quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017




BARRY SAMPLE, TOXICOLOGISTA: 'A COCAÍNA É A DROGA NÚMERO UM NAS ESTRADAS'.

Agência o Globo

Americano veio ao Rio para negociar instalação de laboratório exclusivo para exame de amostras de cabelo no Brasil

POR HUGO LIMARQUE

'A dependência causa a impressão de que a quantidade empregada não tem o mesmo efeito de antes', explica o toxicologista Barry Sample - Leo Martins / Agência O Globo

"Sou natural de Indianápolis (EUA), tenho 61 anos, dois filhos e trabalho com exames admissionais para empresas. Minha atividade no ramo do teste de drogas se estendeu para o Brasil, de onde analiso amostras de cabelo para determinar se motoristas profissionais estão habilitados a dirigir."

Conte algo que não sei.

Ao contrário dos EUA, cujo departamento de transportes ainda tem a urina como principal tipo de amostra em testes de drogas, o programa adotado pelo Brasil priorizou o cabelo nas avaliações, o que representa, na minha opinião, uma tomada de liderança global. Até porque os americanos se encarregam da maioria dos exames de outros países. O fio capilar é mais completo, na medida em que pode detectar o uso de drogas por, no mínimo, 90 dias.

E como o cabelo consegue guardar informações por tanto tempo?

Quando alguém consome uma droga, ela geralmente leva entre um e três dias para ser eliminada do organismo. No caso do fio de cabelo, a substância é incorporada ao bulbo capilar através da corrente sanguínea e não tem como sair de lá. Nesse caso, o exame pode detectar um consumo de drogas a longo prazo e traçar um histórico de uso. O mesmo raciocínio vale para o pelo.

O exame de cabelo poderia ter outras utilidades?

Certamente. O teste de drogas em geral pode ir além da aplicação no transporte. Alguns empregadores nos EUA utilizam exames toxicológicos para promover um ambiente de trabalho livre de drogas, onde os funcionários estejam seguros e não percam produtividade. Há estudos por lá que mostram que empresas abertas à política de testes sofrem menos com acidentes de trabalho.

Por que o Brasil vai passar a ter um laboratório próprio para examinar cabelo?

Desde março de 2016, todos os motoristas de caminhões, ônibus e vans do Brasil são obrigados a fazer o teste do cabelo se quiserem tirar ou renovar a carteira de habilitação. Com isso, milhares de amostras hoje são levadas para os EUA. É uma logística complexa, que prolonga o ciclo do teste e tem um custo adicional. Um laboratório no Brasil diminuiria os gastos e possibilitaria um serviço mais ágil.

Falando em caminhões, é senso comum no Brasil que os motoristas desses veículos costumam usar drogas para se manterem vigilantes ao volante durante a noite. O resultado dos testes corrobora com essa afirmação?

Eu não tenho como dizer que isso é verdade, mas, entre as categorias de motoristas que participam do teste, os resultados mostraram que o principal positivo para drogas no Brasil, em cerca de 70% das amostras, se deve à cocaína. Esse número sugere que talvez o consumo não esteja ligado necessariamente à recreação, mas também ao uso ocupacional. Os caminhoneiros preferiam anfetaminas, mas trocaram de substância porque a cocaína é mais barata e acessível. No entanto, ambas levam o usuário a se drogar mais, porque a dependência causa a impressão de que a quantidade empregada não tem o mesmo efeito de antes.

Você participou do controle antidoping nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996. Como foi a experiência?

Lembro que surgiu uma nova droga na época, o psicoestimulante bromantan. Também fui responsável pelos procedimentos laboratoriais durante os Jogos Panamericanos de Indianápolis de 1987 e encontrei atletas usando outra novidade, a probenecida. Parece que a cada Olimpíada alguma coisa diferente aparece.






QUEM VÊ JOVENS NA CRACOLÂNDIA NÃO PODE DEFENDER DESCRIMINALIZAÇÃO DAS DROGAS.

Para o advogado criminalista e ex-presidente da comissão Antidrogas da OAB-SP, Cid Vieira de Souza Filho, legalização não seria capaz de resolver o problema dos dependentes químicos. Ele também não acredita que mudança do atual modelo acabaria com o tráfico.

Acesse: http://cbn.globoradio.globo.com/programas/jornal-da-cbn/2017/02/08/QUEM-VE-JOVENS-NA-CRACOLANDIA-NAO-PODE-DEFENDER-DESCRIMINALIZACAO-DAS-DROGAS.htm




ENTENDA POR QUE A MACONHA SINTÉTICA É TÃO PERIGOSA.


A maconha sintética, também chamada de K2 ou Spice, tem ganhado popularidade no Brasil e fora do país. Nos Estados Unidos, por exemplo, seu uso é bastante comum entre adolescentes e militares, já que a estrutura química da droga não é identificada em testes padrão para detectar o uso de maconha.

Mas relatos de médicos e estudos científicos têm chamado atenção para os perigos dessa versão produzida em laboratórios de fundo de quintal. Um trabalho que acaba de ser publicado pela Universidade de Arkansas aponta efeitos graves como convulsões, psicose, dependência, AVC, lesões renais, problemas cardíacos e morte.

O principal composto psicoativo da maconha, o THC, é conhecido por ativar dois receptores canabinoides, o CB1 e CB2, que estão espalhados pelo corpo humano. Os pesquisadores descobriram que a versão sintética ativa o primeiro receptor numa intensidade que a erva jamais seria capaz de alcançar. Além disso, ele dizem que, por ser quimicamente diferente do THC, a maconha sintética ativaria outros receptores, além do CB1 e CB2, o que explicaria os efeitos potencialmente fatais.

Em artigo publicado no periódico Trends in Pharmacological Sciences, os pesquisadores alertam que os usuários nunca sabem o que vão consumir, pois a quantidade de composto ativo varia muito não só entre os laboratórios, como também de lote para lote. Eles ainda observam que as pessoas, hoje, tendem a ver tudo o que é rotulado como maconha como mais seguro, o que não é verdade, especialmente no caso das drogas sintéticas.

Blog - UOL - Dr. Jairo Bouer

Fonte: Departamento de Justiça dos EUA

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017





SE VOCÊ BEBE PARA ESQUECER, ESTÁ PERDENDO TEMPO:
O ÁLCOOL REFORÇA AS LEMBRANÇAS RUINS.


Elena Gómez

O famoso "beber para esquecer" pode ter se tornado página virada. Embora seja verdade que uma boa bebedeira pode levar a pessoa a não se lembrar de tudo o que fez no dia seguinte, as coisas ruins (exatamente as que queremos apagar da memória) podem se agarrar ao nosso cérebro de modo mais ferrenho do que se não bebêssemos.

É isso que revela um estudo publicado pela revistaTranslational Psychiatry, elaborado por pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, de Baltimore (EUA). Dividiram ratos de laboratório em dois grupos: um bebeu água durante duas horas, e ao outro foi dada grande quantidade de álcool no mesmo intervalo de tempo. Posteriormente, ambos grupos foram submetidos a um som determinado, seguido por uma descarga elétrica. No dia seguinte, os roedores escutaram o mesmo som, mas dessa vez sem que fosse seguido pelo choque. Os resultados mostraram que os ratos que haviam sido embriagados tinham mais medo (lembravam melhor da descarga) que aqueles que tinham bebido água.

A conclusão do trabalho é que o álcool perpetua a sensação de medo: a extinção dessa recordação exige receptores do neurotransmissor glutamato (substância relacionada à memória), e quando os compostos do álcool se unem a esses receptores, interferem nas sinapses (comunicação neuronal), levando a que os animais que beberam álcool “não se acostumem ao estímulo e não esqueçam a experiência prévia ruim”, explica o neurologista Pablo Irima, diretor da Sociedade Espanhola de Neurologia.

Tal neurotransmissor (envolvido na eliminação da recordação) não se dá bem com a bebida. “O glutamato produz rejeição ao álcool. Costuma-se usá-lo no hospital para que os pacientes parem de beber" diz o psiquiatra e presidente da Sociedade Espanhola de Psiquiatria, Julio Bobes.

Distrai, mas não apaga os traumas.

Que o álcool nos faz recordar as coisas mais facilmente é algo que tinha sido evidenciado por um estudo da Universidade do Texas (EUA) em 2011. De acordo com essa pesquisa, tomar uma dose ativa certas regiões do cérebro relacionadas exatamente ao aprendizado e à memória.

Mesmo assim, a ideia de que beber é uma boa forma de afastar as más recordações é tão difundida que até esse estudo afirma que a maioria das pessoas afetadas por diversos traumas (entre 60% e 80%) ingere álcool compulsivamente. “Muitos pacientes com estresse pós-traumático se embebedam com a finalidade de fugir da situação, esquecer ou dormir com mais facilidade”, acrescenta Irima. E os pesquisadores concluem: “Se os efeitos do álcool nas lembranças desagradáveis forem semelhantes nos humanos, nosso trabalho pode ajudar a entender melhor como funcionam essas memórias e como focar melhor as terapias em pessoas que apresentam estresse pós-traumático”.







FALTOU PRUDÊNCIA.

Opinião - Estadão

Homens públicos, especialmente os que desempenham funções que podem mudar a vida dos cidadãos, devem se pautar sempre pela prudência ao se manifestar. Ao contrário das pessoas comuns, cuja opinião, isoladamente, não tem quase nenhum efeito sobre as decisões de maior impacto para o País, esses homens públicos não podem expor o que pensam sem antes pesar cuidadosamente suas palavras, pois estas, de uma forma ou de outra, terão peso no debate nacional – e uma opinião exposta de forma inconsequente pode ajudar a distorcer esse debate, levando a conclusões deletérias para o País. Assim, causou espanto a ligeireza com que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso tratou recentemente da questão da legalização do uso de drogas.

Em uma conversa com jornalistas no dia 1.º passado, Barroso disse que a crise no sistema penitenciário enseja “agudamente” a discussão sobre as drogas, pois a atual política de repressão ao narcotráfico acaba por colocar nas cadeias jovens “que não são perigosos” e que, segundo seu raciocínio, ali se tornarão verdadeiros criminosos. O ministro sugeriu então que se fizesse uma experiência, legalizando primeiro a produção, a distribuição e o consumo de maconha, taxando o produto como se faz com o cigarro.

“A primeira etapa, ao meu ver, deve ser a descriminalização da maconha. Mas não é descriminalizar o consumo pessoal, é mais profundo do que isso. A gente deve legalizar a maconha”, perorou Barroso, como se estivesse em uma mesa de bar. “Isso quebra o poder do tráfico. Porque o que dá poder ao tráfico é a ilegalidade”, continuou ele, seguro de que descobriu a fórmula mágica para acabar, de uma vez por todas, com essa terrível chaga mundial. A certeza é tanta que Barroso foi além: “Se der certo com a maconha, aí eu acho que deve passar para a cocaína e quebrar o tráfico mesmo”.

A impropriedade da afirmação do ministro do STF, que deveria se limitar a se pronunciar nos autos dos processos que julga, só não é maior do que sua afetada ingenuidade. Qualquer um minimamente informado sabe que não basta legalizar uma ou outra droga para “quebrar o tráfico”. Mesmo que todas as drogas fossem legalizadas o tráfico não acabaria, pela simples razão de que a regulamentação do comércio de drogas forçaria a criação de um mercado paralelo, em que os entorpecentes seriam vendidos por preços mais baixos. É o que acontece, por exemplo, com a indústria do tabaco, que enfrenta o contrabando de cigarros, que hoje representa 30% do mercado nacional.

É ocioso, contudo, opor argumentos racionais às alegações de Barroso, porque se trata de uma falsa questão. O consumo de entorpecentes já está, na prática, descriminalizado, a julgar pelo que vai na Lei Antidrogas (11.343/06). A questão, para Barroso, é a prisão dos que ele chama de “pequenos traficantes”. Segundo o ministro, “um dos grandes problemas que as drogas têm gerado no Brasil é a prisão de milhares de jovens, com frequência primários e de bons antecedentes, que são jogados no sistema penitenciário”.

São, diz ele, “pessoas que não são perigosas quando entram, mas que se tornam perigosas quando saem”. O ideal, portanto, seria “superar preconceitos” e “lidar com o fato de que a guerra às drogas fracassou e agora temos dois problemas: a droga e as penitenciárias entupidas de gente que entra não sendo perigosa e sai perigosa”.

Ora, a seguir-se a lógica do ministro Barroso, a crise penitenciária estará resolvida no dia em que nenhum jovem for conduzido à cadeia, seja por que crime for. Em vez de lutar para melhorar as prisões, basta que se rasguem os diplomas legais. A esse ponto chegou o ativismo que ora impregna os discursos e as atitudes de muitos hoje no Judiciário, a começar por alguns ministros do Supremo Tribunal Federal, a quem justamente cabe guardar a Constituição, e não reinventá-la. Esquece-se também o ministro que é o dinheiro que um jovem bem nascido dá ao inofensivo passador de “pacos” que paga a bala que matará uma mãe, um pai, uma criança. A esse ponto não chega a preocupação do cidadão que exerce seu sagrado direito de dar palpites.


Por fim, mas não menos importante, a questão das drogas não pode jamais ser tratada com leviandade. As cracolândias espalhadas pelas grandes cidades mostram os efeitos das drogas para quem quiser ver. Não é com inconsequência, travestida de humanismo, que esse problema será resolvido.