quarta-feira, 22 de março de 2017




Vício e violência.

O jornalista norte-americano H.L.Mencken já dizia: "Para todo problema complexo existe uma solução simples, elegante e completamente errada".

Lembro-me disso quando vejo, na grande imprensa e no Judiciário, sugestões de liberação das drogas como forma de resolver o problema da violência e da superlotação dos presídios brasileiros. Essa solução mágica parte de pressupostos equivocados, sem evidência empírica.

Ao longo dos séculos, em nenhum momento da história humana esse tipo de proposta funcionou. Ao contrário, os países que agiram com mais rigor contra as drogas, como Suécia, China e Japão, foram os que mais reduziram a criminalidade e o consumo.

São evidentes os motivos que levaram o mundo inteiro a proibir as drogas a devastação causada nos indivíduos, nas famílias e em toda a sociedade, pelo transtorno mental e comportamental que provocam, é avassaladora.

O transtorno mental causado pelos tóxicos é a principal causa de morte violenta no Brasil, não o tráfico. A violência acarretada por esse transtorno se manifesta de forma mais dissimulada e disseminada.

Os exemplos são muitos: os parricídios provocados pelo desespero de conseguir dinheiro para comprar entorpecentes, os homicídios por discussões banais, as mortes resultantes da violência doméstica, acidentes de trânsito com vítimas fatais, boa parte dos suicídios etc.

Dezenas de milhares de vidas são ceifadas todos os anos no Brasil pelo uso dessas substâncias. Mesmo a barbárie nos presídios brasileiros só foi possível, na escala que alcançou, porque foi executada por grupos de pessoas sob efeito de drogas.

Outro mito que embala as ideias nesse tema é o da superlotação do sistema carcerário brasileiro. Alega-se que temos a terceira maior população carcerária do mundo em números absolutos (quase 651 mil presos). A causa disso seria a lei sobre drogas de 2006, que superlotou o sistema prisional.

Os dados, contudo, são distorcidos. Dados do Centro Internacional para Estudos de Prisão (ICPS) mostram que somos a 31º população carcerária do mundo, se considerarmos a proporção de apenados pelo total da população (316 para cada 100 mil habitantes).

Nessa lógica liberacionista, por exemplo, a China seria a segunda população carcerária do planeta (mais de 1,6 milhão), só perdendo para os Estados Unidos (2,1 milhões). Todavia, se buscarmos a proporção de presos com os habitantes totais do país, a China aparece apenas em 137º da lista (118 presos para cada 100 mil habitantes).

Assim, não há excesso de presos no Brasil -o país está na proporção média do mundo. Faltam, na verdade, vagas para que os apenados possam cumprir sua pena com um mínimo de dignidade, para que os barões do tráfico fiquem isolados, sem contato com os demais presos.

Quanto à culpa da lei na "explosão de aprisionamentos", devo dizer que também não é verdadeira.

Nos seis anos que antecederam a promulgação da lei 11.343/06, sobre drogas, tivemos uma expansão do número de presos duas vezes maior do que nos seis anos posteriores.

A causa real é o crescimento vertiginoso da produção e do tráfico de drogas em toda a região. A maioria dos países latino-americanos apresentou crescimento prisional maior do que o nosso. Estamos em plena epidemia de oferta e consumo.

Percebemos, portanto, que todas as soluções mágicas apresentadas só irão agravar a violência que vivemos no dia a dia.

Vício e violência caminham juntos na maior parte dos eventos que degradam nosso convívio social.

Para enfrentá-los, precisamos aprimorar nosso sistema prisional e o rigor de nossas leis e restaurar a autoridade do Estado, dentro e fora dos presídios. Essa, sim, é a única fórmula real que reduziu a violência no mundo até hoje.

OSMAR TERRA, médico, é ministro do Desenvolvimento Social e Agrário. Foi deputado federal (PMDB-RS).


terça-feira, 7 de março de 2017




Aumento do consumo de álcool por meninas: o que fazer.



Por Arthur Guerra de Andrade.


          Historicamente, o maior consumo de álcool sempre foi atribuído aos homens. Nos últimos anos, porém, as mulheres têm aumentado significativamente esse uso, não só em relação à quantidade, mas também à frequência.


          Um estudo global publicado neste mês pela BMJ Open analisou os hábitos de consumo de álcool de 4 milhões de pessoas durante um período de mais de um século, a partir da compilação de dados de 68 pesquisas internacionais publicadas entre 1891 e 2014, e mostrou que a diferença entre homens e mulheres com relação a esse comportamento tem diminuído cada vez mais. Os homens nascidos entre 1891 e 1910 apresentaram risco 3 vezes maior de beber de forma nociva e sofrer consequências negativas relacionadas ao álcool do que as mulheres nascidas na mesma época. Essa relação de risco diminuiu para 1,2 vez entre aqueles nascidos de 1991 a 2000, ou seja, praticamente não houve diferença entre os gêneros.


          É alarmante notar que essa mudança de padrões tem ocorrido também entre as adolescentes. Segundo relatório da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS, 2015), entre estudantes com idade de 13 a 17 anos, mais de 20% das meninas e 28% dos meninos relataram já ter sofrido um episódio de embriaguez na vida. No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2015 (IBGE, 2016), realizada com 10.926 estudantes nessa mesma faixa etária, também aponta índices semelhantes de episódio desse tipo: 26,9% entre as meninas e 27,5% entre os meninos. Isso significa que pelo menos 1 em cada 4 estudantes já se expôs a riscos importantes.



Por que as adolescentes estão bebendo mais?


          Outra população analisada pelo PeNSE foi a de alunos do 9º ano do ensino fundamental (entre 13 e 15 anos), também com dados preocupantes. Tanto a experimentação quanto o consumo atual de bebidas alcoólicas (nos 30 dias que antecederam a pesquisa) foram maiores entre as meninas: 56,1% versus 54,8% (experimentação) e 25,1% versus 22,5% (consumo atual):


- Um deles é o consumo do álcool por crianças e adolescentes, que é inaceitável, independentemente da quantidade;

- O outro é entender por que as meninas passaram a beber mais.


          Outra população analisada pelo PeNSE foi a de alunos do 9º ano do ensino fundamental (entre 13 e 15 anos), também com dados preocupantes. Tanto a experimentação quanto o consumo atual de bebidas alcoólicas (nos 30 dias que antecederam a pesquisa) foram maiores entre as meninas: 56,1% versus 54,8% (experimentação) e 25,1% versus 22,5% (consumo atual).


          Uma das hipóteses é que, semelhante ao que ocorre com os meninos, as adolescentes querem ser aceitas socialmente e o álcool faz parte desse cenário, pois ajuda a desinibir. Além disso, as jovens associam o uso do álcool com o perfil de poder e independência da mulher moderna que, atualmente, ocupa cargos de destaque na sociedade.


          Apesar de haver a equiparação socioeconômica entre os gêneros, é importante ressaltar que fisiologicamente as mulheres são mais sensíveis aos efeitos do álcool. Um dos motivos é a menor quantidade de água presente no corpo delas, e isso faz com que a substância fique muito mais concentrada em seu organismo. As mulheres também apresentam menores níveis das enzimas que metabolizam o álcool, demorando mais para eliminá-lo do organismo.


          As consequências frequentes do uso de álcool por jovens, em geral, são o blecaute alcoólico e a queda no desempenho escolar. Além disso, ainda podemos destacar o maior risco para sexo sem proteção, doenças sexualmente transmissíveis (DST) e gravidez indesejada.


O que pode ser feito?


          Os dados mencionados reforçam a necessidade de desenvolver estratégias de prevenção considerando as particularidades de gênero e dando a devida atenção às mulheres. Pesquisas com essa população também são necessárias, para o melhor entendimento desse perfil e para o desenvolvimento de medidas específicas de tratamento.


          Vale ressaltar ainda que a família tem papel fundamental na prevenção do uso de álcool na adolescência, seja de meninos ou meninas. Existem alguns sinais clássicos, como:


- Problemas de comportamento;
- Queda no desempenho escolar;
- Falta de interesse em atividades que antes eram prazerosas;
- Irritabilidade.


          Ao nota-los, os pais devem intervir imediatamente. A melhor maneira de fazer isso é conversar com os filhos de forma clara e tranquila sobre os prejuízos que o álcool pode causar, usando exemplos de situações reais.Trabalhar a autoestima dos filhos, destacando suas qualidades, e estimulá-los à prática de atividades prazerosas, como o esporte, também fazem parte da estratégia de prevenção. Mas, acima de tudo, mostrar parceria é o mais importante para que a medida tenha sucesso. Dar o exemplo, estar sempre aberto ao diálogo e ser amigo do seu filho, para que se estabeleça uma relação de confiança mútua, são passos importantíssimos para evitar o uso precoce - e sempre inapropriado - de álcool.

segunda-feira, 6 de março de 2017



Álcool e mulheres: cenário atual.




         Quando são feitas comparações entre homens e mulheres em relação ao consumo de bebidas alcoólicas no Brasil e no mundo, em geral, vemos que os homens bebem mais, com maior índice de abstenção entre mulheres. Talvez, a menor aceitação social e cultural para o consumo feminino funcione como um fator de proteção em nosso país. Entretanto, com o passar dos anos, fatores sociais e culturais sofreram rápidas e profundas modificações e a preocupação com o consumo de álcool entre mulheres é um tema muito presente nos dias de hoje. Em diversos países, o padrão de consumo de álcool por mulheres caminha para a igualdade em relação ao padrão masculino, o que poderá representar desigualdade nos resultados para a saúde, de acordo com a maior vulnerabilidade delas para as consequências negativas do beber pesado (saiba mais: http://www.cisa.org.br/artigo/5187/consumo-alcool-saude-mulher.php).

Relatório sobre consumo de álcool nas Américas – Organização Panamericana da Saúde (OPAS)
De acordo com a OPAS, escritório regional da OMS, na região das Américas:

- houve aumento na frequência de BPE de 4,6% para 13% nos últimos 5 anos, entre mulheres;
- a cerveja é a bebida de preferência para a maioria dos 36 países que compõem a região, apesar de em alguns países predominar o vinho ou destilado;
- o consumo de álcool entre mulheres é menor que entre homens e o tamanho desta diferença varia de um país para o outro. No Brasil, é 3 vezes menor, e por exemplo, na Guatemala, é até 15 vezes menor;
- a proporção de mulheres que apresentam algum transtorno por uso de álcool equivale a 3,2%, o que representa a maior taxa mundial quando são comparadas todas as regiões, seguida da região composta pelos países europeus.

Relatório Global sobre Álcool e Saúde 2014 – Organização Mundial da Saúde (OMS)
De acordo com a OMS, estima-se que em 2010, no Brasil:

- o padrão de risco Beber Pesado Episódico (BPE), ou consumo de 60 gramas ou mais de álcool em uma única ocasião, apesar de ser mais comum entre homens, esteve presente em 11% das mulheres que consomem álcool;
- cerca de 30% das mulheres nunca beberam, e 12,4% não beberam no último ano.

II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD II)

          Segundo o relatório nacional divulgado em 2014, houve aumento importante do consumo de álcool entre as mulheres ao longo dos anos anteriores. Como se pode verificar na tabela abaixo, entre os anos de 2006 e 2012, houve aumento tanto no uso regular como no BPE, que foi definido para mulheres como o uso de quatro ou mais doses em aproximadamente 2 horas.

Tabela 1. Comparação entre 2006 e 2012 do uso regular e uso em BPE de álcool




          Ainda, verificou-se que o consumo precoce aumentou: em 2006, 16% dos homens e 8% das mulheres relataram ter experimentado álcool com menos de 15 anos. Em 2012, os dados foram de 24% e 17%, respectivamente.


          Levantamento Nacional sobre o Uso de Álcool, Tabaco e Outras Drogas entre Universitários das 27 Capitais Brasileiras

          Entre os principais resultados, verifica-se que o álcool é a substância mais utilizada entre universitários de ambos os sexos, com aproximadamente 90% tendo relatado consumo na vida.

Gráfico 1. Prevalência de uso de álcool de acordo com o período (%), 2010






São Paulo Megacity

          Estudo realizado com adultos da Região Metropolitana de São Paulo mostrou que aproximadamente 22% dos entrevistados eram abstêmios (32% das mulheres e 9% dos homens), 18% fizeram uso pesado de álcool nos últimos 12 meses (26% dos homens e 10% das mulheres).
          O maior consumo de bebidas alcoólicas entre mulheres esteve relacionado a maior grau de instrução e melhores condições econômicas.
          Embora homens sejam duas vezes mais propensos a fazer uso pesado de álcool que mulheres, houve semelhança entre proporção e tipos de problemas decorrentes do uso, quando trata-se de beber pesado (problemas interpessoais, danos não intencionais, prejuízos sociais, uso continuado apesar dos problemas).
          Os autores esclarecem que com a mudança do papel da mulher na sociedade e o direcionamento para uma igualdade entre gêneros - na qual as mulheres estão investindo mais em educação, trabalhando fora de casa, adotando hábitos anteriormente vistos como masculinos, aumentando o consumo de bebidas alcoólicas, as diferenças em relação às consequências do uso do álcool diminuem. Além disso, o aumento de consumo da bebida pelas mulheres pode estar associado ao estresse da dupla jornada de trabalho diário.



Considerações finais.

         Ao longo dos últimos anos está havendo uma convergência do uso de álcool entre os gêneros, com maior aceitação social do uso pela mulher. A vulnerabilidade do organismo feminino perante os efeitos do álcool é algo preocupante e merece atenção em termos de políticas públicas.
          O uso excessivo de álcool por mulheres aumenta o risco para câncer de mama, doenças cardíacas, doenças sexualmente transmissíveis, gravidez indesejada, além de outros problemas. Mulheres em período fértil que usam álcool e não realizam contracepção correm o risco de causarem danos ao recém-nascido caso engravidem (saiba mais: http://www.cisa.org.br/artigo/4763/sindrome-alcoolica-fetal.php).
          Trata-se de um cenário relativamente novo e é preciso direcionar a atenção para medir os problemas associados já conhecidos e possivelmente novos problemas que possam surgir. Os dados acima citados refletem a necessidade de maior conscientização da população geral e consequentemente de investimentos em programas de prevenção específicos e adequados para este grupo.


quinta-feira, 2 de março de 2017




TRÊS DIAS NA NOVA 'FRONTEIRA DA COCA': COMO DROGAS E ARMAS ENTRAM LIVREMENTE PELA AMAZÔNIA.


Uma linha tortuosa de 1.632 km desenhada por rios em uma área praticamente inabitada na floresta amazônica. Esse é o cenário da tríplice fronteira brasileira com os maiores produtores de cocaína do mundo: Peru e Colômbia.

Com armamento pesado e lanchas potentes, narcotraficantes dos dois países enfrentam poucos obstáculos no transporte de armas e drogas para Tabatinga (AM), no lado brasileiro. A cidade, onde a pobreza e a falta de infraestrutura são flagrantes, é descrita por moradores da região como "quintal da FDN".

A sigla se refere à facção criminosa Família do Norte, que ficou conhecida mundialmente nos primeiros dias de 2017, quando dezenas de homens foram decapitados e esquartejados em presídios de Manaus.

A origem dos massacres nas prisões, segundo autoridades, é justamente a disputa pelo controle dessa rota amazônica da coca. Argumentando falta de verbas e incentivo do governo, as forças de segurança da região dizem não conseguir controlar o vaivém do mercado ilegal na fronteira.

A BBC Brasil foi conferir de perto a situação na fronteira.

"Com os recursos que temos hoje em Tabatinga, é impossível controlar a fronteira", disse um agente da Polícia Federal, mirando a imensidão do rio Solimões do único posto fluvial das forças de segurança na região.

Direito de imagem Felipe Souza/ BBC Brasil Image caption Forças de segurança dizem que há incontáveis rotas fluviais que dificultam patrulhamento sem helicóptero na fronteira amazônica:

"Hoje a gente tem uma lancha aqui motor 200. A FDN está investindo aí em motor 350. Fica complicado, né?", diz. "Tinha que ter um helicóptero para policiar. O que temos aqui são 18 policiais. Às vezes pega (os criminosos), às vezes, não."

A sensação entre os homens do Exército, responsáveis pelo controle da fronteira, não é diferente. "Nós não temos condição hoje, com os efetivos que trabalham nesta região e em toda a Amazônia, de cobrir todos estes espaços", diz o coronel Júlio César Belaguarda Nagy de Oliveira, comandante do 8º Batalhão de Infantaria de Selva, responsável por vigiar a tripla divisa.

Também sem helicópteros, com apenas 36 barcos à disposição - a maioria deles com potência semelhante aos dos pescadores e ribeirinhos da região -, ele é responsável pelo controle da fronteira com os dois países, onde centenas de novos caminhos abertos por igarapés e pequenos rios surgem com as chuvas na época das cheias.

"É claro que alguma coisa passa. Muitos desses marginais desviam e conseguem evitar a passagem pelos nossos pelotões", diz Nagy.

Desprotegida, a rota cresce a cada ano. Só em Manaus, principal destino dos entorpecentes que entram pela fronteira, o volume de drogas apreendidas cresceu nada menos que 1.324% entre 2011 e 2015, segundo a Secretaria de Segurança do Estado.

Direito de imagem Felipe Souza/ BBC Brasil Image caption Durante três dias, a BBC Brasil presenciou policiamento na fronteira apenas uma vez, numa demonstração do Exército
'Falta material humano'
Procurado, o Ministério da Justiça não respondeu por que não há helicópteros na região, nem comentou a falta de policiamento registrada pela reportagem.

"Gestões são feitas diuturnamente para inibir e reprimir o crime e também subsidiar políticas para fortalecer o enfrentamento ao crime, especialmente na fronteira", disse a pasta, por meio de nota. "A PF realiza em média cerca de 40 operações especiais por ano, que são especialmente para atingir organizações criminosas. Cerca de 300 pessoas são detidas por ano."

O ministério disse ainda que "tem priorizado a lotação dos novos policiais nas regiões de fronteira", sem informar, entretanto, quantos homens serão deslocados para a área, nem quando.

Procurado diversas vezes por telefone e e-mail, o Exército não respondeu a nenhuma das perguntas enviadas pela reportagem. No fim de janeiro, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, anunciou a realização de uma série de encontros e reuniões com ministros de Defesa de países vizinhos, com a principal intenção de tratar da segurança nas fronteiras. Mas, desde então, nenhuma iniciativa concreta foi anunciada.

Direito de imagem Felipe Souza/ BBC Brasil Image caption 'Não temos condição hoje, com os efetivos que trabalham nesta região e em toda a Amazônia, de cobrir todos estes espaços', diz o coronel Júlio César Belaguarda Nagy de Oliveira, do Exército
Em entrevista em seu gabinete em Manaus, o procurador-geral de Justiça do Estado, Pedro Bezerra, reconheceu os problemas.

"Falta muito material humano e condições para esses soldados que dedicam sua vida para evitar esse tráfico. Condições para que possam atuar de forma eficiente, como materiais, lanchas, armamento, treinamento", disse.

O procurador concorda com o agente da Polícia Federal e diz que o tráfico de drogas tem mais dinheiro e equipamentos. "Como eles (os traficantes) têm poder em termos de dinheiro, eles compram lanchas, hidroaviões. Nós temos limitações financeiras a nível de Estado e dependemos de uma certa burocracia."

Ele prossegue, sem otimismo. "Então, infelizmente as coisas se resolvem pela vontade do material humano de que nós dispomos. Estes agentes que fazem esse tipo de operação arriscando as próprias vidas".

Água, terra e ar.

A fragilidade da vigilância na fronteira brasileira na Amazônia não ocorre apenas nos rios. Nos três dias de fevereiro em que esteve em Tabatinga, a BBC Brasil testemunhou centenas de pessoas entrando e saindo do país com malas e sacolas sem qualquer revista.
Direito de imagem Felipe Souza/ BBC Brasil Image caption A BBC presenciou livre movimento na divisa entre Brasil e Colômbia.

Logo na primeira noite, um homem foi assassinado bem próximo de onde estava a reportagem da BBC Brasil, a poucos passos do marco da fronteira entre Tabatinga e Letícia, na Colômbia.

"Acontece por volta de uma vez por semana. São acertos de contas", explicou um agente do Exército, apontando para o homem caído sobre uma mesa de bar, baleado há menos de cinco minutos por um homem em uma motocicleta.

As motos são o principal meio de circulação no local, que não tem transporte público. Sobre elas, grupos de até quatro pessoas circulam livremente, sem capacete, carregando mochilas e malas.

A área de fronteira com a Colômbia é delimitada apenas por uma placa. Não existe ali nenhum posto de revista ou fiscalização. Durante a visita, o único patrulhamento registrado ocorreu durante uma atividade de demonstração do Exército para a reportagem.

Direito de imagem Felipe Souza/ BBC Brasil Image caption Fluxo de pessoas na Tríplice Fronteira

A fronteira com o Peru,  delimitada pelo rio Solimões, também não tem fiscalização.

Pessoas vindo da ilha peruana Santa Rosa entram e saem no Brasil por meio de pequenos barcos que atracam em um porto na base policial. As autoridades locais dizem que seria "impossível" fiscalizar todo mundo.

"Muita gente trabalha de um lado e vive do outro ou faz compras do mês em um dos dois países vizinhos. A circulação de pessoas é gigantesca, seria impraticável", alega o coronel Nagy, do Exército.

Direito de imagem Felipe Souza/ BBC Brasil Image caption Chefe da Polícia Federal afirma que com os atuais recursos é 'impossível' controlar a fronteira.

No único aeroporto de Tabatinga, que tem um voo diário para Manaus, a grande maioria das bagagens embarcadas não passa por raio-X. Esta brecha de segurança se repete, além da fronteira, na maior parte das cidades do Brasil.

Segundo a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), a fiscalização das malas é obrigatória apenas em voos internacionais. No caso de voos domésticos, ela seria feita em alguns aeroportos do país.

Dinheiro e pessoas

No batalhão do Exército em Tabatinga, o coronel Nagy atribui as falhas na vigilância da fronteira à ausência do governo na região.

"Faltam vagas de trabalho nos municípios, estrutura de saneamento básico, ruas pavimentadas, enfim, condições para que essa população tenha uma vida normal", disse.
Ele conta que, pela falta de oportunidades de estudo, muitos jovens não tem alternativa de renda a não ser o tráfico. "(Eles) participam desse tráfico ilegal de drogas e armas para ter uma condição de subsistência de vida", diz.
"Jovens com pouca condição de estudo enxerga
m nesse transporte a chance de ganhar 1, 2, 4, 5 mil reais, Este transporte é uma oportunidade fácil e rápida de ganho financeiro."
Direito de imagem Felipe Souza/ BBC Brasil Image caption Segundo chefe do Exército colombiano, 'demanda por cocaína e maconha no Brasil cresceu', aumentando a importância da rota amazônica

O comandante do Exército colombiano em Letícia, coronel Nelson Roberto Carvajal Reyes, confirma as dificuldades e diz que, atualmente, membros da Família do Norte cruzam a fronteira para negociar exclusividade nos negócios.

Em sua área de atuação opera uma das frentes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) que não aceitaram o acordo de paz em andamento com o governo do país.

"Há um fenômeno perverso aqui porque esta é uma tripla fronteira. Colômbia, Brasil e Peru. Os mesmos tipos de agentes criminosos são vistos nestes três países e isso faz o trabalho deles mais fácil", diz o coronel Nelson Roberto Carvajal Reyes, em sua sala de trabalho no batalhão.

"A demanda por cocaína e maconha no Brasil cresceu. Então, cartéis como a Família do Norte estão tentando se aproximar de cartéis colombianos para ganhar hegemonia nesta rota."

Ele explica que a rota passa também por Suriname e Guiana, de onde vai para a Europa e os Estados Unidos.

Nas águas que banham a tríplice fronteira, autoridades já encontraram drogas escondidas na barriga de peixes, como o tambaqui, ou presas em fundos de barcos. Muitas vezes, as mercadorias passam boiando pelo rio para serem buscadas do outro lado, sem chamar atenção do Exército.

"Os traficantes são muito criativos e se reinventam sempre", diz o comandante colombiano. Para 80 kg de cocaína, as mulas, como são chamados os homens que fazem a travessia, ganham em torno de 2 milhões de pesos colombianos (ou R$ 2 mil).

Na outra ponta, a mercadoria chega a ser vendida por preços 20 vezes maiores.

Pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade do Ceará e especialista em segurança na fronteira, o professor Luiz Fabio Silva Paiva diz que há registros de tráfico de cocaína na região desde os anos 1970.

"O Cartel de Letícia teve conexões com o Cartel de Medellín, atraindo pessoas para a região atrás dos resultados econômicos produzidos pela cocaína."

Paiva afirma que a política de "guerra às drogas" na região é falha e não consegue diminuir o consumo destas substâncias.

"O mundo do crime se alimenta das contradições de uma política de controle que não controla, que não consegue compreender que as drogas são um problema de saúde pública e não uma questão policial", diz.



Felipe Souza e Ricardo Senra Enviados especiais da BBC Brasil a Tabatinga