quinta-feira, 12 de julho de 2012



Especialistas alertam para banalização do uso de remédios tarja preta em crianças.


Especialistas alertam para a banalização do uso de medicamentos de tarja preta para conter supostos distúrbios e transtornos em crianças e adolescentes. O tema foi debatido, nesta quarta-feira, em audiência pública da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara.

De acordo com o Conselho Federal de Psicologia, é cada vez mais comum médicos receitarem psicotrópicos para tratamento de dificuldades de aprendizagem, manifestada por dislexia, transtorno de déficit de atenção (TDA) e hiperatividade, por exemplo.
O Metilfenidato é o mais usado: sua comercialização subiu de 70 mil caixas vendidas em todo o mundo, no ano 2000, para mais de 2 milhões de caixas, em 2010. O Brasil é o segundo maior consumidor desse medicamento, análogo às anfetaminas e com sérios efeitos colaterais.
Medicalização
A representante do Conselho Federal de Psicologia, Marilene Proença, afirmou que esse é um típico caso da chamada "medicalização", em que problemas de ordem social são tratados como doença, apesar da falta de base científica para o diagnóstico. "Elas estão sendo vítimas da compreensão de que o fenômeno educativo é algo apenas do âmbito do indivíduo. Então, quando se tem uma criança que não lê, não escreve e não presta atenção, não se questiona a escola que está sendo oferecida a ela, mas se considera que é ela quem não está tendo a atenção necessária e que isso seria uma patologia.”

Diante da abrangência do problema não só entre crianças e adolescentes, foi lançado o Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, que denuncia a banalização do uso de vitaminas, ansiolíticos e de medicamentos fitoterápicos, alopáticos e homeopáticos. Alguns causam dependência.
De acordo com a professora do Departamento de Pediatria da Unicamp e integrante do Fórum sobre Medicalização, Maria Aparecida Moisés, os principais alvos da medicalização são as áreas de comportamento e de aprendizagem, "não por acaso, as mais difíceis de diagnosticar". Ela acrescentou que o problema da medicalização é coletivo, social, político, econômico, cultural. “Esses problemas são individualizados. Em vez de se discutir a política educacional, as instituições e que sociedade é essa que estamos construindo - cada vez mais produtivista, mercadológica e competitiva -, a gente fica discutindo qual é o transtorno de cada uma das pessoas, como se elas é que tivessem o problema".
Maria Aparecida afirmou ainda que agora surgiu outro transtorno, o TOD, que é o Transtorno de Oposição Desafiadora, que é quem questiona muito. “Quem sonha tem déficit de atenção. Eu não nego que há pessoas com mais dificuldade para aprender, que aprendem de modos diferentes e com comportamento muito fora do padrão. A questão é: o que está acontecendo com essas pessoas, que geralmente estão pedindo socorro? A gente está precisando reaprender a enxergar as crianças e os adolescentes e a escutar o que eles têm a nos dizer".
Alexandra Martins
Roseli Caldas: a medicalização é um fenômeno presente nas redes pública e privada de educação.
Protocolos e questionários
Para a professora da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional (Abrapee) Roseli Fernandes Caldas, a medicalização é um fenômeno presente nas redes pública e privada. "A situação é grave e de nível nacional". Ela manifestou preocupação com os protocolos seguidos pelos médicos para o diagnóstico de tais transtornos, baseados em questionários, de caráter opinativo, preenchidos por professores ou pais.

Na opinião da conselheira Marilene Proença, doenças neurológicas deveriam ser muito bem comprovadas para existirem. “As bases diagnósticas dessa pretensa doença neurológica estão baseadas simplesmente em opiniões e observações".
Marilene assinala que sentimentos como tristeza, alegria e medo passaram a ser medidos e, se ultrapassarem uma determinada métrica geral para toda a população, são transformados de sentimentos legítimos em diagnósticos patológicos, tratados com anfetaminas, estimulantes e outros medicamentos de tarja preta que provocam dependência. "Nessa métrica, chega-se ao cúmulo de estabelecer que é possível chorar a morte de uma pessoa querida por 15 dias. Mais do que isso, seria indicativo de um quadro depressivo passível de medicação".
Marketing da indústria farmacêutica
Os especialistas atribuem essa tendência ao marketing da indústria farmacêutica, que oferece brindes aos médicos pela quantidade de remédios de determinada marca receitados aos pacientes.

O consultor de saúde da criança do Ministério da Saúde, Ricardo Carafa, reconheceu a gravidade do tema e o mau preparo dos médicos para lidar com o problema. "A discussão sobre a medicalização é pouco feita no Brasil. Quer na sua formação, quer depois, na sua prática, o médico não tem muito conhecimento sobre isso. A indústria farmacêutica joga todo um peso por meio de material informativo, congressos e faz com que o médico comece a aceitar esse tipo de doença como realidade, quando, na verdade, não é".
Carafa admitiu que o Ministério da Saúde não tem dados concretos sobre os diagnósticos, mas sim sobre o aumento vertiginoso na venda dos psicotrópicos. O processo teria começado por volta dos anos 1990, mais concentrado nas classes média e alta. Agora, estaria disseminado pela população de todas as classes sociais. "É assustador: uma epidemia de diagnósticos que gera uma enxurrada de medicação".
O consultor defendeu ações intersetoriais (educação, saúde, assistência social, etc) para o desenvolvimento de alternativas terapêuticas.
Discussão no Legislativo
A deputada Erika Kokay (PT-DF) manifestou a intenção de promover um seminário na Câmara para debater a elaboração de uma política nacional para o tratamento adequado de pessoas com transtornos emocionais.

Marilene Proença citou um levantamento do Conselho Federal de Psicologia que constatou, de 2003 a 2011, a tramitação de 18 projetos de lei na Câmara, Senado, Assembleia Legislativa de São Paulo e Câmara Municipal de São Paulo que visam inserir, na rede pública de educação e saúde, programas de diagnósticos e de tratamento de supostos transtornos, com destaque para a dislexia e o transtorno de deficiência de atenção e hiperatividade (TDAH).
Ela criticou tais propostas, que estariam tentando criar novas instâncias de diagnósticos e de avaliação de crianças e adolescentes, em vez de reforçar formas de investir na melhoria da qualidade na escola. O conselho defende a rejeição de tais propostas e a adoção de campanhas educativas e de esclarecimento sobre os malefícios dos psicofármacos neste tipo de tratamento.
Reportagem - José Carlos Oliveira
Edição – Regina Céli Assumpção



quarta-feira, 11 de julho de 2012


Legalização de drogas no Brasil: Em busca da racionalidade perdida.

Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira, Ph.D.
UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas)
Escola Paulista de Medicina - Universidade Federal de São Paulo.

Nos últimos meses temos assistido um intenso debate sobre a legalização de drogas no Brasil. A própria intensidade no qual este debate tem sido travado mostra que o assunto drogas produz um efeito no qual as pessoas sentem-se levadas a ter muitas certezas e a ficar de um lado ou de outro da legalização. Mostra também que o debate é profundamente ideológico e que após ouvirmos o lado favorável à legalização e o lado da proibição pura e simples, não ficamos nenhum pouco mais esclarecidos a respeito da melhor política a ser seguida. Quando somente um dos aspectos de uma política de drogas, ou seja o status legal de uma droga torna-se o assunto principal do debate é como se o rabo estivesse abanando o cachorro e não o contrário. O objetivo deste artigo é (i) avaliar a racionalidade e a oportunidade deste debate como tem sido veiculado e (ii) tentar estabelecer pontes com outras drogas de abuso; (iii) avaliar os dados disponíveis sobre o efeito da legalização de uma droga; e (iv) propor uma alternativa de política de drogas que seja baseada em objetivos claros a serem alcançados.
 A racionalidade da legalização de uma droga
Com a intensidade que o debate sobre as drogas gera poderíamos imaginar que a sociedade sempre tenha reagido de uma forma eficiente ao longo do tempo. Entretanto historicamente a sociedade não tem avaliado muito bem os riscos do uso de uma nova droga ou uma nova forma de uso de uma velha droga. Por exemplo, a partir do começo do século inovações tecnológicas fizeram a produção de cigarros ficar mais fácil, com a absorção da nicotina pelos novos cigarros muito mais eficaz do que a produção artesanal que ocorria anteriormente. Além disso o preço do cigarro caiu dramaticamente. Progressivamente houve um aumento no número de fumantes em todo o mundo e por muito anos os danos físicos associados ao cigarro não foram identificados. Muitos governos chegavam mesmo a estimular o consumo do fumo, estimulados pelos ganhos com impostos. Levou-se mais de quarenta anos para os países desenvolvidos identificassem os males causados pelo fumo de uma forma definitiva e outros vinte anos para implementar políticas que pudessem começar a reverter a situação. Esta lentidão em reconhecer danos em algumas situações sociais faz com que mudanças no status de qualquer droga, e principalmente quando um aumento de consumo seja uma das possibilidades deva ser encarada com extremo cuidado.
 Um dos motivos que dificulta a ação da sociedade é um excesso de retórica que ocorre em relação ao problema. Podemos notar que cada droga existente produz a sua própria retórica. Por exemplo, no caso recente da maconha no Brasil tem sido comum utilizar-se uma retórica na qual o uso desta substância estaria relacionado com a liberdade e os direitos do cidadão em usar qualquer droga e que não seria função do estado interferir neste comportamento. Um excesso de controle do estado iria contra os direitos da pessoa. Por outro lado o cigarro inspira outro tipo de retórica onde busca-se estimular uma ação estatal em controlar o abuso das companhias de cigarro. Esta retórica pode mudar de país para país de acordo com o seu momento histórico. Na Suécia, por exemplo, recentemente tem sido usada uma retórica na qual a propaganda de cigarros seria uma afronta à liberdade individual. Deixar crianças e adolescentes serem expostos à propaganda mentirosa do fumo seria uma forma bárbara de primitivismo social.

Tanto a intensidade deste debate quanto o clima ideológico advém do fato de que temos utilizado quase nenhuma informação objetiva para avaliarmos a política a ser seguida. Os dois lados do debate usam informações de fontes muito duvidosas e muitas vezes completamente fora de contexto. Temos que pelo menos saber alguns modelos teóricos que poderíamos estar usando para guiar as nossas futuras decisões. A figura 1 mostra os três modelos que, de uma forma explícita ou não, acabam sendo usados neste debate. Os que defendem a proibição total do uso de drogas acreditam que a curva a-b representa o controle ideal do uso de drogas. Significando que a proibição total de uma droga seria a melhor opção pois não causaria nenhum dano social, e a medida que caminhássemos para a lado b da curva, ou seja para a legalização das drogas, o dano social aumentaria. O grande argumento contra este modelo foi a própria lei seca americana que produziu um aumento considerável da violência devido ao crime organizado. Muito tem sido escrito sobre este período da história americana e enfatizado este lado do custo social da lei seca, no entanto, do ponto de vista do consumo de álcool a lei foi um sucesso, pois diminuiu consideravelmente o consumo de álcool global. Entretanto, houve um aumento do consumo de álcool de péssima qualidade e um número considerável de pessoas teve problemas sérios de saúde. De qualquer forma uma simples análise de custo benefício mostra que esta foi uma experiência que nenhum país ocidental quer repetir novamente, embora os países islâmicos ainda adotem este tipo de controle social rígido.
 Do outro lado do debate há as pessoas que defendem a legalização total das drogas. A curva c-d ilustra este modelo onde a proibição total de uma droga levaria a um grande nível de dano, principalmente pelo crime que estaria associado com o uso ilegal de uma substância, a maior corrupção social, o nível mais impuro da droga no mercado negro, e à dificuldade das pessoas buscarem ajuda em relação a um comportamento ilegal. Argumenta-se que a proibição total causaria mais dano do que mesmo a legalização total da droga. A grande fraqueza deste tipo de argumento é que não leva em consideração que a legalização de uma droga produz uma maior oferta desta droga, e portanto exporia um número maior de pessoas ao consumo e portanto às suas complicações. Enfatiza-se aqui em demasia o comportamento individual do uso de drogas e não se leva em consideração o nível agregado de dano. Por exemplo, se legalizássemos completamente a maconha uma das possibilidades seria uma maior consumo global desta droga, e possivelmente um maior consumo na população mais jovem, pois é isto que ocorre com as drogas lícitas como o álcool e o cigarro. Portanto com a legalização teríamos por um lado talvez menor número de crimes mais violentos, mas por outro lado a população mais jovem teria maiores complicações na escola, e talvez até aumentasse um tipo de criminalidade menos violenta para conseguir um pouco de dinheiro para consumir drogas.
 Existe um terceiro modelo intermediário de política que é o baseado na curva c-e. Este modelo tem recebido grande suporte em termos de pesquisa, especialmente quando se reúne todas as drogas de abuso lícitas ou não. Nesta curva podemos perceber que a proibição total de uma droga produz dano, e a medida que a droga progride na escala de legalidade, e portanto a sua disponibilidade social aumenta, o número de usuários aumenta, aumentando também o nível global de dano. As drogas lícitas oferecem as maiores evidências para este modelo. No caso do álcool, por exemplo, centenas de pesquisas mostraram que quanto menor o preço e maior a disponibilidade num país, maior é o número de pessoas com problemas relacionados com o uso de álcool. A conseqüência de se adotar a curva c-e como o modelo de política de drogas a ser seguido é que devemos, em primeiro lugar, diminuir o consumo global de todas as drogas. A estratégia para atingirmos esta diminuição é que pode variar de droga para droga e depender do momento histórico que uma sociedade vive.
 A tendência mundial é por exemplo tornar progressivamente o álcool e o fumo mais próximo de uma proibição, ou de controles sociais mais rígidos, através de leis e restrições ao uso das mais variadas. No caso da maconha não existe uma tendência mundial nítida, com alguns países adotando penas mais leves ou um grau maior de tolerância, mas em nenhum lugar legalização aberta. O caso das drogas mais pesadas como heroína e cocaína a tendência é marcante em relação à proibição. O fato de existir políticas diferentes para drogas diferentes é muitas vezes apontado como hipocrisia social. Na realidade esta deveria ser uma atitude pragmática de uma sociedade que queira efetivamente responder ao problema das drogas. Uma política de drogas baseada em resultados e não em retórica e debate ideológico deveria ser julgada pelo seu efeito na diminuição do custo social de todas as drogas e não somente de uma droga específica.

 As drogas lícitas podem nos ensinar algo?
O álcool é a droga modelo com maior potencial para nos ensinar como estabelecer uma verdadeira política de drogas baseada em resultados. Em 1995 a Organização Mundial de Saúde produziu um livro (“Alcohol Policy and the Public Good”) onde os maiores especialistas em álcool do mundo se reuniram para propor quais as medidas a serem implementadas em todos os países para diminuir o custo social relacionado com o álcool. O princípio básico dessas políticas é que deveríamos diminuir o consumo global de álcool em todos os países. A figura 2 ilustra o modelo a ser seguido. O consumo de álcool de qualquer população segue uma curva normal, que nesta figura seria a curva X, onde para melhor visualização foi excluída a população que não bebe. Temos portanto uma parte da população que bebe um pouco, uma grande parte que estaria na média populacional e uma parte de bebedores pesados. Poderíamos pensar inicialmente que deveríamos buscar políticas que diminuíssem o número de bebedores pesados, mantendo a média de ingestão de álcool da população. Essas políticas poderiam quando muito produzir um pequeno efeito quando implementadas, como mostra a curva Y. No entanto quando as políticas são no sentido de diminuir o consumo global, como na curva Z decrescendo a média de consumo populacional, existe um impacto muito maior no número de bebedores com problemas, pois um número menor de pessoas beberão, um número menor ficará dependente, e portanto menor custo social global. Este efeito tem sido chamado do “paradoxo preventivo”, onde, para diminuirmos substancialmente o número de pessoas dependentes, temos de diminuir o consumo global de toda a população. As evidências deste modelo são muito consistentes, e tem sido mostradas em centenas de estudos.

As políticas a serem implementadas no caso do álcool são várias e visariam essencialmente diminuir o consumo global. 1 - políticas de preço e taxação que são as ações com maior impacto social imediato. Estudos tem mostrado que o preço do álcool segue o padrão de qualquer mercadoria, e quanto maior o preço menor o consumo. Existe uma elasticidade do consumo, que no caso do álcool é diferente de outras mercadorias, mas para cada aumento de 100% do preço existe cerca de 30% de queda de consumo global. Mesmo os bebedores pesados diminuem o consumo de acordo com o preço. Este tipo de política pode ser especialmente útil no Brasil onde o preço do álcool é um dos mais baixos do mundo ocidental, cerca de U$ 1,5 por um litro de pinga. 2 - políticas que diminuíssem o acesso físico do álcool. Tem sido demonstrado que quanto menor o número de locais vendendo álcool, maior o respeito ao limite de idade para vendas de bebidas alcoólicas, maior a consistência das leis do beber e dirigir, menor é o consumo global de uma população. 3 - políticas de proibição da propaganda nos meios de comunicação. O objetivo da propaganda do álcool não é só de fazer com que os consumidores façam preferência por esta ou aquela bebida, mas criar um clima social de tolerância e estimulo com o álcool visando nitidamente aumentar o consumo global. A proibição da propaganda tem sido consistentemente mostrada em pesquisas como um fator importante da diminuição do consumo. 4 - campanhas na mídia e nas escolas visando informar melhor os efeitos de álcool. O efeito dessas campanhas quando feitas desacompanhadas das demais políticas produzem muito pouco efeito. De nada adianta a professora na escola informar o aluno sobre álcool e outras drogas, se a televisão continua mostrando a alegria e descontração associadas com o álcool , quando esta droga transforma-se na “paixão nacional”.

Em resumo, o álcool é a droga que apresenta formas de controle social mais estudados e onde as políticas para diminuir o custo social do seu uso são muito bem estabelecidas. Esses princípios podem muito bem ser usados para as demais drogas visando essencialmente diminuir o acesso e o consumo dessas drogas.
 As leis influenciam o consumo de drogas?
Uma pergunta que deve ser respondida é, se os controles sociais são efetivos por que tornar ilegal somente algumas das drogas ? Como já salientado acima estratégias diferentes deveriam ser usadas para as diferentes drogas, e as evidências apontam para que muito pouco benefício poderia ocorrer em tornar as drogas que são ilegais em legais, pois haveria uma forte tendência no aumento do consumo. Mas uma questão que permanece é se as leis efetivamente influenciam o comportamento de consumo de drogas.
 No caso do álcool tem sido demonstrado por inúmeros trabalhos que a proibição da venda de bebidas alcoólicas para menores, quando implementadas, diminui significantemente o consumo. Vários estados americanos quando implementaram leis proibindo a venda de bebidas houve uma diminuição substancial no número de acidentes de carro entre menores devido ao uso de álcool. O grande problema em tentar responder o quanto as leis impedem o consumo de drogas é que não existem muitos dados para as drogas que sempre foram ilegais. Em um artigo recente (Drugs and the Law: A Psychological Analysis of Drug Prohibition by R. MacCoun) buscou-se analisar a escassa literatura existente e basendo-se também no efeito das leis em deter outros comportamento anti-sociais. Esse autor mostrou que as leis e os controles informais sociais conteriam o consumo de drogas através de vários mecanismos (disponibilidade da droga, estigmatização do uso, medo do atividades ilegais, o efeito fruto proibido, e um efeito simbólico geral da proibição). A abolição das leis proibindo o consumo teria um efeito dramático em vários desses fatores (estigmatização do uso, medo de atividades ilegais, o efeito fruto proibido, e efeito simbólico geral da proibição), diminuindo portanto uma série de impedimentos para o consumo.
 O mais importante neste estudo acima é que as evidências mostram que a abolição das leis teria um efeito maior nas pessoas que comumente não consomem drogas, potencialmente levando um maior número de pessoas a experimentarem e a tornarem-se usuários regulares ou esporádicos. Por outro lado os estudos mostraram que quanto maior o envolvimento com drogas menor seria o impacto das leis em deter o consumo. No entanto a lei serve para deter um número substancial de pessoas de usar as drogas. Esse estudo mostra que qualquer efeito dramático no status legal de uma droga é desaconselhável pois as conseqüências são literalmente imprevisíveis com uma nítida tendência a um aumento do consumo devido a falta de controles sociais disponíveis na falta de leis muito claras.
 Como buscar um política de drogas de resultados?
O desafio de uma política de drogas é buscar o balanço certo para cada droga, mas sempre visando uma diminuição global do consumo. A melhor atitude social seria de uma tolerância contrariada com as drogas, sem um fervor ideológico mas com um pragmatismo afiado e persistente. Corremos o risco no Brasil de que o debate da legalização de drogas vir a ocultar as reais questões relacionadas com uma política de drogas racional e balanceada. Podemos ficar anos num debate ideológico improdutivo onde as pessoas defenderão a favor ou contra a legalização de uma droga específica com grande paixão e pouca informação.
 Sofremos nesta última década um exemplo dramático de uma falta de política associada com um debate ideológico improdutivo que foi a relação do uso de drogas injetáveis e a infecção pelo HIV. Todos esses anos ficamos discutindo se seria válido trocar seringas e agulhas com os usuários de drogas e se isto seria ou não um estímulo ao consumo de drogas. Chegamos em 1996 com mais de 50% dos usuários de drogas contaminados pelo HIV e milhares de usuários, suas esposas e filhos mortos por esta política cega e desumana. A Inglaterra, por exemplo, começou a discutir este assunto em 1984 e implementou rapidamente políticas realistas apresenta hoje somente 1% dos seus usuários contaminados. Essas políticas foram implementadas com debate mas sem paixão, buscando uma política de resultados onde a prioridade foi manter vivos os usuários.
 O desafio do debate das drogas no Brasil não é se devemos afrouxar as leis da maconha, mas como fazer um debate informado e com dados, e produzir uma política de drogas racional e balanceada que possa ser avaliada constantemente. A implementação desta política não ocorre espontaneamente, mas com uma ação determinada de governo. Talvez seja inútil esperarmos por uma grande política nacional de drogas. Ações locais de governo poderiam fazer uma grande diferença. Os estados e municípios deveriam envolver-se nessas ações com a ajuda comunitária. A sociedade civil já está bastante mobilizada com o assunto álcool e drogas, é necessário agora que os governos democraticamente eleitos mostrem a sua capacidade de organizar um resposta racional a um problema que afeta milhões de brasileiros com um custo enorme para o país.


sábado, 7 de julho de 2012

 



Tem início sistema nacional de informações sobre segurança e drogas.
A partir dessa quinta-feira entra em vigor o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais e sobre Drogas (Sinesp), uma ferramenta com dados atualizados de segurança pública e padronização.
 A lei foi sancionada na quarta, 06/06/2012, pela presidente Dilma Rousseff.

O Sinesp vai armazenar e integrar dados e informações de segurança pública, como ocorrências criminais, registro de armas de fogo, entrada e saída de estrangeiros, pessoas desaparecidas, sistema prisional, condenações, penas, mandados de prisão, além da repressão à produção, fabricação e tráfico de crack e outras drogas, bem como apreensão de drogas ilícitas.

O sistema é integrado pela União e por governos estaduais. Os municípios, o Poder Judiciário, a Defensoria Pública e o Ministério Público poderão participar do Sinesp posteriormente. Um conselho gestor será responsável pela administração, coordenação e formulação de diretrizes do sistema.

"O integrante que deixar de fornecer ou atualizar seus dados e informações no Sinesp não poderá receber recursos nem celebrar parcerias com a União para financiamento de programas, projetos ou ações de segurança pública e do sistema prisional, na forma do regulamento", diz a lei.

De acordo com o Ministério da Justiça, a Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça vai iniciar o processo de desenvolvimento e implantação do sistema em parceria com os entes federados para adequação às novas regras. Posteriormente, um edital será aberto para facilitar a compra de equipamentos e capacitação de profissionais.

A ferramenta foi anunciada em fevereiro do ano passado pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, durante a divulgação do Mapa da Violência 2011. A proposta, de autoria do Poder Executivo, foi enviada ao Congresso Nacional como uma das medidas do Programa Crack É Possível Vencer.

Fonte: Terra


ABUSO DE DROGAS E ÁLCOOL: DOENÇA OU ESCOLHA?
Carlos Alberto Rocha Ferreira.
Um filósofo muito importante afirmou certa vez: "o homem está condenado a ser livre". Ele quis dizer que o homem é naturalmente livre, mas essa liberdade o condena a tomar decisões, fazer escolhas, opções pelo resto da vida. Quanto mais escolhas fazemos e nos responsabilizamos por elas, mais livres seremos. Quanto mais culpamos os outros por nossas escolhas erradas, menos autônomos e mais dependentes do outro ficamos.
Aqueles que decidem consumir uma droga estão fazendo uma opção, uma escolha. É claro que muitos fatores contribuíram para que tal escolha se desse (as angústias da vida, a simples curiosidade, a influência de amigos, a vontade de buscar um jeito novo de diversão...). Mas, a escolha, no final, foi da pessoa.
Continuar usando drogas também é uma escolha, mas cada vez menos... Isso porque o organismo vai se adaptando à presença da droga. Vai havendo modificações no cérebro. Quando o indivíduo fica sem a droga, passa a se sentir muito mal, desconfortável, irritado, deprimido, ansioso. O dependente acha que o único alívio possível é a continuidade do consumo. Conforme a dependência vai se instalando, a pessoa passa a abrir mão de coisas que antes eram muito importantes para ela. É o momento em que aparecem as brigas e discussões com a família, a piora no desempenho escolar, a venda de objetos para comprar drogas. Tudo passa a girar em torno do consumo de drogas.
A partir desse ponto, o indivíduo não consegue mais ficar sem usar drogas. Não há mais opção: o indivíduo não escolhe se vai usar drogas ou não. A doença lhe tirou essa liberdade. QUALQUER DOENÇA CONSISTE ACIMA DE TUDO NA PERDA DA LIBERDADE DE ESCOLHA. Portanto, a dependência não é uma ESCOLHA! É uma condição patológica (uma doença) que tira a liberdade do indivíduo de optar!
Perceber a presença da doença e se responsabilizar pelo tratamento é o primeiro passo em direção à recuperação. É preciso escolher a mudança e buscar ajuda para efetivá-la. Não resolve olhar o passado para achar um culpado. Deve-se pensar no futuro! Não existem culpados pela situação. Mas pode haver pessoas comprometidas com o processo de cura (o próprio dependente, sua família, os amigos, os profissionais da saúde). Afinal, se temos que estar condenados a alguma coisa nesse mundo, que seja apenas à liberdade!
Há duas sensações que pesam muito no critério de diagnóstico da doença: a perda do controle e o desejo ardente para consumir uma droga e/ou álcool. É o sentimento de estar nas garras de algo estranho, irracional e indesejado.
Exemplos:
• "Se eu tomar uma ou duas doses, não paro mais”;
• “Se eu passar por um bar, esqueço da promessa de parar";
• "Se eu passar pela biqueira, entro";
• "Se fumar uma vez, volto e fumo mais";
• "Passo o dia fissurado";
Quando se admite a derrota perante o álcool e/ou drogas é claro que se venceu a primeira resistência, mas quando se ingressa em uma internação e dizem que é uma doença logo vem à defesa! Claro quem gosta de ser portador de uma doença? Ainda mais, uma doença incurável que não tem nenhum exame laboratorial capaz de comprovar a sua existência? É engraçado, mas admitir tratamentos físicos, hospitalares, até cirúrgicos, se torna para o dependente químico muito mais fácil do que confiar em pessoas para fazer um tratamento que envolve entrega pessoal.
Isto acontece principalmente pelo fato do dependente químico não querer aceitar a realidade como já é de costume. Negar a existência da doença é ficar diminuindo a importância dos fatos, tentando encontrar respostas que não existem para justificar o não conseguir controlar o uso. Claro que pensando e agindo desta maneira a derrota será certa!
O princípio espiritual que com certeza está faltando para ao tratamento é ACEITAÇÃO! Sem este princípio não existe começo nem o fim do tratamento para se entrar em recuperação.
Aceitar é confundido com passividade, com paralisia, com falta de interesse ou com falta de ação; o conceito na realidade é exatamente o inverso, pois quando eu aceito as coisas como elas são, eu resgato minha força e poder de transformar.
Aceitar não quer dizer que eu possa fazer as coisas voltarem a ser como eram. Aceitar não significa estar feliz e contente com os acontecimentos. Aceitar não é aprovar o ocorrido. Mas aceitar significa ficar aberto às mudanças, a rever as formas de perceber e agir. Quando isto ocorre se sai do papel de vítimas das circunstâncias, para realizar com disposição as mudanças que precisam ocorrer.
Quando não aceito integralmente, com a mente e o coração, estou tentando muitas vezes é restaurar as situações anteriores. Aceitar significa abrir-se à mudança.
Ao encarar e aceitar a minha adicção estou tomando o primeiro e decisivo passo para fazer mudanças. Num tempo como o nosso, de rápidas e profundas mudanças, deixar de aceitar a realidade é abdicar do direito de fazer escolhas conscientes. Aceitar uma realidade é deixar o velho e ingressar no novo. A aceitação é um aviso que diz que agora é preciso mostrar fibra e coragem. É um presente que convida a agir. Trata-se da superação dessa mania de tudo poder!
Quando reconheço a verdade fica mais fácil aceitar a verdade dos outros. A partir daí estarei realmente mais livre para cooperar comigo e com os outros.
O hábito de sentir, pensar, e agir radicalmente achando que do meu jeito é a maneira “correta”, machuca e desrespeita toda realidade da minha adicção.
Quando aceito minha adicção eu aceito ter uma doença progressiva, incurável, que poderá me levar à morte. Se ela não tem cura a única solução possível é estagná-la para conseguir conviver com ela. No caso o sugerido é o programa dos 12 passos onde milhões de pessoas conseguiram e conseguem conviver com a doença e tem para si uma vida bem melhor do que a ilusão e confusão da ativa.
Só a partir desta consciência ser sentida é que posso começar a me render a tudo aquilo que possa me atrapalhar para progredir e caminhar em recuperação. Se render não é estar simplesmente rendido é sim se render diariamente as situações, pensamentos, sentimentos, vontades, atitudes e comportamentos que possam vir a atrapalhar minha recuperação. É aprender a ceder e deixar de fazer muitas coisas que julgava serem boas para poder ganhar a possibilidade de experimentar uma vida nova, com situações e descobertas nunca observadas e sentidas antes.
Para mim hoje ser adicto se tornou uma benção, porque normalmente as pessoas têm os mesmos medos, mágoas, inseguranças que eu tenho, mas pelo fato de não terem a doença escondem ou ignoram. Isso eu não posso e nem devo fazer. A doença me deu o grande prêmio de aprender a viver e ter uma vida melhor, simples e verdadeira.
Quando brigava com a vida ela se defendia de mim, mas a partir do momento que comecei a aceitá-la do jeito que ela é, recebi de presente a sua amizade e infinitas oportunidades de ser feliz!!!
Só por hoje!!!

quarta-feira, 4 de julho de 2012




Saiba como internar compulsoriamente um parente viciado em drogas.

Valmir Moratelli

Medida cautelar solicitada pela família pode levar usuários de drogas maiores de idade a serem internados sob orientação médica
Conversando com usuários de drogas internados em clínicas, seja as públicas ou particulares, se percebe que, raramente, eles têm noção de que precisavam de ajuda. Os médicos dizem que a internação psiquiátrica deve ser, de preferência, por livre vontade do usuário. O que nem sempre é possível. Em casos extremos, quando a pessoa está bastante debilitada e tem sua saúde física e mental em risco, os pais ou familiares podem entrar na Justiça para obter uma liminar de medida cautelar.
Wanderley Rebello de Oliveira, presidente da Comissão de Políticas sobre Drogas da OAB-RJ, explica ao iG que o processo é simples e rápido, visto que precisa de urgência. “A pessoa deve procurar o fórum de sua cidade. Se não puder pagar pelo advogado, como em muitos casos, deve recorrer à defensoria pública. O juiz emite uma ordem para a internação compulsória em, no máximo, 48 horas”, explica.
O presidente da Comissão de Políticas sobre Drogas explica que os viciados em crack, nas situações mais extremas, são enquadrados na lei de proteção aos portadores de doenças mentais. “Muitos estão tão debilitados que a internação é mesmo a única solução. Assim como os doentes mentais, nestes casos, o viciado precisa de internação compulsória”, continua Wanderley.
Ainda segundo ele, o ideal é que o parente já tenha um laudo médico informando a situação de risco em que se encontra o dependente. Caso não haja condição financeira de a família custear um tratamento, e não havendo tratamento específico na rede pública, o representante legal do dependente pode recorrer à Justiça que o Estado custeie o tratamento na rede particular. “O Estado tem o dever de promover políticas públicas de saúde. Tem que arcar com as despesas daquele cidadão”, diz o advogado.