terça-feira, 20 de março de 2012


O crack que ninguém queria ver.

Ainda não há nenhum remédio que cure a dependência da cocaína. E cada vez se usa mais o crack, o substrato da droga, portanto mais fatal que ela. Essa é uma das tristes conclusões que trago das aulas que assisti no início deste mês na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Ano após ano, busco a reciclagem no curso de Educação Médica Continuada da Universidade, o que me confere autorização da Associação Médica Americana para continuar atuando como especialista pós-graduado em dependência química.
Isso tem explicação em uma doença social. O crack deve ser visto como um produto qualquer dentro do sistema capitalista. Como uma solução mágica, ele vem revestido da idéia de felicidade imediata, satisfação instantânea, a preço muito baixo, já que cada pedra pode sair a R$ 1,00. Além disso, há uma forte propaganda boca a boca, enaltecendo o uso de drogas como sendo ‘uma boa’. Penso que a propaganda favorável aumenta às custas dos que se calam. O problema é que a grande maioria não diz aquilo que pensa. Essa pouca manifestação em geral é por temor de represália de violência, já que a venda do produto tóxico é realizada em ambientes sujeitos à violência, mas também pode ser por medo social de ser rejeitado por não estar de acordo com a conduta geral. Chegamos ao ponto absurdo em que um veneno extraordinariamente nocivo como o crack é usado nas ruas, por crianças, e fingimos que não estamos vendo.
E o pior: quando o governo toma a atitude de tratar destes menores, começa a receber críticas. Defendo a internação compulsória de menores proposta pelo Secretário Municipal de Assistência Social do Rio, Rodrigo Bethlem, que conta com minha assistência sempre que precisar. Conter involuntariamente uma criança que esteja se drogando é atitude humana, amparada na lei e tem o apoio do juizado de menores. É preciso considerar que nem sempre a pessoa que quebra um braço quer ser atendida pela ambulância: muitas vezes porque não conseguem avaliar adequadamente suas necessidades. A questão já foi até debatida por nós na Comissão de Justiça da Câmara dos Deputados, em Brasília, e o projeto do combate ao crack no Rio - mesmo imperfeito por ser uma espécie de cobaia está sendo imitado em outros estados.
Vamos lembrar que crack é uma droga que entra muito rapidamente na circulação sanguínea, enfraquecendo o organismo e predispondo-o a doenças infecciosas e à morte. Causa doenças pulmonares graves, porque o usuário respira veneno, a escória da cocaína. Quem se droga, se descuida da alimentação, ingerindo menos proteína e fabricando menos anticorpos. Também não se importa com a higiene, permitindo a entrada de micróbios agressores no organismo. O crack cria dependência em menos de dez vezes de uso. Sua ação cerebral grave altera a condução do pensamento, levando a transtornos mentais e comportamentais sérios, com aumento significativo da agressividade.
Minha experiência clínica me permite afirmar que até cinco anos atrás eram pouco freqüentes as internações pro crack no país. Mas agora, é raríssimo encontrar alguém internado para tratar dependência química que não tenha usado crack. Com isto, o tempo das internações também mudou. Se antes, precisávamos de 60 dias de internação para casos graves de dependência de cocaína, hoje são necessários seis meses para estancar a compulsividade que toma conta do usuário de crack, com equipe de médicos, enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, professores de Educação Física, nutricionistas... E depois da alta, o paciente depende de acompanhamento 24h e freqüência aos grupos de Narcóticos Anônimos, o recurso gratuito de manutenção da abstinência, para não facilitar a temida recaída.
Há muito tempo, ofereço um espaço gratuito para tratamento ambulatorial de dependentes químicos na Câmara Comunitária da Barra da Tijuca, onde também formo conselheiros. Este ano, o curso gratuito conta com 160 alunos. Serão eles que, em 2013, como todos os anos, vão se organizar para colocar na rua a banda Alegria Sem Ressaca, que faz prevenção à dependência química, desfilando pela orla de Copacabana no domingo anterior ao Carnaval. Será o décimo desfile da banda, que tem a atriz Luiza Tomé, familiar de dependente químico, como madrinha.
*Jorge Jaber é médico, especialista em dependência química pela Um de Harvard, diretor científico da Associação Brasileira de Alcoolismo e Outras Drogas (ABRAD), e assessor da presidência Associação Brasileiro de Psiquiatria, para assuntos ligados à dependência química (ABP).

domingo, 18 de março de 2012


A crônica de um menor viciado em crack.

Lauro Neto RIO - O adolescente X., de 14 anos, é viciado em crack desde os 10. Há 11 dias, ele foi recolhido por agentes da prefeitura numa cracolândia na favela do Jacarezinho e, há uma semana, está na Casa Ser Adolescente, uma unidade de abrigo compulsório da prefeitura para crianças e adolescentes dependentes químicos, em Campo Grande. Não é a sua primeira vez sob a tutela do município. Em quatro anos, X. passou 66 vezes pela Central de Recepção Carioca, responsável pela triagem dos menores acolhidos nas ruas.
O garoto é mais um no exército de menores de idade dependentes de crack no Rio. No próximo dia 31 de março, completa um ano que a prefeitura começou operações de recolhimento específicas para cracolândias. A partir daí, foram 3.579 acolhimentos. Desses, 544 foram de crianças e adolescentes, que, desde maio, são mantidos nos abrigos mesmo contra sua vontade, e só podem ser liberados pela Justiça.
Mas muitos fogem dos abrigos. Segundo o secretário municipal de Assistência Social, Rodrigo Bethlem, há, no máximo, 150 menores viciados em crack nas ruas e em atendimento. Boa parte, reincidente. Muitos foram abrigados ao menos três vezes desde 31 de março. Ano passado, X. foi acolhido e voltou às ruas três vezes. No último dia 7, ao ser abordado por agentes da Secretaria Municipal de Assistência Social, no Jacarezinho, ele até cumprimentou a equipe.
Já conheço todo mundo. Passei por todos os abrigos que existem conta ele, rindo. Fugi de um que ficava em Barra Mansa e voltei andando. Ano passado, pulei o muro do Ser Criança, peguei o trem e fui direto para o Jacarezinho.
‘Nossos abrigos não são presídios’, diz secretário
Desde que a prefeitura implementou o acolhimento compulsório, há dez meses, os menores só podem deixar o abrigo com aval da Vara da Infância e da Juventude. A medida gerou controvérsia. Para algumas entidades de direitos humanos, trata-se de uma agressão ao direito de ir e vir. Além disso, a Ordem de Advogados do Brasil (OAB) critica a estrutura do município para atender a essas pessoas. Mas o secretário Bethlem diz que é a única forma de combater o problema sem "enxugar gelo".
Não há outra solução para salvar a vida de um garoto que passou 66 vezes pela nossa rede e continua na rua usando crack. Nossos abrigos não são presídios. Não tem polícia ou grade eletrificada. Mas acabou esse negócio de portas abertas, de entrar e sair a hora que quer. O grau de evasão está muito inferior.
Ao chegar à Central Carioca, logo após ser tirado do Jacarezinho, X. foi tomar um banho. O garoto, que usa pingente no pescoço com a palavra "rebeldes" presente da namorada, também viciada em crack, conta que já roubou várias vezes, para manter o vício.
Já perdi a conta de quantas pessoas roubei para comprar a droga. Até um celular da minha mãe eu levei.
A mãe de X., segundo ele, mora no Morro dos Macacos, em Vila Isabel. A equipe do GLOBO tentou falar com ela, mas a prefeitura não conseguiu localizá-la. O próprio adolescente não a vê desde dezembro, quando foi liberado, temporariamente, para passar o Natal com ela e os cinco irmãos. X. conta que um outro irmão morreu na guerra do tráfico. O pai, diz ele, também está morto.
Ainda na Central Carioca, o dilema da diretora, Evelyn Serra, era decidir para onde encaminhar o menino, que já havia passado pelo acolhimento compulsório e por centros de atenção psicossocial:
Ele tem um histórico de drogadição muito grande, já foi reintegrado à família e fica nesse ciclo: casa, rua, abrigo.
Segundo a prefeitura, os 20 menores abrigados na Casa Ser Adolescente têm assistência psicológica e pedagógica, com aulas de desenho, espanhol e de educação física. Junto dos colegas e observado pelos funcionários do local, X., que só estudou até a 2 série, garante que quer se recuperar.
Não sei o que dá na minha cabeça quando fujo. Mas agora quero sair pela porta da frente, de cabeça erguida. Só volto para casa quando estiver gordinho, como minha mãe me viu. Meu sonho é entrar para a Aeronáutica.
Diretora da Ser Adolescente, Maria Cruz estima que só 15% dos jovens que passam por lá se recuperam, mas diz que a evasão diminuiu. O histórico de X. mostra que 47 de suas passagens pela rede de acolhimento foram em 2009. Dez delas aconteceram em 2010. Desde 2011, quando começou o acolhimento compulsório, foram quatro. Mas a advogada Margarida Pressburger, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, critica a forma como é feito o acolhimento no município.
Eu estive na Casa Viva, na Rua Alice, em Laranjeiras, e notei uma grande falta de estrutura médica e psicológica, tanto em termos de equipamento quanto de profissionais. Desse jeito, a prefeitura não está recuperando ninguém. Está apenas tirando das ruas, para a população não ver, e mantendo em cárcere.
A luta para deixar a droga no passado
Em dezembro, o governo federal anunciou um programa de enfrentamento ao crack com recursos de R$ 4 bilhões. Semana passada, a prefeitura de Recife e o governo pernambucano formalizaram sua adesão, e receberão R$ 85 milhões até 2014. Segundo o Ministério da Justiça, o estado e a cidade do Rio só não foram incluídos ainda por problemas de agenda das autoridades, já que a cerimônia de adesão envolve três ministros (Saúde, Justiça e Desenvolvimento Social), além do governador e do prefeito.
O objetivo do programa é permitir que viciados possam deixar para trás a droga. A carioca Bruna, de 18 anos, orgulha-se ao dizer que parou com o crack. Filha de uma família desestruturada, ela experimentou a droga aos 16. Em maio de 2011, foi encaminhada pela prefeitura para o centro de tratamento Bezerra de Menezes, em Guaratiba. Uma das primeiras adolescentes a ser mantida compulsoriamente num abrigo, Bruna ficou cinco meses no local, até fazer 18 anos. Hoje, casada com um ajudante de cozinha e grávida, está livre do crack há dez meses. Ela sonha ser educadora.
Antes, eu não aceitava que estava viciada, conta Bruna. O abrigamento me ajudou muito, mas a realidade é aqui fora. Sempre que bate a fraqueza, ligo para o pessoal da Bezerra de Menezes. Noutro dia, vi parentes fumando crack e não tive vontade. Eu venci, e tenho esperança de que eles vão conseguir um dia.
Contudo, para o coordenador do Programa de Estudos e Assistência ao Uso Indevido de Drogas do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, Marcelo Santos Cruz, o acolhimento obrigatório é uma medida de eficácia questionável.
Essa prática é uma resposta imediatista, que tem o resultado de diminuir a visibilidade do problema. Mas os efeitos desta política a médio e longo prazo são desconhecidos critica Cruz, que desenvolve uma pesquisa com 80 usuários de crack no Rio. Afastar os sujeitos das drogas e de outras situações de risco é uma coisa. Eles se tratarem é outra. É importante que a pessoa esteja motivada a parar de usar drogas.

Aumento do número de pessoas acima de 50 anos que usam a droga preocupa médicos
Sandra Kiefer
O Brasil ainda se nega a aceitar a própria velhice. Já o crack não tem preconceito de idade. Os fornecedores da chamada pedra do mal, que custa bem menos que uma dose de cachaça (de R$ 2 a R$ 10 a unidade) e vicia mais que a bebida, já descobriram suas novas vítimas. Depois dos jovens, perdidos como mendigos nas cracolândias, começam a atrair as pessoas acima de 50 anos. Segundo os últimos dados do Centro Mineiro de Toxicomania (CMT), dos 1.217 casos de dependentes de drogas lícitas e ilícitas que buscaram a ajuda da instituição no ano passado, o número de usuários de crack (119) com mais de 50 anos superou, pela primeira vez, o universo de entrevistados de mesma faixa etária que declararam ser usuários de álcool (113).
A diferença dos viciados de cabelos brancos é que, além de terem renda garantida pelo trabalho, aposentadoria e empréstimos consignados, buscam no vício uma saída para o abandono familiar, as doenças crônicas e o isolamento social que vem com a chegada da aposentadoria. “Quando dei por mim, estava debaixo do viaduto da Avenida Silva Lobo, morando com uma noiada (apelido que se dá aos usuários do crack que vivem em paranoia)”, revela o vendedor autônomo Antônio, de 54 anos. Para financiar o vício, ele vendeu dois carros (um Palio e um Peugeot) e uma casa de campo e queimou todas as economias. Só não perdeu o apartamento no Bairro Barroca porque foi interditado pelos filhos um dentista, de 25 anos, e um professor, de 28.
Os casos ainda são pontuais, mas servem de alerta às autoridades, segundo a gerontóloga Viviane Café Marçal, autora de Crack na terceira idade: o inimigo invisível. “Ninguém está preparado para lidar com idosos mexendo com drogas. Muitas vezes o paciente chega ao hospital depois de ter sofrido uma queda e diz ter misturado os remédios. Ninguém vai perguntar se ele usou cocaína ou crack, porque essa pergunta não existe no prontuário. E ele também não vai falar sobre isso na frente do filho”, avisa. Ela acredita que os casos são subnotificados, devido à falta de informação dos enfermeiros, policiais e familiares em relação ao tema. “É preciso acordar para a realidade atual. Caso contrário, em 10, 15 anos, o número vai ser alarmante”, completa.
Filha pede socorro
“No final do ano passado, uma filha nos procurou pedindo socorro. Ela buscava tratamento de saúde e tentava conseguir a interdição do pai, de quase 70 anos, que estava dilapidando o patrimônio da família com o uso do crack”, conta o defensor público Estêvão Machado de Assis Carvalho, da Defensoria Especializada do Idoso e da Pessoa com Deficiência, reativada há oito meses na capital. O mais comum, porém, é ocorrer o contrário, ou seja, o idoso pedindo proteção contra um filho ou neto envolvidos com drogas. Eles se tornam violentos ou usam indevidamente o benefício do INSS do pai ou avô para sustentar o vício. “O crack está se alastrando e a população de idosos está crescendo. É só uma questão de tempo para as duas pontas se encontrarem”, diz.

domingo, 11 de março de 2012


O consumo da droga avança, mas governo e entidades sociais enfrentam dificuldades para contê-lo. Ainda falta informação sobre o problema.

LILIAN TAHAN
ALMIRO MARCOS

Cada vez mais inserido na realidade de pobres e de ricos, de homens e de mulheres, os prejuízos pessoais e sociais do consumo de crack são evidentes. Os usuários sabem, a sociedade tem noção dos danos e o Poder Público, a responsabilidade de cuidar dos dependentes e de proteger os não usuários dessa droga que contamina a convivência em comunidade. Mas o fácil acesso e o consumo escancarado das pedras durante o dia ou à noite em endereços da periferia ou no centro do Distrito Federal são evidências de que o enfrentamento ainda não mostrou resultados suficientes, nem por parte do governo federal, nem do GDF.
Em 14 de agosto do ano passado, quando estava em viagem à China, o governador Agnelo Queiroz (PT) anunciou o lançamento de um programa envolvendo várias secretarias, que estariam engajadas no combate ao consumo e à venda de crack na cidade. Disse, na época, que o governo teria tolerância zero para enfrentar a situação. Sete meses depois, no entanto, ainda é possível fazer flagrantes em vários pontos da cidade onde o crack é combustível para a violência, como mostrou a reportagem na última semana. Desde domingo, o Correio publica a série Mulheres de Pedra, que aborda as consequências da dependência dessa droga no universo feminino.
Um mês depois de anunciar a ofensiva contra o crack, o GDF lançou a operação Marco Zero, com a participação de secretarias como a de Segurança, de Justiça, de Desenvolvimento Social e de Saúde. A iniciativa oficial era fazer uma ação conjunta que abordasse não só a repressão ao consumo e à venda das pedras, mas também um trabalho de prevenção. Segundo integrantes do governo, o projeto está na rua, nas escolas e nas unidades preparadas para lidar com usuários. O subsecretário de Políticas sobre Drogas, Mário Gil, explica que as ações foram planejadas para o período de quatro anos e que muitas delas ainda estão em fase inicial.
Gil cita, por exemplo, que o combate eficiente depende de um mapeamento confiável dos pontos onde a droga é vendida e consumida, bem como de estudo sobre o perfil dos usuários e da quantidade de pessoas envolvidas no problema. "A pesquisa de georreferenciamento, vulnerabilidade e pontos do crack ainda está em andamento. A falta de dados atrasa o nosso trabalho", admite o subsecretário.
O levantamento é coordenado pela Companhia de Planejamento do DF (Codeplan). Quando o órgão for a campo constatará, por exemplo, que usuários e traficantes consomem e vendem a droga explicitamente em endereços de Ceilândia, como na QNN 03 e na QNN 13, na área central de Taguatinga e, eventualmente, na Rodoviária do Plano Piloto.
Mais dependentes
A gerente do Centro de Atenção Psicossocial em Álcool e Drogas (CapsAD) da Rodoviária do Plano Piloto, Maria Garrido, informa que o número de atendimentos em fevereiro (467) foi o maior desde setembro do ano passado, quando a unidade passou a funcionar. "O crescimento da procura é um sinal de que mais pessoas sofrem da dependência, mas também demonstra que há um público maior assistido pelo Poder Público", defende. O CapsAD da Rodoviária atende 15 regiões administrativas do DF - Lago Norte, Lago Sul, Asa Norte, Asa Sul, Cruzeiro Novo e Velho, Octogonal, Sudoeste, ParkWay, Núcleo Bandeirante, Candangolândia, Varjão, São Sebastião, Vila Telebrasília e Vila Planalto (leia arte).
No combate ao crack, a dificuldade de mapear os pontos de compra e de venda e de conhecer o perfil dos usuários não são as únicas cobranças feitas ao Poder Público. Representantes de comunidades terapêuticas reclamam que é difícil manter o funcionamento das casas de recuperação sem recursos oficiais. Muitas clínicas de internação espontânea recebem pacientes recomendados pelos CapsAD. "O dinheiro de emendas é fundamental para sustentar a nossa rotina. Mas conseguir esses recursos é uma luta constante", conta Cláudia Britto, presidente da Transforme, que acolhe crianças e adolescentes.
Coordenadora de uma das três comunidades terapêuticas especializadas na recuperação de mulheres, Maria Lúcia Pereira aponta que uma das iniciativas oficiais capazes de ajudar a comunidade terapêutica não é compatível com a rotina dos usuários. "O governo oferece uma ajuda de custo de R$ 800 por paciente internado, mas deve-se comprovar que as internas ficaram o mês todo. Os recursos acabam fazendo falta para as que ficam", diz Lúcia, que mantém a casa com doações.
Apreensão de dois quilos
Um homem foi preso, na última quarta-feira, com mais de dois quilos de pedras de crack. A ação da polícia ocorreu às 19h50 em Sobradinho 2, em um depósito que servia de esconderijo para a droga. Segundo o delegado-chefe da 35ª Delegacia de Polícia, Rogério Rezende, Pedro Antônio Oliveira Júnior, 26 anos, era investigado desde janeiro. Após uma denúncia anônima, os policiais encontraram o deposito, na residência de um adolescente de 17 anos. O garoto fugiu e ainda não foi encontrado. Pedro Antônio acabou preso com 2,5kg de crack, que ao todo daria para vender 7 mil pedras da droga, além de 300g de cocaína.


Cigarro x informação

Jornal Diário de S. Paulo
É triste e chocante a constatação de que os brasileiros da classe C gastam mais com cigarro do que com alimentos, conclui a mais recente pesquisa Pyxis Consumo, feita pelo Ibope Inteligência. Sempre se soube que a carência de informação cria legiões de incautos em todos os setores. Não é de hoje, aliás, que a indústria do fumo se beneficia do contingente de desinformados que ela ajuda a formar, com a propaganda explícita e com a propaganda implícita, subliminar.
Nos últimos anos, com a ampla exibição de filmes antigos pelos canais pagos da TV, percebe-se como se incentivava o tabagismo nas telas.
Praticamente todos os personagens fumavam. Não só os machões durões, mas também as frágeis mocinhas de repente tiravam o cigarro da carteira e logo aparecia alguém com o isqueiro aceso, ou com o fósforo às vezes acendido por meio de surpreendente fricção na sola do sapato, na manga do paletó. O cinema foi um disseminador da vontade de fumar. É de se supor, aliás, que a indústria do tabaco esteja adorando (e financiando?) esses canais especializados em passar filmes antigos.
Até meados da década de 1980, a propaganda de cigarros era uma das campeãs nos meios de comunicação brasileiros. Houve um largo período em que todas as contracapas de revistas semanais traziam anúncios de cigarros. A partir das descobertas científicas de que o tabaco provoca uma infinidade de doenças, vem diminuindo em todo o mundo a propaganda das diferentes marcas. O Brasil tem seu crédito, no combate eficiente ao tabagismo, graças àquelas contracapas dos maços de cigarro com fotos terríveis de pessoas que tiveram a saúde comprometida pelo vício de fumar.
No Brasil, como na maioria dos países, multiplicam-se as restrições ao tabagismo. Primeiro em São Paulo, depois no restante do país, está proibido fumar em recintos fechados. Nos locais de trabalho, não podem mais existir os “fumódromos”, aqueles espaços reservados para fumantes. Quem quiser fumar, que vá para a rua, onde a fumaça se dispersa e os não fumantes (ou fumantes passivos) não têm os seus pulmões ameaçados pela fumaça que vem do cigarro alheio.
Infelizmente, a noção de que o cigarro é nocivo ainda não está consolidada entre as pessoas menos informadas. De um modo geral, essas pessoas são também as de renda mais baixa, responsáveis por 50% dos cigarros que serão consumidos no Brasil em 2012. Esse dado impressionante mostra que a guerra ao tabagismo precisa continuar. Além das autoridades, que não podem relaxar nas restrições à propaganda do cigarro, também os meios de comunicação têm o dever de levar aos brasileiros mais desinformados a informação de que nicotina é um veneno, uma ilusão que mata