domingo, 15 de janeiro de 2012



   Escândalos, paixões e correrias
Estavam os habitantes da Cracolândia de São Paulo (que odeio chamar de “nóias”, uma palavra que tem acento pejorativo de gíria vulgar) postos em sossego em seu torpor de zumbis, quando chegou uma tropa da PM e os colocou pra correr.
Escândalos,paixões e correrias,como alardeava uma velha canção de João Bosco e Aldir Blanc, popular nos anos 70.
Imediatamente colocou-se em pauta não uma discussão racional sobre o destino das desafortunadas criaturas e as consequências da ocupação do espaço público, mas exatamente a primeira rodada antecipada do campeonato eleitoral municipal, que irá se desenvolver em outubro deste ano em São Paulo.
Eles estão lá há 15 anos, e fora um sobressalto ou outro, parece que ninguém se preocupava muito com eles- com exceção, é claro, daqueles que eram obrigados por contingências pessoais a dividir e disputar o espaço com eles ou aqueles que, por razões profissionais tentavam, em silêncio e anonimamente, salvar os viciados de si mesmos.
Com a ação policial ,aconteceu aquilo que costuma acontecer quando a TV acende seus holofotes em direção a uma torcida de futebol, que passa da apatia total ao entusiasmo enlouquecido assim que a luz os ilumina e a câmera começa a registrar sua súbita e descontrolada euforia.
A luz acordou pelotões de políticos, jornalistas, especialistas, direito-humanistas, promotores, juristas, padres, pastores, sacerdotes, urbanistas, ativistas de toda espécie, cada qual com sua receita pronta para resolver o problema.
O Ministério Público, que até então jazia em santa indiferença diante da ação dos traficantes da Cracolândia, anunciou que vai investigar a ação da polícia, pois a considera precipitada, uma vez que foi deflagrada um mês antes da inauguração de um centro de apoio que está sendo construído pela prefeitura perto do local.
Sem esse centro de apoio, a ação policial de dispersar os viciados e dificultar a vida dos traficantes, não faria sentido.
Talvez não fizesse de fato se a ação fosse apenas policial.O MP ignora, ou prefere fingir que ignora, que a Prefeitura tem 1.200 leitos psiquiátricos disponíveis para tratamento e que 150 agentes comunitários da Secretaria Municipal de Saúde trabalham, alternadamente, todos os dias da semana, inclusive aos feriados, junto aos dependentes químicos da região.
Uma entrevista do coordenador de Políticas sobre Drogas da Secretaria de Estado da Justiça e da Defesa da Cidadania, Luiz Alberto Chaves de Oliveira, dizendo que a privaçao de drogas causa ao viciado “dor e sofrimento” , e que isso o levaria a pedir ajuda, foi usada para batizar pejorativamente a açao da polícia de Operaçao Dor e Sofrimento.Um nome que caiu do céu.
Os humanistas profissionais correram a gritar contra a ação “higienista” , e estão pouco se lixando se a procura dos dependentes por ajuda dobrou desde o desencadeamento da operação.
Eles não estão interessados na sorte dos zumbis da Cracolândia. Estão mais interessados em fazer praça de sua sociologia progressista e em industrializar seus bons sentimentos.
Uma chaga aberta e sangrando rende mais demagogia e demagogia rende mais votos.
Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”.


 




Relação entre acidentes de trânsito e álcool.

Notícias de acidentes de trânsito com vítimas fatais envolvendo o uso de álcool são frequentes. Mas, apesar de a maioria da população saber da relação entre as altas taxas de mortalidade no trânsito e o consumo dessa substância, ainda persistem muitas dúvidas sobre o uso de álcool por motoristas, principalmente sobre seus efeitos no organismo e os riscos que se corre ao dirigir embriagado.

A destreza e outras habilidades necessárias para a direção, como a tomada de decisões, são prejudicadas muito antes dos sinais físicos da embriaguez começarem a aparecer. Isso porque, já nos primeiros goles, o álcool atua como estimulante e pode deixar as pessoas, temporariamente, com uma sensação de excitação. No entanto, as inibições e a capacidade de julgamento são rapidamente afetadas, aumentando a probabilidade de tomarem decisões equivocadas. O tempo de reação e reflexos também sofre alterações, comprometendo ainda mais as habilidades necessárias para o ato de dirigir. Em altas doses, a bebida alcoólica pode também causar sonolência ou até mesmo ocasionar a perda da consciência ao volante.

Com base nessas informações, um estudo norte-americano publicado na revista científica Addiction, fez um levantamento de todos os acidentes automobilísticos fatais ocorridos entre 1994 e 2008 - totalizando 1.495.667 casos - com o objetivo de analisar a relação entre consumo de álcool e acidentes de trânsito.

Segundo a pesquisa, comparado aos motoristas sóbrios, aqueles que beberam estavam mais propensos a dirigir em alta velocidade, não usar cinto de segurança e conduzir o veículo causador da colisão. Além disso, quanto maior a concentração de álcool no sangue (CAS), maior a velocidade média e a gravidade dos ferimentos causados pelo acidente. Os fatos foram observados até mesmo quando a CAS era considerada baixa; por exemplo, uma CAS de 0,01% esteve associada a um risco significativamente maior de acidentes do que a CAS de 0%.

No Brasil, de acordo com o Vigitel (Sistema de Monitoramento de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas Não Transmissíveis por meio de Inquérito Telefônico), 1,5% foi a frequência de adultos que conduziram veículos motorizados após o consumo abusivo de bebida alcoólica, em pelo menos uma ocasião nos 30 dias anteriores à pesquisa, em 2010.

O que é possível fazer para prevenir esses acidentes?

A melhor forma de prevenir é informar, por isso, além de apoiar e divulgar pesquisas científicas, é importante trilhar novas alternativas, com ações e campanhas de conscientização e prevenção contra a direção de veículos automotores sob a influência dos efeitos dessa substância - uma das maiores causas de acidentes de trânsito em todo o mundo.

Como exemplo de projetos de educação no trânsito, pode-se citar a parceria entre o CISA e a Rede Ipiranga na prevenção do comportamento de beber e dirigir, por meio da distribuição de materiais educativos produzidos pela ONG aos participantes da campanha "Saúde na Estrada". Para visualizar o Guia "Sinal verde para a vida: vermelho para álcool e direção.

Os efeitos da substância em nosso corpo são duradores e não devem ser subestimados. Em média, o álcool é metabolizado a uma velocidade de 0,15 gramas por litro por hora. Por exemplo, uma dose de 0,2g/l - o equivalente a um copo de chopp ou cerveja, uma taça de vinho, meia dose de whisky ou cachaça - leva cerca de uma hora e meia para ser totalmente eliminada. Esse tempo varia um pouco de pessoa para pessoa e de acordo com o gênero, uma vez que as mulheres são mais vulneráveis ao álcool do que os homens.

Algumas pessoas acreditam que parar de beber ou tomar um copo de café podem torná-los aptos a dirigir com segurança. A verdade é que o álcool continua a afetar o cérebro, prejudicando a coordenação e capacidade de julgamento até mesmo horas depois da ingestão da última dose. Dessa forma, alguns fatos ficam evidentes: não existe maneira de acelerar a recuperação do cérebro após a embriaguez, ou tomar boas decisões ao volante quando você já bebeu. Bebida e direção formam uma combinação perigosa e fatal, para qualquer quantidade de álcool consumida. Portanto, se beber não dirija!

Guia "Sinal verde para vida; vermelho para álcool e direção". Centro de Informações sobre Saúde e Álcool, 2011.


Sexo, crack e gravidez
Um olhar sobre o grupo mais vulnerável da Cracolândia.
O “faxinão” da Cracolândia, a tentativa de dispersar os viciados do centro de São Paulo sem oferecer a eles nenhuma forma adequada de tratamento, obriga a sociedade a discutir o que deu errado ali nos últimos 20 anos. Proponho um olhar construtivo. Uma reflexão sobre quem mais sofre onde o Estado fracassa.
Entre os diversos grupos que usam crack, nenhum parece ser tão vulnerável quanto o das jovens grávidas. Em junho do ano passado, ÉPOCA publicou uma reportagem sobre o aumento dos casos de dependentes da droga que tinham seus bebês na principal maternidade pública da Zona Leste da capital.
O uso da droga durante a gravidez pode provocar diversos problemas: descolamento da placenta, falta de oxigenação, retardo do crescimento, baixo peso no nascimento e morte da criança. Naquela reportagem, ouvi dos profissionais da Maternidade Leonor Mendes de Barros as dificuldades cotidianas que enfrentavam na tentativa de aliviar o sofrimento desses bebês. Muitos são prematuros e acabam abandonados no hospital pelas mães.
A situação piora a cada dia. Em 2007, apenas uma criança nascida na maternidade havia sido encaminhada para adoção. Em 2008, foram quinze casos. Em 2010, mais 43. Apenas nos três primeiros meses de 2011, outros 14 recém-nascidos foram enviados para abrigos e ficaram à espera de adoção.
Esses bebês costumam nascer hiperexcitados, irritados, chorosos. É sinal de que a droga chegou ao cérebro e pode ter provocado alterações de desenvolvimento. Mas o resultado desse contato precoce só pode ser observado anos depois, quando a criança começar sua vida escolar.
Poucos pesquisadores no mundo se dedicaram a acompanhar essas crianças a longo prazo. “As evidências disponíveis sobre prejuízos no desenvolvimento neuropsicomotor ainda são inconsistentes e controversas”, diz Marcelo Ribeiro, diretor de ensino da Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas (Uniad), da Unifesp. “Alguns estudos mostram que os bebês expostos ao crack durante a gestação crescem mais lentamente. Outros trabalhos não detectaram nenhuma diferença em relação aos filhos de mulheres que não usam qualquer droga”, afirma.
Marcelo Ribeiro e Ronaldo Laranjeira são os organizadores do livro O tratamento do usuário de crack, (664 páginas e R$ 88), um lançamento da Editora Artmed. A obra é completíssima. São 47 capítulos escritos por especialistas que abordam os mais diversos aspectos que envolvem a discussão em torno do crack (história, epidemiologia, diagnóstico, tratamento, neurobiologia etc). Quem pretende discutir o assunto sem dizer bobagem demais precisa ler esse livro.
Graças a ele, pude entender um pouco melhor a situação em que essas jovens se encontram. Muitas trocam sexo por pedras de crack. A falta de planejamento e de organização, típica da adolescência, é potencializada pelo vício. Muitas engravidam e não sabem quem é o pai da criança. Não têm o menor suporte emocional e social nem estabelecem vínculo afetivo com o bebê. É uma tragédia coletiva que São Paulo e o Brasil precisam enfrentar com as armas certas.
Num capítulo específico sobre troca de sexo por crack, o grupo da pesquisadora Solange A. Nappo relata que, quase sempre, o traficante é o primeiro “cliente” das moças. É uma condição imposta a elas para a aquisição da droga.
Assim como ocorreu nos Estados Unidos nos anos 80, as jovens que se prostituem para conseguir a droga se expõem a riscos que as profissionais do sexo aprenderam a evitar.
Prostitutas insistem no uso de camisinha. As meninas do crack, por sua vez, não têm poder de negociação para exigir o uso de preservativo. Nem capacidade de julgamento para pensar nisso quando estão sob efeito da droga. Fazem sexo na rua e estão expostas a todas as formas de violência e de humilhações.
“Mulheres que se submetem à prática de sexo por droga realizam uma prostituição ‘solitária’, isoladas de qualquer grupo que possa protegê-las. Têm maior número de parceiros e relatam inconsistência no uso de preservativo”, descreve Solange.
Muitas acreditam que o sexo oral seja uma alternativa menos arriscada do ponto de vista da transmissão de doenças sexualmente transmissíveis. Não é bem assim. O cachimbo para uso da droga pode causar ferimentos nos lábios, na garganta e na mucosa bucal. Isso aumenta a vulnerabilidade a infecções.
Para muitas garotas, o sexo é a única forma de conseguir a droga. O artigo traz o relato de uma delas:
“É só se prostituindo. É o jeito que mulher consegue crack. A gente sai na rua prá isso. Acaba de fumar, já pensa no programa prá conseguir mais grana. Faz programa e pensa em fumar...e é assim a nossa vida.
Sob o efeito da droga, de fissura ou paranoia, não há a menor possibilidade de coerência em relação ao uso da camisinha. Esquecem dela ou aceitam passivamente a recusa do parceiro em usá-la. Há urgência em terminar o ato sexual para comprar a “pedra” e reiniciar o ciclo.
Em geral, mulheres que usam crack sofrem um significativo isolamento social quando comparadas às que usam outras drogas ilegais. Isso cria barreiras para lutarem por si mesmas e reforça a subserviência diante das agressões.
A primeira reação de quem ouve essas histórias é reagir com preconceito e intolerância. Ou até mesmo com raiva. Nada disso contribui para a busca de soluções. Discriminar essas mulheres não aumenta a probabilidade de que elas consigam acolhimento, tratamento e a chance de recomeçar a vida.
Nos últimos dias, muita gente tem perguntado se a Cracolândia tem jeito. O psiquiatra Marcelo Ribeiro acredita que sim. Segundo ele, a velocidade e as prioridades nesse processo é que estão equivocadas e fora de lugar.
“Seria mais tranqüilo se todos os usuários topassem sair de lá direto para uma clínica, de onde sairiam abstinentes e prontos para a vida. Mas isso é o cúmulo da utopia”, diz ele.
Mais realista seria considerar a Cracolândia como uma tremenda dívida social, cuja solução não passa por soluções mágicas e espalhafatosas.
“As estratégias sociais, de saúde e de manutenção da ordem devem caminhar juntas, mas o usuário que lá habita deve ser o centro das preocupações e aquele que determina a velocidade das transformações”, afirma Ribeiro.
O “faxinão” é uma tentativa desastrada de varrer o problema para debaixo do tapete. Ele continuará explícito como toda ferida mal curada.
Cristiane Segatto - Revista Época 13/01/2012



Desarticulação pública atrasa combate ao crack
As políticas públicas voltadas para o tratamento de viciados em drogas avançaram no Brasil com a extinção dos hospitais psiquiátricos e a difusão, a partir de 2003, dos Centros de Atenção Psicossocial-Álcool e Drogas (Caps-AD). A investida dos governos municipal e estadual de São Paulo no combate ao crack no centro paulistano, contudo, expôs contradições e erros do modelo adotado na grande maioria das cidades do país, na opinião de especialistas ouvidos pelo Valor. O maior problema do Brasil no combate ao crack, concordam muitos deles, é a desarticulação entre as políticas de segurança, saúde e assistência social. E essa desarticulação, dizem, não é exclusividade de São Paulo.
Em 2011, o Ministério da Saúde estima que foram feitos cerca de 3 milhões de atendimentos nos Centros de Atenção Psicossocial-Álcool e Drogas, localizados em todas as capitais e na maioria das cidades médias e grandes. Para os especialistas, as cenas cotidianas de consumo de crack nas ruas do centro de São Paulo e, mais recentemente, de policiais militares reprimindo usuários na Cracolândia, sem a retaguarda de profissionais da saúde e do serviço social do poder público, escancaram a ineficiência do Estado no combate ao consumo da pedra de pasta de cocaína refinada com bicarbonato de sódio que afeta a vida de mais de 200 mil brasileiros.
No caso paulistano, o psiquiatra Marcelo Ribeiro, diretor de ensino da Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp-Uniad) e autor do recém-lançado livro "O Tratamento do Usuário do Crack" (editora Artmed), avalia que a premissa da ação da polícia - de reprimir ostensivamente o consumo para provocar a abstinência e a consequente procura por cuidados - não tem embasamento científico e contribuiu para "bagunçar o trabalho de anos" de ONGs e de agentes das secretarias municipais de Saúde e Assistência Social na Cracolândia.
"Claro que é preciso coibir o consumo livre na rua, mas isso não pode ser feito só sob a ótica da segurança. O usuário não foi considerado na ação. Autoridades não conversaram, a polícia não ouviu quem estava lá fazendo um trabalho. O resultado da desarticulação é que acaba com um problema e surge outro, ninguém tem noção do segundo e terceiro passos", analisa Ribeiro.
"Há muita gente trabalhando de forma isolada, de ONGs a universidades, em secretarias municipais diferentes, e fica um samba do criolo doido, porque a articulação é muito precária", diz Dartiu Xavier da Silveira, psiquiatra e coordenador do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes (Proad) da Unifesp.
A situação não é exclusividade de São Paulo. Os dois especialistas da Unifesp não conhecem, no país, exemplos de diálogo afinado entre autoridades da segurança, saúde e assistência social para a formulação de um planejamento eficiente para enfrentar o crack. Ribeiro sugere que a "diversidade de modelos" adotada em Rivertown, bairro no sul de Londres que pode ser comparado à Cracolândia, é uma ferramenta importante para lidar com o problema. "[São ações] de baixa e alta exigência, com oferta de serviços de apoio básico até o tratamento para a abstinência por equipes multidisciplinares."
O Ministério da Saúde informa que o novo plano federal de combate à droga, "Crack, é possível vencer", é baseado em investimentos de R$ 2 bilhões em equipamentos e no desenvolvimento de ações coordenadas. A iniciativa prevê a abertura de 13.614 novos leitos para usuários de álcool e drogas até 2014. Serão 1.400 nos Caps, 3.600 em enfermarias especializadas e 8.600 em unidades de acolhimento transitório. Em três anos, serão criados 41 novos Caps, passando para 175 unidades. A Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) do Ministério da Justiça, que responde pelo programa, não se manifestou.
O problema da ausência de articulação pública na formulação de políticas de abordagem a viciados em crack e outras drogas é ampliado pela falta de serviços de atendimento aos dependentes. "O Brasil vem melhorando na abordagem de combate ao vício. Há 15 anos, havia três ou quatro ambulatórios dentro de universidades, hoje em dia os Caps cumprem função importante, mas falta a estrutura intermediária que se vê nos países desenvolvidos", avalia Ribeiro. Ele se refere a serviços de moradia assistida, enfermarias, espaços para ação de grupos de autoajuda.
O Proad começou há 25 anos com os primeiros trabalhos de redução de danos no país, que consistem na identificação dos usuários nas ruas e na busca de soluções individuais. "Identificamos que o que está levando as pessoas a se tornarem dependentes, não é só o acesso à droga. Fica dependente aquele que, além do acesso, fica privado de direitos fundamentais, como moradia, educação, saúde", diz Silveira.
Por causa disso, segundo Silveira, as ações de assistência médica precisam ser casadas com outras políticas públicas que combatam a vulnerabilidade social da população. "É um equívoco focar a política na droga, porque daí começa a se vender uma imagem de que aquela situação de miséria da Cracolândia é decorrente da droga, e, na verdade, a droga é consequência da miséria", diz ele.
Para o psiquiatra, a ação da prefeitura paulistana, de repressão ao tráfico na Cracolândia e de dispersão dos usuários, atrapalha esse trabalho do Proad e do próprio governo. "A repressão vai contra todo o trabalho de redução de danos, dos educadores de rua, dos consultórios de rua, e pode pôr a perder anos de trabalho de formiguinha."
O grupo entra em contato com as mais diversas realidades e, segundo o coordenador do Proad, nem sempre a retirada da droga é a primeira indicação. "Uma situação emblemática foi de uma adolescente de rua que nos disse que usava crack, porque, para sobreviver, ela tinha que se prostituir, e para isso precisava estar drogada, senão não aguentava a dor. Você vai dizer que para essa menina a droga é um problema? É uma solução de sobrevivência. Impedir o acesso dessa menina às drogas é colocar um problema a mais." A indicação nesse caso, segundo ele, foi buscar o contato de uma tia que podia cuidar da jovem.
Autor(es): Por Samantha Maia e Luciano Máximo | De São Paulo


sábado, 14 de janeiro de 2012



Nossa Senhora do Crack: rogai por eles.


O assunto crack e a cracolândia seguem “na crista da onda” e parece ter voltado com força total esta semana depois da ultima operação policial batizada de “sufoco” na cracolândia em São Paulo; uma vez que pudemos observar uma avalanche de informações e comentários em telejornais, rádios, matérias diversas de jornais, comentários em blogs, algumas mídias sociais e até mesmo no bate papo informal matinal da padaria. Todo mundo parece ter um olhar, uma opinião, uma crítica, uma indignação ou revolta, uma desculpa, uma omissão, uma negligencia ou uma sugestão para um problema antigo; leia-se crônico desde a década de 90. Mas certamente um assunto não menos polêmico e que não tem uma solução única, de curto prazo, isolada, mágica e, sobretudo fácil para sua resolução.

No entanto, cabe aqui ressaltarmos algumas questões que são extremamente importantes na articulação destas estratégias do ponto de vista da incorporação da saúde pública neste “arsenal de táticas” que deveriam fazer parte do plano de ações para organizar os serviços para dependentes de crack.

A‘indústria’ do tratamento da dependência química- como descritos pelos professores Kimberly & MacLellan (2006)- está repleta de problemas estruturais e organizacionais que afetam negativamente a efetividade do serviço prestado. Se por um lado observamos alguns avanços nas intervenções farmacológicas, nas técnicas comportamentais e na integração do sistema social na prestação de cuidados a este público, por outro temos serviços com extrema dificuldade de trabalhar em rede, alta rotatividade de profissionais, inadequado financiamento para os serviços oferecidos, conselheiros, monitores e técnicos com baixa remuneração e não necessariamente com habilidades para exercerem as funções que ocupam e efetivamente desempenhar uma boa prática clínica.

No Brasil, o panorama nacional não é muito diferente deste descrito pelos pesquisadores americanos. Uma vez que observamos um cenário carente de modelos específicos de atendimento para o dependente de crack e, sobretudo, mais eficientes. Vivemos um momento no qual a carência de leitos para internação de usuários de drogas, somados a ausência de uma real política de saúde nacional operante ao dependente de crack e os ‘ideologismos’ diversos que ainda reinam nesta área têm gerado dispositivos com potencial de atendimento terapêutico limitado, desvinculado muitas vezes das necessidades locais e pouco baseado em evidências científicas. A falta de leitos públicos e o desespero e a urgência de famílias diante do desmoronamento causado pelo crack aumentaram rapidamente o comércio imoral de clínicas de tratamento sem qualquer registro na vigilância sanitária. Muitos destes serviços são desenhados a partir da experiência pessoal do gestor, do profissional contratado ou do voluntário. Nestes casos, as chances são maiores de pouca resolutividade e principalmente prática de abordagens inadequadas e pouco efetivas. Constantemente nos deparamos com noticiários nos jornais e na televisão de ‘clínicas para tratamento da dependência química’ onde existe extremo desrespeito, maus-tratos, imperícia, negligência e aviltamento de direitos.

Vários especialistas da área têm sugerido que os melhores programas de tratamento para o usuário de crack deveriam oferecer uma ampla gama de estratégias terapêuticas e a combinação de recursos necessários para atender as demandas específicas e múltiplas de usuários desta droga. Assim, por exemplo, serviços que operam com longas listas de espera tendem a ser menos eficazes, uma vez que sabemos que usuários de crack são muito difíceis de serem manejados enquanto estão em lista de espera. A prioridade deve ser dada para métodos que encorajam e ofereçam apoio aos usuários assim que eles passam pela porta de entrada dos serviços, ou seja, incorporam o sistema chamado em outros países como modelo Drop in ou aqui no Brasil de ‘porta aberta’ o qual parece na prática funcionar apenas como uma teoria nas portarias do ministério da saúde. Assim, os serviços idealmente devem oferecer um contato inicial e rápido para garantir que a motivação do usuário de crack para entrar em tratamento não seja perdida.

A tendência atual então é oferecer o chamado ‘cardápio de opções terapêuticas’; ou seja, estratégias de reconhecida evidência científica, as quais combinam farmacoterapia (daí a importância do médico como um profissional atuante e integrante destas ações), abordagens comportamentais (Ex; terapia-cognitiva comportamental, entrevista motivacional, prevenção de recaídas, treinamento de habilidades sociais e manejo de contingência), reconhecer os grupos de mútua ajuda como um aliado e encorajar a participação do modelo 12 passos (Narcóticos Anônimos) ‘on site’ na rede de cuidados de intervenções, espiritualidade e terapias complementares (Ex: educação física), diferentes tipos de dispositivos de tratamento (Ex;comunidade terapêutica, ambulatório, hospital psiquiátrico, CAPS –AD, Pronto socorro, unidade básica de saúde).

Um erro técnico neste aspecto é oferecer estratégias ou abordagens terapêuticas que não foram devidamente avaliadas do ponto de vista científico com replicação para o “mundo real’. Por exemplo: não existe evidência científica suficiente que Tai Chi Chuan (técnica de meditação e movimento oriental) seja efetiva para o tratamento de usuários de crack como abordagem isolada e não complementar. Assim como, tem-se ainda muito pouca informação nacional a respeito da efetividade e custo benefício dos chamados “consultórios de rua” e as “tendas de escuta” para tratamento do usuário de crack. Outro erro técnico é acreditar ingenuamente que planejamento e implantação de serviços em saúde mental (e para usuários de crack) podem ocorrer sem a participação de psiquiatras, médicos generalistas e de usuários em recuperação.

Além disto, soma-se a necessidade de existir diretrizes gerais e estratégias para o tratamento de diferentes populações (mulheres, grávidas, adolescentes, transgêneros, idosos, usuário com histórico forense, por exemplo). Também para pessoas que querem parar de usar, indivíduos que querem apenas diminuir o uso de crack (se é que isto é possível !) e pessoas que não querem em hipótese alguma parar de usar o crack. A prioridade assistencial deve ser sempre as crianças, os adolescentes e as gestantes; com a ampliação e criação de serviços específicos para o tratamento ambulatorial e de internação para essas populações. Nenhum adolescente deveria ficar sem receber o melhor atendimento possível e disponível, incluindo o ensino escolar, uma vez que às repercussões e prejuízos do uso de crack nesta população são imensos.

Muito embora os tratamentos atuais para dependência química caminhem no sentido de ser estimulado o caráter comunitário e vinculado a comunidade, isto não pode ser confundido com tratamento sem necessidade de internação. Tanto a internação psiquiátrica em hospital psiquiátrico quanto a internação em leitos de hospital geral são recursos que muitas vezes são extremamente necessários em algum momento do processo de recuperação do dependente de crack. Internação não significa também que este já é o tratamento em si, uma vez que o tratamento deve ser longo e engloba uma série de etapas quem vão muito além da mera internação.

O caráter compulsório, voluntário ou involuntário da internação (conforme prevê a lei 10216) carece seguir critérios médicos os quais orientam esta indicação baseada mais em insucesso de tratamento ambulatorial prévio, presença de ideação ou risco de suicídio, risco de morte eminente, riscos para terceiros e presença de sintomatologia psicótica grave associada ao uso de crack do que celeumas dogmáticas e ideológicas frente à questão da internação psiquiátrica e a involuntariedade. Lembrar que um dos 13 princípios de tratamento eficaz sugerido pelo National Institute on Drug Abuse (NIDA) diz que o tratamento não necessita ser voluntário para ser eficaz assim como, outros pesquisadores internacionais já documentaram através de revisões clínicas que a involuntariedade pode ser fundamental em determinados casos onde a premissa da negação é duradora e com riscos.

Pelo fato do uso de crack ter implicações com diversas comorbidades clínicas (Ex: AIDS, hepatite, infecções sexualmente transmissíveis, tuberculose) freqüentemente existe a necessidade de avaliação de outras especialidades médicas e este perfil de pacientes irá beneficiar-se de internação em enfermarias de psiquiatria no hospital geral. No Brasil, infelizmente as unidades psiquiátricas em hospitais gerais nunca foram uma prioridade, sendo que a situação nacional atual mostra que contamos com cerca de 415 hospitais gerais com apenas 2568 leitos em todo o território nacional.

Portanto, o usuário de crack necessita de uma ampla rede de cuidados mediante a complexidade de cada caso, sendo o tratamento é em longo prazo, uma vez que estamos falando de uma doença crônica e que cursa com recaídas. Entre os princípios gerais destes cuidados estão: serviços próximos a residência dos pacientes, intervenções estruturadas tanto para os sintomas quanto para as incapacidades, deficiências e reabilitação social, tratamento específico para o diagnóstico e para as necessidades dos pacientes, serviços que refletem as prioridades dos seus usuários, serviços com coordenação, mais serviços com capacidade de mobilidade do que serviços com atuações estáticas.
Reconhecer a complexidade destas ações e integrar estas práticas são esforços que merecem ser incentivados para que mais serviços com vocação de se articularem com a comunidade, usuários, familiares, profissionais, planejadores, elaboradores e provedores de políticas públicas e pesquisadores possam crescer em prol do direito humano do melhor cuidado consonante com a sua necessidade.

Enquanto isto não acontece, será que nos resta apenas rezar para a “Nossa Senhora do Crack” criado na rua Apa no ano passado e que teve vida polêmica e brevíssima de milagres na cracolândia?

Alessandra Diehl
Psiquiatra da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (UNIAD)/UNIFESP/ INPAD, especialista em
Dependência Química e Sexualidade Humana