vômitos).
6) Complicações oftálmicas:

Úlceras e escaras nas córneas de indivíduos que colocaram cocaína na conjuntiva ocular, ou submetidos às altas temperaturas da fumaça emitida pelo crack.
7) Psiquiátricas:

Além dos quadros de Abuso e Síndrome de Dependência, os usuários podem desenvolver quadros psicóticos (com presença de delírios e/ou alucinações), agitação psicomotora, síndromes maniformes (aceleração do curso do pensamento, idéias de grandeza, inquietação psicomotora).
8) Impacto na gestação:

Anormalidades fetais, parto prematuro, diminuição da superfície craniana e encefálica, desnutrição fetal, dentre muitas outras.
A melhor forma para se evitar essas danosas complicações é a abstinência total dessa substância. Infelizmente, muitos dos usuários somente procuram ajuda especializada, quando as várias complicações citadas já estão instaladas.

O tratamento da Síndrome de Dependência de Cocaína/Crack deve ser realizado por especialista na área. Infelizmente, até o momento, não existem medicações comprovadamente eficazes no manejo dessa condição, embora algumas tenham mostrado eficácia em estudos controlados.

O tratamento da síndrome pode ser realizado em ambulatórios, clínicas especializadas ou até mesmo em regime de internação. Isso dependerá da gravidade do quadro do paciente. Grupos de mútua ajuda têm auxiliado alguns desses pacientes.

O primeiro passo na direção do sucesso do tratamento é a motivação do dependente em cessar o consumo das substâncias. Além disso, a modificação do estilo de vida, associada com o apoio real dos familiares, são ingredientes indispensáveis durante o processo terapêutico.

A Síndrome de Dependência de Cocaína/Crack é um quadro, geralmente, bastante grave e o paciente deve receber intenso apoio dos familiares. Infelizmente, muitos familiares querem ajudar, mas não conhecem a melhor maneira de fazê-lo. Dessta forma, a terapia familiar deve ser instituída em muitos casos, já que, comumente, os familiares adoecem junto com o paciente, em um processo conhecido como co-dependência.



Como a família pode lidar de forma construtiva com o dependente químico?
por Danilo Baltieri
Resposta: O papel da família no tratamento do usuário de substâncias psicoativas é extremamente importante. Há evidências de que, com muitos dependentes químicos, o adequado relacionamento com a família constitui um dos principais fatores na prevenção de recaídas.

Recomenda-se que os familiares freqüentem o profissional de saúde especializado no tratamento das dependências químicas, mesmo que em um primeiro momento, o próprio usuário não queira se envolver em tratamento. A grosso modo, os familiares precisam saber:

a) O consumo de substâncias é um problema inserido entre muitos outros, ou seja, o usuário não apenas consome as substâncias, mas devido a isso, apresenta vários outros problemas (sociais, escolares, interpessoais, jurídicos etc);

b) A comparação do usuário com outras pessoas que são tidas como “modelos” não traz quaisquer benefícios; apenas poderá aumentar a irritabilidade do mesmo;

c) A adoção de uma postura baseada em brigas constantes, criticas severas ou castigos, quando os familiares descobrem que uma pessoa faz uso de substâncias não a impede de continuar usando. Apenas fará que o usuário esconda o fato da família. Dessa forma, caso as provas sobre o consumo forem claras, os familiares devem conversar com o usuário e orientar a procura de um profissional especializado. Caso os familiares apenas desconfiem do consumo, eles devem procurar um profissional que os possa orientar adequadamente sobre como prosseguir e tentar estabelecer um contato maior com o usuário;

d) Uma alternativa interessante é desaprovar determinados comportamentos do usuário, sem necessariamente atribuí-los ao uso de drogas;

e) Nos casos em que os familiares fingem que não há nada errado, continuam a fornecer dinheiro ao usuário (financiando o consumo e a dependência da pessoa), permitindo que o mesmo utilize as substâncias dentro da própria casa (porque é mais seguro do que usar na rua ou com os amigos), o resultado será muito negativo.

Os familiares realmente precisam de orientação. Na grande parte das vezes, eles conhecem os problemas advindos do uso inadequado das drogas, mas não conhecem as formas mais adequadas para lidar com o problema.

Muitos membros familiares do dependente infelizmente comportam-se de uma determinada maneira que, direta ou indiretamente, apóiam, facilitam ou perpetuam o uso inadequado de substâncias pelos filhos. Membros familiares que consciente ou inconscientemente recusam-se a confrontar ou, até mesmo, reconhecer o problema da dependência química apenas aumentarão os problemas futuros.
Comportamentos errôneos da família
Alguns destes comportamentos indesejáveis dos familiares são apontados abaixo:

a) Minimização – os familiares ignoram, racionalizam ou tentam explicar o uso de drogas, atribuindo-o a uma fase passageira, já que “muitas pessoas usam drogas hoje em dia”, ou “ele (o usuário) está passando por uma fase difícil e a droga lhe dá algum alívio”, ou “ele teve uma vida difícil, com vários traumas. Ele precisa melhorar de vida antes de conseguir parar de usar drogas”;

b) Controle – tentar controlar ou manipular o uso de drogas pelo dependente; fazer barganhas com o usuário. Por exemplo, propor ao usuário “consumir apenas um baseado por dia”, ou “usar somente à noite, antes de dormir”, ou propondo “usar aos finais de semana apenas”;

c) Proteção inadequada – tentar proteger o usuário das conseqüências negativas do uso. Por exemplo, desculpando o usuário, negando a responsabilidade do mesmo pelos seus próprios atos;

d) Assumir responsabilidades do usuário – pagar contas do usuário; desempenhar as tarefas domésticas atribuídas ao membro familiar dependente, sem cobrá-lo; defendendo-o de problemas externos e assumindo a responsabilidade por eles;

e) Conluio – ajudar o usuário a obter as drogas, já que “ele sente falta e pode passar muito mal sem elas ou ficar violento sem o uso delas”.

Alguns familiares acabam por organizar suas vidas ao redor do dependente, tentando controlar ou manejar os comportamentos e problemas do usuário. Outras vezes, os familiares tentam esconder o problema de outros membros da família que moram na mesma casa. O segredo não deve ser mantido. O problema deve ser encarado e confrontado de forma clara, transparente e objetiva.

Não há qualquer problema em querer ajudar um membro da família ou amigo em dificuldades, enfrentando as mais variadas situações adversas. O comportamento de ajuda deve ser constantemente estimulado, tendo em vista a sociedade individualista em que nós vivemos. No entanto, “ajudar” requer SABER como “ajudar”. A pessoa que insiste em “ajudar” através de formas erradas, acaba por afetar negativamente tanto o usuário quanto ela própria engajando-se ambos em um processo devastadoramente patológico.

Sempre reitero: a família do dependente precisa também estar inserida no tratamento.



Abaixo-assinado(Petição pública) Contra Legalização de Drogas - Por um Tratamento Humano Digno e eficiente - Pela Vida - Sem Drogas Para:Presidente da República Federativa do Brasil; Congresso Nacional do Brasil; Supremo Tribunal Federal;



 Movimento maconha não, juntamente com deputados de todo Brasil -Fenasp - Fórum Cristão de ação social;vem através deste abaixo assinado manifestar apoio incondicional ao movimento Maconha não e ao Corpo de Psicólogo Pró Família Presidido pela Psicóloga Marisa Lobo ,para lutar contra a legalização da Maconha e de quaisquer outras drogas, ou seja, substância psicoativas que venha prejudicar a saúde mental física e social do ser humano.
Dizemos não a qualquer tentativa de legalização e ou descriminalização da maconha e ou outras drogas, contraponto os argumentos irresponsáveis, manipuladores egoísta de um movimento nacional inconstitucional disfarçado de descriminalização e ou regulamentação que querem na verdade iludir a opinião pública e alienar a população com informações falsas descaracterizando os reais perigos físicos, mentais sociais e familiares presentes no uso da maconha.

Pesquisas internacionais realizadas inclusive por países onde a droga é legalizada constatam o perigo do uso precoce principalmente por crianças e adolescentes que serão os mais expostos ao uso contrariando as diretrizes do estatuto da criança e adolescente que visa à proteção das mesmas.

Sem respaldo da lei, 11.343- de 26 agosto de 2006, que já não criminaliza o usuário será impossível prevenir, argumentar, orientar, esclarecer e educar nossos jovens, incentivando as boas escolhas. Por entender todos esses perigos, precisamos de sua ajuda para fazer valer os direitos da família e do jovem que sonha com um futuro que será bloqueado com acesso fácil e indiscriminado de maconha e outras drogas..

Todo ser humano tem direitos e deveres o meu direito vai onde termina do outro, somos seres sociais dependemos um dos outros,a família é o elo de ligação do ser humano com o mundo, as relações sociais se tornam incapacitantes com uso da droga. Nossa luta deve ser pelo tratamento, prevenção reinserção social, devemos lutar por pesquisas tratamento educando, não propondo uso de droga, e ou criação de narcosalas para uso com patrocínio do governo como querem alguns irresponsáveis.

Não aceitamos legalização de nenhumas drogas basta o álcool e o cigarro que se tornaram o maior problema de saúde pública dos nossos pais, Nosso Brasil não tem suporte, cultural, educacional, nem tão pouco de segurança pública para encarar mais legalização de drogas (cigarro, álcool) faz parte das vias de prevenção a lei e fazer cumprir a lei. Temos que ensinar nossos jovens a serem responsáveis pelos seus atos e incentivar boas escolhas e drogas não é nunca foi uma boa escolha.

Sem hipocrisia e ou utopia nosso movimento pensa no social na família na saúde mental e física de nossa sociedade. Sociedade sem drogas é familia com saúde.

Precisamos de sua ajuda junte-se a nós maconha não, Drogas nem pensar isso sim são segregação, é contra a família.e direito humanos e contra o estatuto da criança e do adolescente que nos incentiva , e determina proteger aqueles que não sabem se proteger.

ASSINE AGORA FAÇA SUA PARTE.

http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2012N19249

Se não tiver caráter, não beba

Beber e dirigir é uma das maiores causas de acidentes. Mas a arrogância de alguns, armados de seu carrão e protegidos pela impunidade, agrava mais esse cenário
“Sexta-feira, a lua no céu/ A juventude reunida no bar/ Testosterona, idiotice e paspalhos/ Perfumes femininos no ar…” A música da banda paulista Flicts fala da atmosfera dos bares e baladas. Para a descrição ficar completa, poderia incluir algo como “um copo de cerveja em uma mão, a chave do carro na outra”. Em uma noite quente na capital paulista, não foi preciso procurar muito para achar exemplos dessa combinação. Em um bar na Barra Funda, na zona oeste, um grupo de amigos de 20 a 30 anos comemorava o meio da semana.

“Essa história de motorista da rodada é balela. Ninguém quer tomar refrigerante”, assume um deles, antes de a reportagem ser expulsa pelo garçom. “A gente sabe que é errado, que tem a Lei Seca, mas cada um mora em um ponto da cidade”, diz outro.

Uma moça conta com a aparência do carro para não ser parada nas fiscalizações. Ela diz que ter um carro bacana ajuda a “passar um pano” com a polícia. Seu amigo acha a lei radical, “uma ou duas latinhas de cerveja não mudam o estado da pessoa”, e reclama da falta de transporte durante a madrugada: “Táxi é muito caro. A gente prefere gastar esse dinheiro no bar”.

Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil vive uma epidemia de acidentes. Em 2010 o país ultrapassou 145 mil internações no Sistema Único de Saúde (SUS). Quatro em cada dez mortes tiveram em comum a presença do álcool.

Recentemente, um jovem declarou a uma reportagem de TV, com o copo de chope na mão, que “hoje em dia os carros têm freio ABS e airbag”, por isso se sente “bem mais seguro” para dirigir, mesmo depois de beber.

Quando a repórter perguntou o que aconteceria se ele atropelasse uma pessoa que “não possui freio ABS nem airbag”, ele respondeu: “A gente paga fiança e sai”. A postura, típica de alguém incapaz de enxergar valor em algo que não seja o próprio umbigo, é inspirada nos casos que ficaram famosos de motoristas donos de carrões muito seguros.

Em julho, a nutricionista­ Gabriella Guerrero, de 28 anos, saía de uma balada com o namorado quando o Land Rover em que estavam atropelou Vitor Gurman, de 24, na Vila Madalena, também na zona oeste. Ele morreu cinco dias depois. Gabriella foi indiciada por homicídio doloso, responderá em liberdade e não teve a carteira apreendida. No mesmo mês, o empresário Marcelo de Lima, de 36 anos, atingiu com seu Porsche em alta velocidade a Hyundai Tucson de uma advogada de 28 anos, que morreu na hora.

Lima foi indiciado por homicídio doloso, pagou fiança de R$ 300 mil e responderá o processo em liberdade. Pouco mais que o estudante Felipe Arezon. Em setembro, Felipe “causou” com seu Camaro Coupé SS: Bateu em quatro carros na Avenida Sumaré, atingiu dois veículos no bairro do Limão e atropelou duas pessoas na Freguesia do Ó, na zona norte. Deixou um saldo de quatro feridos e um homem, com queimaduras em 90% do corpo, morreu dias depois. O jovem, de 19 anos, foi indiciado por tentativa de homicídio, embriaguez e fuga. Foi preso por quatro dias e liberado após pagar a fiança de R$ 245 mil.

No mês seguinte, Nacib Mohamed Orra­, de 20 anos, pagou R$ 54 mil e foi liberado dois dias depois de três doses lhe subirem à cabeça e seu Honda Civic subir na calçada. Atingiu três pedestres num ponto do ônibus. Ele não tinha carteira de habilitação e disse à polícia que pegou o carro dos pais sem autorização.

Em 1995, a Cherokee do ex-jogador de futebol Edmundo chocou-se a 120 por hora contra um Fiat Uno. Três dos seis ocupantes do outro veículo morreram. Em 1999 Edmundo foi condenado a uma pena de quatro anos e seis meses de prisão. Ficou uma noite detido. No ano passado, a Vara de Execuções Penais do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro decretou novamente sua prisão. Mas a pena havia prescrito em 2007 e o processo foi arquivado.

Enfim, o cotidiano está cheio de episódios inspiradores para que o jovem celebre com muito chope a invenção do ABS e do airbag.

Lei inócua

Esse é um dos grandes problemas da chamada Lei Seca (11.705/2008), segundo Mauricio Januzzi, presidente da Comissão de Direito do Trânsito da OAB São Paulo.

Hoje a lei prevê penas de seis meses a três anos de prisão para quem dirige embriagado, além de multa, mas não obriga o suspeito a soprar o bafômetro. Geralmente, quando é levado à delegacia, o motorista paga multa e é liberado. Se for detido por ter causado algum acidente e tiver dinheiro, paga a fiança e vai embora. “A lei determina que penas até quatro anos de prisão são afiançáveis e os acusados podem responder em liberdade.”

Januzzi aponta a falta de fiscalização efetiva como um dos motivos para que a lei não seja levada a sério. “As blitze são feitas em dias e horários em que teoricamente você pegaria mais pessoas, mas os brasileiros descobriram rapidamente que não precisam produzir provas contra si mesmos, e não fazem o teste do bafômetro. O ideal seria que, junto aos agentes da polícia, agissem agentes de saúde, para detectar quando o motorista está alcoolizado”, defende.

Para o advogado, é “balela” o projeto proposto pelo senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES) – já aprovado no Senado, segue para votação na Câmara –, que “endurece” a Lei Seca com penas que chegam a 16 anos de prisão para quem causar acidente alcoolizado e com o fim da tolerância mínima de álcool. “O projeto peca pela pena, que fere o princípio da proporcionalidade. A pena é muito alta, e isso vai pará-lo lá na frente”, acredita. Januzzi sugere um novo projeto de lei popular que também confere maior rigidez à lei vigente. O site www.naofoiacidente.org pede assinaturas para levá-lo ao Congresso Nacional.

Um dos incentivadores da campanha é Rafael Baltresca, que perdeu a mãe e a irmã atropeladas em setembro passado, prensadas contra um muro. Morreram no local. O homem ficou detido por duas semanas e depois foi liberado sem pagar fiança porque apresentou um atestado de pobreza. “Meu pai faleceu há sete anos, eu morava com as duas”, conta Rafael. “Minha vida mudou, meu chão se abriu e o que sobrou foi lutar para mudar alguma coisa. Se tivermos 1 milhão de assinaturas, conseguiremos levar o projeto de lei para o Congresso.”

Rafael lamenta que a legislação não intimide ninguém. “Não temos nenhum caso hoje no Brasil em que a pessoa ficou presa depois de ter matado alguém no trânsito por dirigir embriagada. Quem faz isso geralmente é indiciado por homicídio culposo, sem a intenção de matar, o que o leva a uma pena de até quatro anos. Pena de até quatro anos a pessoa pode pagar em liberdade, doando cestas básicas ou pintando muros da comunidade. Quer dizer, uma pessoa bebe, dirige em alta velocidade, mata pessoas e paga com cestas básicas”, critica.

Maurício* já esteve do outro lado do volante. Há dez anos, dirigia embriagado e se envolveu em um acidente que causou a morte de uma pessoa. “Você não imagina que uma coisa assim vai acontecer, até que acontece”, diz. “Era Quarta-Feira de Cinzas e eu voltava de uma festa já com o dia claro. Estava bêbado e com sono, tinha feito a mesma coisa todos os outros dias. Deixei alguns amigos em casa e não me lembro de mais nada.” Maurício conta que acordou no hospital, só de bermuda, sem saber onde estava ou o que havia acontecido.

“Acordei em uma cama e perguntei a uma enfermeira onde estavam as minhas coisas. Ela disse que eu havia me envolvido em um acidente e fui levado ao hospital só com a roupa do corpo.” Maurício ligou para a família e só então soube o que tinha acontecido. “Um policial contou a meu irmão que meu carro bateu em outro, 15 quilômetros depois da entrada da cidade onde eu estava, e que ajudei a retirar as pessoas do carro. Os dois veículos se incendiaram. Alguns anos depois recebi uma intimação, dizendo que uma mulher que estava no outro carro morreu em decorrência do acidente. Chorei muito porque até hoje não consigo me lembrar o que de fato aconteceu. É horrível pensar que causei sofrimento para uma família e poderia ter causado o mesmo sofrimento a meus pais e meu filho por uma besteira.” Hoje Maurício responde a processo e diz que é a favor do endurecimento da lei, “para que as pessoas não cometam o mesmo erro, de achar que não vai acontecer com elas”.

Um estudo inédito, patrocinado pelo Ministério da Saúde, mostrou que não são só condutores sob efeito de álcool que provocam acidentes no trânsito. Pedestres alcoolizados também. Intitulada “Consumo de álcool e os acidentes de trânsito”, a pesquisa analisou 1.248 vítimas em seis capitais, das cinco regiões do país. O atropelamento apresentou a segunda maior frequência entre os casos registrados em Manaus, Brasília e São Paulo. No Recife e em Curitiba, a queda foi a segunda forma mais frequente. Nas faixas etárias mais extremas, o atropelamento ficou em primeiro lugar, atingindo cerca de 52% das vítimas com mais de 60 anos e 47% até 9 anos.

“A legislação brasileira atual está correta em determinar a punição severa de motoristas que dirigem com determinado nível de alcoolemia. Entretanto, é necessário considerar os outros atores do trânsito – pedestres, ciclistas e passageiros –, que, sob efeito do álcool, arriscam igualmente a vida nas vias públicas. O atropelamento é uma das principais causas de morte no trânsito e, muitas vezes, é o pedestre que está alcoolizado e se coloca em situação de risco por não ter condição de avaliar a distância e a velocidade dos veículos, e também pela falta de equipamentos de segurança e de orientação adequada”, diz a coordenadora da pesquisa, Ana Glória Melcop.

Segundo Carlos Salgado, conselheiro­ consultivo da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), a combinação de impunidade com a desibinição produzida pelo álcool é a maior responsável por essa falta de percepção de risco. Ele a compara à cometida por pessoas que fazem sexo sem camisinha: “A avaliação do risco, prejudicada pelo álcool, explica a atitude intransigente ao volante. É o mesmo mecanismo que produz o risco na vida sexual”.

Para o sociólogo Juracy Amaral, professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), esse é um problema cultural. Ele acredita que o comportamento do brasileiro no trânsito não é diferente em outros lugares: “Principalmente os que se julgam mais ‘cidadãos’ que os outros comumente praticam indelicadezas nos condomínios onde moram e nos locais onde trabalham, estudam e se divertem. A cultura brasileira incentiva o exibicionismo e a ostentação de poder, permitindo a alguns agir como se fossem mais iguais que os outros”.

Amaral também discute o paradoxo em relação à bebida: “O incentivo à bebida é constante e o boteco é muitas vezes apontado nas propagandas como o lugar de divertimento. Isso envolve também interesses econômicos poderosos. Então, em vez de tentar coibir a bebida, considerada ingrediente para o entretenimento, talvez fosse o caso de o poder público investir em atividades culturais que não necessariamente dependem do álcool, assim como foi feito com o cigarro”.

Sobre dinheiro, poder e impunidade, ele não é muito otimista: “Sempre haverá privilégios para pessoas com poder econômico­ e que mantêm boas relações. Seria ideal que a Justiça fosse imparcial e julgasse todos com base racional, fato que não é fácil de ocorrer porque a cultura brasileira está fundamentada nesse tipo de conduta há muito tempo”. O compositor Pixinguinha já dizia que bebida só faz mal para quem não tem caráter. Se falta caráter e sobra dinheiro, então, maior é o perigo.

Lei mal elaborada

Para o advogado Sergei Cobra Arbex, o direito de uma pessoa de não provocar provas contra si mesma não pode ser desqualificado. “É uma segurança do cidadão, garantia da capacidade de se defender.” Segundo Arbex, esse princípio da Constituição de 1988 não pode ser banalizado por causa de uma legislação mal construída.

“A confissão forçada sob tortura é uma maneira de autoincriminação. E você não pode passar esse princípio para outras escalas: ‘Assina aí, senão vai ser prejudicado’, ‘assina, senão a gente coloca sua mulher no processo’, ‘faz o bafômetro, senão é preso’.”

Arbex considera a lei mal elaborada por estabelecer o critério da dosagem alcoólica, e não do estado de embriaguez.

O criminalista admite que a lei traz uma eficiência administrativa, porque a recusa ao bafômetro pode levar à perda da habilitação, mas “torna míope” o processo, pois sem o bafômetro não há provas.

A fiscalização por blitze de policiais militares também é criticada pelo especialista. “Enquanto aquele aparato todo está em operação, crimes graves podem ocorrer em pontos próximos; o bandido tem a certeza de que está tudo mobilizado para a blitz”, alerta.

“Além disso, é o princípio invertido de que todo mundo é criminoso até prova em contrário. Os arautos da moralidade acham que ‘quem não deve não teme’, mas isso é perigoso, parte do princípio de que todo mundo tem de se explicar.”




Em vez de sono, sexo e anfetamina

Em pontos de apoio ou postos, caminhoneiros passam noites que deveriam ser de descanso embalados pela companhia de prostitutas e turbinados por drogas para vencer o cansaço
Estado de Minas Gerais
Shirley, como se apresenta a garota de programa que transita com desenvoltura entre motoristas, admite ter até 30 encontros por noite e fornecer tóxicos para animar clientes extenuados

Montes Claros - Elas aparecem com o cair da noite, por entre labirintos formados pelas carretas estacionadas nos postos de abastecimento à beira das rodovias. Mulheres de todas as idades e travestis que vivem em cidades cortadas por estradas se prostituem fazendo mais de 30 programas por dia. Os clientes preferenciais são caminhoneiros, exaustos pelas horas ininterruptas de trabalho ao volante em carretas carregadas com várias toneladas. Mais do que fontes de diversão, as chamadas "raparigas" ou "quengas", no linguajar dos carreteiros, fornecem drogas e estimulantes nos intervalos em que esses condutores poderiam descansar. Compostos de anfetaminas - os chamados rebites - e drogas como maconha, cocaína e crack "turbinam" os programas rápidos, muitas vezes nas boleias ou nas esquinas sombrias dos estacionamentos.

De carona em carretas pelas BRs 040, 116, 135, 251 e 381, a equipe de reportagem do Estado de Minas encontrou várias dessas mulheres, muitas até menores de 18 anos, que têm lucro ampliado quando os caminhoneiros estão inebriados. A degradação nos postos, paradas chamadas pontos de apoio ou mesmo nas encruzilhadas das rodovias deixa ainda mais debilitados os homens que têm a responsabilidade de transportar cargas pesadas por estradas antigas, com traçados de mais de 30 anos e não inteiramente adaptadas às grandes carretas.

Com um meio sorriso e os olhos lânguidos de quem está sob efeito de drogas e álcool, de cabine em cabine, a prostituta Shirley (nome de guerra) diz fazer uma média de 30 programas por dia nos postos de combustíveis do entorno da BR-135, em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais. "O batente é das 18h às 6h. Coisa rápida com cada um. Tem carreteiro do Brasil inteiro que para aqui (nos postos) sozinho e nos procura para fazer programa e comprar um rebite, cocaína ou crack", afirma. A mulher cobra R$ 20 pelo encontro, mas admite que, se o cliente estiver com poucos recursos, reduz o preço para R$ 15. As drogas são à parte. A comissão que recebe do traficante ela gasta para manter o próprio vício e bancar os rebites que a mantêm disposta a encarar 12 horas de programas com homens diferentes.

No Norte de Minas, um dos pontos mais movimentados é um posto da Avenida Deputado Plínio Ribeiro, um prolongamento da BR-135 na periferia de Montes Claros. Enquanto prostitutas e travestis se oferecem nos passeios aos caminhoneiros que se dirigem lentamente para o posto, em casebres arruinados da rua de trás funcionam bocas de fumo onde garotas de programa magras consomem crack em cachimbos, vendendo pedras para os motoristas que as pegam no asfalto.

Os rebites que os caminhoneiros tomam para tentar vencer o sono em suas viagens longas, de mais de 24 horas, também turbinam as prostitutas. "Tomo um rebite e aí consigo virar o dia fazendo programa. Os caminhoneiros aproveitam. Tomam um e aí podem até beber pinga e cerveja que mesmo assim não dormem na estrada. É só tomar mais comprimidos depois do programa", "receita" Shirley. Enquanto mulheres e travestis se prostituem, policiais circulam em viaturas de luzes giratórias vermelhas sem abordar ou mesmo intimidar ninguém. Naquela noite, deram algumas voltas dentro do posto, cumprimentaram as profissionais do sexo e depois se foram.

A atividade na avenida é organizada por traficantes e cafetões. Se o caminhoneiro não quiser os serviços das prostitutas no caminhão, pode atravessar a rua e frequentar um bordel disfarçado de bar. Embaixo funciona um boteco escuro onde ficam as mulheres e os homens que as exploram, de vigília, consumindo bebidas ao som de canções sertanejas. No segundo andar do sobrado há quartos pequenos e sujos, com camas cobertas por tecido manchado e desbotado. No entorno, para quem não confia nas instalações, há opções de motéis e drive-ins. Nesse caso, assim que terminam o programa as mulheres são levadas na garupa de motoqueiros de volta para a avenida, onde vão procurar mais clientes.

VINGANÇA Quem costuma atrapalhar a diversão dos motoristas são as mulheres traídas que vivem na cidade e aguardam o retorno dos maridos caminhoneiros depois de dias na estrada. "Elas aparecem quando eles estão fissurados demais na droga para voltar. Uma vez, a mulher ligou no celular do caminhoneiro. Ele estava comigo e disse a ela que ainda ia demorar. Só que ela estava do lado de fora, com um galão de gasolina, que jogou no caminhão e pôs fogo. Quase não conseguimos escapar", conta Shirley.

Entre as mulheres e os travestis que circulam nas motos e desfilam pela avenida se oferecendo há também adolescentes, de acordo com Shirley. "Tem uma menina linda, de 16 anos. Os caminhoneiros ficam loucos com ela. Mas a menina não fica na rua direto. Tem de entrar no bar (prostíbulo)", disse. Shirley conta que começou a se prostituir depois que o marido a deixou com um filho de 7 anos. "Não tinha dinheiro para sustentar o meu menino. Como antes namorava homens de graça, pensei que não teria mal algum em cobrar. Não quero deixar a vida", diz.
Em pontos de apoio ou postos, caminhoneiros passam noites que deveriam ser de descanso embalados pela companhia de prostitutas e turbinados por drogas para vencer o cansaço

Em pontos de apoio ou postos, caminhoneiros passam noites que deveriam ser de descanso embalados pela companhia de prostitutas e turbinados por drogas para vencer o cansaço