quarta-feira, 18 de julho de 2012


‘América Latina é mercado em alta para organizações criminosas’.

O Globo -  - Vitor Sorano


Especialista alerta para atratividade que crescimento gera para delinquência transnacional

RIO — O crescimento econômico experimentado pelos países latino-americanos os torna mais atraente para os negócios - legais e ilegais. “A América Latina é um mercado em ascensão para as organizações criminosas”, diz ao GLOBO o representante regional para o México, a América Central e o Caribe do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, na sigla em inglês), Antonio Mazzitelli. E, lamenta, a implementação de estratégias para combater a criminalidade transnacional é lenta.

O GLOBO: Qual é a importância da América Latina no crime transnacional global?
ANTONIO MAZZITELLI: As economias latino-americanas estão entre as que têm mais pujança. E, quanto mais poder de compra está disponível, mais interesse há das organizações criminosas em desenvolver a demanda para os bens e serviços que elas comercializam. Então a América Latina é um mercado em ascensão para as organizações criminosas
O crescimento do consumo de cocaína no Cone Sul é o principal fenômeno no que concerne ao tráfico de drogas na América Latina hoje?
MAZZITELLI: Certamente, com a economia mais rica, maior é a propensão para consumir drogas e, nesse sentido, nesse último ano, o mercado latino-americano, numa certa medida, absorveu o excedente de cocaína que ia para a América do Norte. E, no que toca ao Cone Sul, o crack, o óxi (no Brasil) são certamente novos fenômenos.
O documento cita a necessidade de romper os mercados ilegais, em vez de apenas combater organizações criminosas. Na América Latina, atualmente, há debates e mesmo iniciativas de legalização do consumo e mesmo da venda de droga, como no caso do Uruguai com a maconha. O senhor acredita que é algo positivo para o combate à criminalidade organizada?
MAZZITELLI: As convenções internacionais já regulam a produção e o uso de drogas narcóticas e psicotrópicas. A campanha que estamos lançando hoje (segunda-feira) almeja indicar claramente que as organizações criminais produzem violência independentemente daquilo que elas comercializam, então eliminar um mercado de um produto em particular não vai eliminar as organizações criminosas.
Que iniciativas positivas o senhor vê em discussão ou em implementação na América Latina para combater o crime organizado transnacional?
MAZZITELLI: Na Cúpula de Cartagena (na Colômbia, em abril de 2012), os chefes de Estado decidiram fortalecer a cooperação no sentido da criação de um mecanismo hemisférico que facilite a instauração de processos, a investigação, a produção de inteligência relacionada à criminalidade transnacional organizada. Há uma série de outras na área de tráfico de pessoas, de divisão de responsabilidades para instauração de processos de crime transnacional e de facilitação de apreensões de produtos ilícitos. Infelizmente, às vezes, é algo lento para se materializar.
Além do tráfico de drogas, quais outros tipos de crime transnacional organizado têm relevância na América Latina?
MAZZITELLI: Há dois que devem ser mencionados: um é a pirataria. É um crime em que os consumidores pensam que não estão fazendo mal, mas estão dando poder a organizações criminosas e que têm o poder real de prejudicar investimentos produtivos e geradores de empregos . É um tipo de crime que em alguns casos, como quando envolve produtos farmacêuticos, comida, bebida e peças de reposição, pode ter impactos devastadores. O outro é muito menor em termos econômicos, mas tem um impacto dramático no nosso futuro. É o tráfico de recursos naturais, madeira ou vida animal.


Análise: Atrasar aplicação de medidas é brincar com a vida das pessoas.


O governo federal demorou para perceber que Estados como São Paulo e Rio haviam promulgado leis proibindo os chamados fumódromos, espaços para acomodar fumantes inventados por provável influência das fumageiras durante a passagem no Congresso da lei federal 9.294/96.

Esta lei sofreu emendas em 2000, proibindo a publicidade, a promoção e o patrocínio do tabaco, mas de novo por pressão da indústria do setor os pontos de venda ficaram de fora.

Estudo realizado em São Paulo mostrou que não só usuários mas também empregados de bares e de restaurantes se beneficiaram com ambientes completamente livres de fumo.
A poluição foi reduzida e os argumentos de que o setor perdia economicamente com o fim dos fumódromos foram devidamente aposentados.
Mostravam a inutilidade das ações de inconstitucionalidade que a indústria movia contra Estados que em efeito dominó reagiam ao imobilismo federal.
Em dezembro de 2011, o Congresso passou a lei 12.546, aumentando impostos, alinhando o país com Estados que já haviam estabelecido ambientes livres de fumo, além de proibir a propaganda nos pontos de venda, apesar de manter a exposição de produtos de tabaco.
Mas a lei precisa ser regulamentada para ser aplicada e fiscalizada. Há meio ano a proposta de regulamentação vegeta nos gabinetes e não permite medidas que protejam não-fumantes de morrerem por doenças tabaco-relacionadas sem nunca haverem fumado. Também não ajuda na defesa do marketing nos pontos de venda, que continua o mesmo.
O governo brinca com a vida dos outros, quem sabe mais uma vez por pressão da indústria fumageira. Coisa que países como Irlanda, Uruguai e Noruega já não brincam há muito tempo.

VERA LUIZA DA COSTA E SILVA é médica, doutora em saúde pública e pesquisadora visitante da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz.

terça-feira, 17 de julho de 2012




Transtornos e desordens.

JOÃO UBALDO RIBEIRO
De uns tempos para cá, é cada vez mais forte a tendência a não se ver o indivíduo como responsável pelos próprios atos. No terreno da ciência social esquerdoide, o sujeito é assaltante porque lhe faltaram oportunidades, não teve educação, vive numa sociedade consumista, foi vítima de bullying e mais quantos indicadores se concebam, em pesquisas cujos resultados são definidos pela própria formulação e, muitas vezes, não passam de manipulações pseudoestatísticas, destituídas de base sólida. Enxergam-se relações de causa e efeito inexistentes, que resistem até mesmo à óbvia verdade de que a ampla maioria dos que enfrentaram e enfrentam essas situações não é de delinquentes.

No terreno da psicanálise de boteco, o sujeito surra mulher e filhos porque foi também surrado, principalmente pela mãe. Ou - pois a psicanálise de boteco tem o condão de adaptar suas explicações e a causa que, num exemplo, surte determinado efeito em outro surte efeito contrário - porque não foi surrado e nem sequer advertido e, assim negligenciado pela mãe, nutre amor e ódio pela figura materna, na qual desconta seus recalques baixando a porrada na santa mãe de seus filhos, os quais também apanham porque dividem as atenções da dita figura materna. Ou qualquer outra especulação asnática, das muitas que volta e meia ainda ouvimos.
Agora, por meio da entusiástica colaboração de cientistas, psiquiatras e, principalmente, fabricantes de drogas psicoativas, vamos ingressar definitivamente na era em que qualquer comportamento ou qualquer emoção serão vistos como uma doença mental, no sentido mais lato do termo. Aliás, pouco se tem usado a expressão "doença mental". O chique agora, que repetimos como papagaios bem ensinados, é "transtorno", "desordem" ou "distúrbio". Sabemos que certamente a maioria dos psiquiatros e das psiquiatras, bem como a maioria dos cientistos e cientistas, embora talvez não a maioria dos fabricantes e fabricantas de drogas, não é constituída de enganadores venais e inescrupulosos, que tomam dinheiro dos fabricantes para promover a vendagem bilionária de remédios. Mas muitos e muitas são (está certo, vou parar com este negócio de flexionar os gêneros de tudo, sei que é chato; mas é só porque quero mostrar como certas coisas enfeiam e aleijam nossa já tão perseguida língua portuguesa) e a bandidagem deles combinada vai de vento em popa.
O número de transtornos e desordens aumenta exponencialmente e já se observou que, anunciado um novo mal, de que antes não havia relato, logo surgem novos "pacientes", gente que agora padece de síndromes também antes nunca descritas. E os males do espírito, digamos, muitas vezes não geram sintomas físicos, ou, se geram, são de difícil definição etiológica, de forma que o diagnóstico vira conceitual e subjetivo: eu acho que você está deprimido porque acho que seu quadro configura o que eu acho que é depressão.
Não há mais preguiça, há transtornos ou desordens de atenção, de motivação, de interação social, de tudo o que se possa imaginar. Não há mais agressividade, rudeza no trato, timidez, temperamento calado, nada disso, só há transtornos e desordens. Quando expira a patente de uma droga, seu fabricante se apressa a criar, novamente com a ardorosa colaboração de cientistas e psiquiatras contratados ou subvencionados generosamente, uma nova doença, a que a mesma droga se aplique, mudando apenas de nome. Emoções antes normais em qualquer ser humano podem facilmente revelar-se transtornos ou desordens, conforme o freguês e a moda psiquiátrica corrente. Não se fica mais triste, fica-se deprimido. Não se fica mais ansioso pela antecipação de alguma coisa, fica-se com distúrbios de ansiedade. E para tudo há uma pílula.
Claro, chegaremos, se já não chegamos e ainda não nos demos conta, ao ponto em que todo indivíduo, se confrontado com um hipotético "padrão normal", será portador de vários transtornos, distúrbios e desordens. Qualquer acontecimento que afete suas emoções, seu estado de ânimo ou mesmo seu bem-estar físico deverá ser objeto de controle medicamentoso. Posso até imaginar que talvez já exista, e no futuro poderá prosperar, a figura do PP, o Personal Psychiatrist, não para receitar ou atender no consultório seu cliente milionário, mas para acompanhá-lo ao longo de todo o dia, ministrando-lhe a droga apropriada para a manifestação de qualquer de seus inúmeros distúrbios.
A infância, com a falsa descoberta de um número alarmante de bebês portadores de transtorno bipolar, passou a ser uma doença. Assim como, com toda a certeza, a puberdade, a adolescência, a jovem maturidade, a meia-idade e a velhice. Tudo doença, é claro, bola nisso tudo, bola em toda a existência, você é que pensa que é sadio, é porque não procurou direito sua doença. E, aliás, sugere a prudência que escolhamos logo nossos transtornos, desordens e distúrbios, porque do contrário poderemos estar sujeitos a que escolham por nós. E ninguém escapará, porque o objetivo é englobar toda a Humanidade.
O problema não é a ciência decretar que, de uma forma ou de outra, somos todos malucos. Isso todo mundo às vezes pensa. O problema é quando decidem qual é a nossa maluquice e nos forçam a uma "normalidade" que não queremos e não temos por que aceitar. A chancela da ciência pode ser adulterada. E não é impossível que, em determinadas situações, divergências com o Estado, ou com grupos de poder, acarretem muito mais que censura às artes e à imprensa. Podemos ser forçados a agir "normalmente" e considerados insanos, se discordarmos da normalidade oficial. Na União Soviética, houve tempo em que quem divergia do Estado era carimbado como doido varrido e encafuado num hospício. Tenho medo de não me encaixar na portaria da Anvisa que defina a normalidade e ser obrigado a tomar um Abestalhol por dia.

sábado, 14 de julho de 2012


A maconha custa caro.

A sociedade brasileira maneja com dificuldade seus recursos destinados à saúde pública. Há contradições curiosas como o fato de a população crescer e crescer também o PIB, enquanto a atenção à saúde encolhe e é transferida à iniciativa privada.
Esta, por sua vez, faz esforços para evitar custos, oferecendo sempre menos do que o contratado. Álcool e tabaco, drogas lícitas para maiores de 18 anos, produzem morbidade que sobrecarrega o sistema frágil de atenção à saúde. As tentativas de controle social têm rendido resultados exemplares com relação ao tabaco. E isto se dá em todo no planeta, não só no Brasil.
Na mão certa, o Brasil tem sido exemplar no banimento da fumaça do tabaco de ambientes coletivos e fechados. O mesmo não tem conseguido diante do álcool.
O fenômeno econômico da Copa do Mundo tornou explícito o quanto o lado financeiro pode se sobrepor à vontade coletiva já sacramentada no banimento do álcool dos estádios de futebol. O patrocinador maior da FIFA destitui o desejo da Nação e impõe seu preço ao Poder Público para lhe garantir a parceria no evento. Triste. Novamente este não é um fenômeno exclusivo do nosso país. Outras nações se dobraram à vontade econômica e pouco ética do patrocinador. Mas o fenômeno não para por aí.
Voltando nossa atenção agora para medidas liberalizantes relativas ao porte e uso da maconha, no deparamos com o já sabido. A sociedade, sem habilidade para manejar medidas restritivas com as lícitas de maior uso, está em vias de ter de manejar mais uma droga a ser implantada como alternativa lícita.
A glamourização e banalização do impacto da maconha na saúde individual e coletiva têm sido objeto de fervorosa campanha midiática. Um mesclado de ingenuidade, desinformação e ganância vai expondo a sociedade à presença cada vez mais difundida da fumaça da maconha. Um dado fundamental e de domínio do senso comum é o de que a média dos cidadãos recua diante do ilícito ou interdito. Avança, por outro lado, diante da promessa de prazer benigno e isento de punição.
Álcool e tabaco nos ensinam que a teoria do sendo comum é cumprida pelos fatos conhecidos relativos a consumo. Jovens começam a beber em nosso país antes de 13 anos. Fumam tabaco na mesma época e, claro, muito mais do que hoje em dia, agregarão a seu hábito cada vez mais facilmente o uso da maconha.
Inábil em reprimir, o Poder Público libera e entrega ao sistema de Saúde a responsabilidade que as autoridades de Segurança não sabem abarcar. Lamentável, mas teremos cada vez mais e mais cedo indivíduos modelando seu existir pela ação duradoura e empobrecedora, senão incapacitante, da maconha, droga de ação longa e demorado depósito nas gorduras do corpo humano. Dali ela recircula, forjando a atitude de vida que cada vez mais vemos à nossa volta. São cidadãos rendendo para si e para a sociedade maior muito menos do que seu potencial anunciava. Vão sendo levados pela torrente suave da passividade letárgica, mas muito sedutora da maconha. Isto sem, é claro, abdicar do tabaco e do álcool.
Os números atuais de um dígito para uso frequente na grande comunidade, claro que crescerão para patamares semelhantes aos 24% para o tabaco. Todos pagaremos a conta, a exemplo do que fazem hoje os 48% de não usuários de álcool com relação aos problemas produzidos pelos 52% de usuários de bebidas alcoólicas de nosso Brasil. Apesar de tudo, viva a copa! Viva o Brasil!
Carlos Salgado - Conselheiro da ABEAD e Psiquiatra da Unidade de Dependência Química do Hospital Mãe de Deus de Porto Alegre

As Comunidades Terapêuticas

Após ter percorrido mais de 200 comunidades terapêuticas em todos os recantos deste Rio Grande, entre os meses de janeiro e maio de 2011, visitando-as e fazendo contatos pessoais com seus dirigentes, voluntários, técnicos, monitores e residentes, tomo a liberdade de tecer algumas considerações que talvez possam ajudar na “leitura” deste fenômeno recente, que tende a crescer, tendo em vista o avanço da praga das drogas em todos os cantos e recantos de qualquer Estado e Nação.
Uma primeira consideração que faço é distinguir as CTs pela impressão que se tem ao chegar na porteira de entrada: existem aquelas que causam uma boa impressão; existem aquelas que imediatamente desejamos que se arrumem um pouco para que estejam mais perto do que se espera de uma CT, e existem aquelas que seria melhor encerrarem logo suas atividades, pois se constituem num atentado à dignidade humana, pela qualidade das estruturas físicas que oferecem, pela inexistência de um programa terapêutico bem delineado e pela falta de pessoal qualificado.
Uma segunda consideração é distingui-las pela linha de espiritualidade que professam: cerca de 30% se identificam com a fé católica; em torno de 45% estão alinhadas com a espiritualidade das igrejas evangélicas pentecostais: outras 20% não professam credo algum e reduzem a espiritualidade a um conjunto mais ou menos desarmônico de práticas religiosas tipo “miscelânea”, sem identidade e sem coluna vertebral; e um percentual de 10% se declara ecumênica e admitem a presença de múltiplas igrejas. É surpreendente o fato de existirem tantas CTs nas quais a espiritualidade não ocupa o lugar que lhe é devido, quando já é de consenso que uma vivência da espiritualidade ajuda na recuperação de enfermidades, inclusive a síndrome da dependência do álcool e outras drogas.
Uma terceira consideração é separá-las pelo método empregado: uma grande parte (92 CTs) utiliza os 12 passos de Alcoólicos Anônimos (AA) e os 12 princípios de Amor Exigente (AE), estruturas facilitadoras da disciplina interior e exterior). Todas elas utilizam a laborterapia como recurso para melhorar a autoestima e a maioria faz uso da oração como ferramenta para a recuperação. Praticamente todas trabalham com 6, 9 ou 12 meses de residência. Entre as visitadas, encontrei apenas 4% que não estabelecem critério de tempo para a aplicação de algum tipo de programa. Estas deveriam ser melhormente chamadas de “casas de passagem” ou “casas de trânsito”, pela alta rotatividade dos que por ali passam.
Uma quarta consideração é separá-las pelos recursos econômicos que parecem ter, sobretudo quando se olha as instalações físicas: existem aquelas que vivem na mais absoluta pobreza, sempre “com o chapéu na mão”, numa contínua atitude de peditório para sobreviver, cujas instalações são de uma precariedade assustadora; existem aquelas que, malgrado as dificuldades, conseguem se instalar de forma adequada, inclusive ampliando e melhorando lentamente seus prédios e mobiliário, fazendo-se conhecidas na mídia local e no tecido da sociedade circundante; e existem aquelas que ostentam riqueza, dando mais a impressão de serem um “SPA” do que propriamente uma CT. (creio que o Amigo concorda que, rica o pobre, a CT pode se sair bem ou mal. Eu não poria como
Uma quinta consideração é olhá-las pelos recursos humanos que dispõem, seja de dirigentes, voluntariado, equipe técnica e terapêutica (monitoria): a grande maioria delas dispõe de uma diretoria, quadro técnico externo, uma equipe de monitoria interna e, de modo geral, um grupo de voluntários que se agregam à obra; uma parcela bem menor de CTs reduz este contingente a um pequeno grupo de pessoas, seja por opção, seja por não conseguirem agregar mais gente ao projeto; existem ainda aquelas que sobrevivem com um reduzidíssimo número de pessoas, talvez por razões de economia, algumas delas mantendo a CT na condição de entidade privada com fins lucrativos.
Com estes poucos elementos, que mais parecem ser uma “moldura” das CTs, se poderia agora entrar numa “leitura de fundo”, procurando identificar as virtudes e as fraquezas que foram aparecendo nesta caminhada de quase 30 anos de CTs no RS. É bem verdade que algumas CTs já contam com estes anos todos de história (mais de 20 anos); outras estão pela metade disso (em torno de 15 anos) e a maioria são bem recentes, não tendo mais que 3 a 5 anos de caminhada. Senão vejamos:
AS VIRTUDES DAS CTs
1. A primeira e maior virtude das comunidades terapêuticas é a própria existência delas, como reação à chaga avassaladora da drogadição. As CTs vieram como uma resposta eficaz e eficiente no processo de intervenção e recuperação desta massa cada vez maior de usuários abusivos de substâncias psicoativas (SPAs). As CTs existem como que por teimosia, à margem da sociedade organizada que parece não ver o drama e a gravidade do mercado da droga e do seu uso indevido. Quando os usuários eram discriminados, rechaçados e perseguidos como “caso de polícia”, vieram as CTs para acolhê-los no ventre da terra e fazê-los nascer outra vez para a vida, pois estavam morrendo ou sendo mortos. As CTs são uma espécie de “bênção” diante da “maldição” das drogas e do descuido para com os mais fracos.
2. A segunda virtude das CTs é o seu caráter benfazejo, isto é, as CTs nasceram e se criaram como fruto do coração humano. Na linguagem verbal e afetiva de muitas delas, pode-se notar claramente as motivações de tipo humanista que fazem as pessoas se doarem, a investirem seu tempo e, não raras vezes, seus recursos financeiros próprios. As CTs, regularmente, nascem e crescem movidas quase que somente pelo combustível da caridade e da dor, diante do sofrimento humano causado pela dependência do álcool e outras drogas. A terra das CTs se torna então como se fosse um útero materno, onde se gera e se regenera a vida dos caídos... Mesmo nas imperfeições do itinerário de algumas delas, não se deixa de sentir esse afeto regenerador, como pais que cuidam de seus filhos quando estes já não são mais capazes de se cuidarem a si mesmos.
3. A terceira virtude que encontramos nas CTs é a sua sensibilidade com o mundo das convicções pessoais, a sua profunda capacidade de olhar para além do limite humano e de acreditar na restauração do gênero humano. Nisto consiste a originalidade das CTs, distinguindo-as de outros processos e métodos de recuperação em dependência química. Olhando para os farrapos humanos que chegam nas CTs e para os seres humanos nos quais se transformam quando se passaram apenas algumas semanas, voltamos a acreditar no ser humano, em suas potencialidades e na sua transcendência. Isso não é uma questão doutrinal mas vivencial e nela reside o diferencial entre uma comunidade terapêutica de resultados robustos e as CTs de resultados efêmeros e frágeis. Não basta somente cuidar da limpeza física, emocional, mental e comportamental. É necessário refazer as metas da vida para além da morte, da vida para além da vida, no caminho de si mesmo para o outro, deixando de olhar para o vale da morte e passar a olhar para o horizonte da vida.
4. A quarta virtude da CT é o reconhecimento da individualidade de cada ser humano. Dentro de um mundo cada vez mais globalizado, massificado e despersonalizado, a CT afirma a primazia do indivíduo, a sua centralidade e o caráter absoluto da sacralidade da vida a ser restaurada. Por isso, em cada uma das CTs, o residente é chamado pelo nome, tem seu prontuário, é reconhecido em suas capacidades humanas e se busca a correção de seus defeitos de caráter. Por isso, a convivência fraterna entre iguais, a busca comum das metas, a distribuição rotativa das tarefas do dia-a-dia, fazem parte daquele resgate fundamental da dignidade da pessoa humana, sem o qual não existe a menor chance de recuperação das múltiplas dependências das quais podemos nos tornar vítimas. Por isso, aquilo que fazíamos por intuição nos primórdios das CTs, hoje fazemos com a ajuda dos recursos técnicos e multidisciplinares.
5. A quinta virtude da CT é a abordagem da drogadição não apenas como uma doença bio-neuro-mental, mas também como uma doença comportamental e espiritual. O problema não são as drogas, mas a droga das atitudes e a droga de vida. Por isso é enfatizada a conscientização e a necessidade de mudança de atitudes, o estabelecimento de metas que ultrapassem a noção de uma vida sem perspectiva, sem doação, sem busca. Na quase totalidade das CTs visitadas, é muito claro que a recuperação em dependência química e alcoólica, depende basicamente da mudança de atitudes e isso se faz através do processo de conscientização. É no discernimento que vamos adquirindo habilidades novas na seleção de nossas opções e na mudança estrutural da vida. Fundamentar a vida sobre o alicerce de novos valores é o único meio de reconstruí-la. Buscar dentro de si as razões e as forças necessárias para a mudança, a isso se dá o nome de despertar espiritual e, sem ele, não há recuperação. Até pode haver abstinência temporária e prolongada, mas não há mudança de rumo da vida e da existência. Aqui reside o risco da recaída.
6. A sexta virtude está no envolvimento dos familiares do residente. Não existe recuperação em dependência química e alcoólica sem um segundo tripé: a) uma boa internação, b) a mudança dos hábitos do residente e da família; c) a continuidade do programa ao longo da vida. Uma vez um jornalista disse: “tentar recuperar alguém sem mexer na família, é o mesmo que lavar o leitão e devolver para o mesmo chiqueiro”. Uma boa parte das CTs exige o comprovante de participação dos familiares em grupos de apoio (AA, AE, NA, ALANON, NARANON, Pastoral da Sobriedade...). Algumas delas intensificam ainda mais o envolvimento dos familiares no processo de recuperação, pois entendem que a co-dependência também é uma forma de doença. Outras CTs são exigentes quanto às regras para o dia da visita. Uma coisa, entretanto, é certa: quanto mais flexível e permissivo se for com a família, tanto menores serão as chances de recuperação. O resgate das relações afetivas e o restabelecimento de uma vida com limites são fatores decisivos nesta caminhada.
7. A sétima virtude das CTs é a alegria e a jovialidade que se verifica nos rostos daqueles que estão buscando. Cantar louvores, estar de bem com a vida, ser receptivo e cordial, tomar a iniciativa de gestos de bondade, descobrir-se útil e serviçal para com aqueles que precisam de ajuda... Estas são apenas algumas das belezas que se verificam dentro das CTs quando se vive algumas horas em seu território. Para homens e mulheres que passaram pelo vale escuro da morte e que trazem em seus corpos e mentes as chagas, as feridas, as seqüelas e a dor, nada mais extraordinário que vê-los cantar, abraçarem-se, pedir desculpa, agradecer um favor recebido, pedir licença para entrar ou sair. Para quem se acostumou com “maus modos”, os “bons modos” tornam-se sinais de uma vida nova que está brotando de dentro para fora, que não é mais como mero rito externo para garantir pequenos privilégios (merecimento). Todas as dependências nos envelhecem precocemente... Viver uma vida nova nos rejuvenesce mesmo que tardiamente... Por isso é bom sempre olhar nos olhos dos terapeutas... Se ali houver esperança e alegria de viver, é um bom sinal. Por isso é bom olhar nos olhos dos dirigentes... Se ali houver serenidade e paz interior diante das lutas de cada dia, também é um bom sinal.
ALGUNS DADOS GERAIS
- No Rio Grande do Sul existem 209 Comunidades Terapêuticas com 6.852 leitos, dos quais 570 femininos e 360 para jovens adolescentes entre 12 e 18 anos.
- A Secretaria Estadual da Saúde do RS, através da Saúde Mental, reconhece e qualifica 41 destas CTs, mantendo convênios com elas num total de 687 leitos. Os restantes 6 mil leitos são bancados, heroicamente, pela iniciativa privada e por alguns setores das igrejas cristãs.
- O Ministério Público, as Promotorias, a Receita Federal e a própria Polícia Federal, através de aportes de sustentação material, de visitas periódicas e de parcerias institucionais, reconhecem plenamente a existência, a necessidade e a validade terapêutica das CTs.
- As Comunidades Terapêuticas são reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde como um modelo residencial e diferenciado no trato do uso abusivo de SPAs.
- No RS, existem ao menos 70 CTs com estrutura física adequada e dentro das exigências da RDC 029 (substituta da exigente RDC 101). São unidades com equipe técnica completa na área da saúde.
- A Vigilância Sanitária (VISA), através das Secretarias Municipais de Saúde, mantém o controle e a supervisão destas casas e a quase totalidade delas possuem Alvará de Funcionamento, Alvará de Localização e Alvará da Saúde, em 96 municípios onde estão localizadas.
- No RS existem 1.173 monitores e monitoras formados pela Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD), pela Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas - FEBRACT, pela Federação das Comunidades Terapêuticas Evangélicas do RS - FECTERS e pelo Centro Regional de Estudos, Prevenção e Recuperação de Dependentes Químicos – CENPRE, organismo da Universidade Federal do Rio Grande - FURG. Uma boa parte deles possui vários anos de experiência e dedicação integral.
- 67% das CTs no RS utilizam os serviços públicos de saúde (postos de saúde, serviço dentário, exames de laboratório, CAPs, etc.) para o ingresso e atendimento dos residentes, e 40% delas desenvolve o programa de recuperação baseado nos 12 passos de AA (de reconhecimento e reputação internacionais). Outras desenvolvem programas baseados em outros princípios e fundamentos científicos e técnicos.
- Segundo consta em nosso banco de dados, são mais de 2 mil os voluntários e voluntárias que desenvolvem algum tipo de serviço/suporte nas CTs e nas casas de triagem. Se considerarmos ao menos 5 integrantes das equipes técnicas em cada uma das 209 CTs e 37 casas de triagem (médicos clínicos, psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, etc.), chegaremos ao extraordinário número de 3 mil agentes para atender 6 mil residentes.
AS FRAGILIDADES DAS CTs
Uma das fraquezas é o que podemos chamar de prevalência da culpa. Não foram poucas as vezes que encontrei nas palavras de alguns residentes, monitores, dirigentes e familiares o sentimento de culpa pela situação vigente... São mães que não conseguem levar do coração para a mente a experiência da dor... são dirigentes que fazem uma leitura desfocada da realidade, procurando sempre encontrar na sociedade, sempre nos outros, as razões para este tipo de sofrimento... são monitores que incutem nos residentes a idéia de culpa e um apego doentio ao passado. Doenças emocionais mal resolvidas, quarto passo feito de forma errada, fissura ou desleixo pela reparação... Estes e outros sinais são sintomas de um certo complexo de culpa que tranca, amarra e emperra a caminhada. Tem gente que se atola na droga... outros se atolam na droga de vida... outros ainda ficam atolados nos pântanos que margeiam os rios por onde a vida navega. São árvores tabebuias, que nascem, crescem e morrem no pântano, sem nunca dar frutos. Livrar-se das amarras da culpa é necessário para poder voar no limite das águias.
Outra fraqueza é o envelhecimento do programa. Entre aqueles que se ocupam dos residentes, se encontra com freqüência as seguintes falas: se deu certo comigo tem que dar certo também com os outros... no meu tempo era assim... não dá prá mudar porque está escrito que é pra ser assim... a recaída não é problema nosso e nós vamos em frente... A grosso modo se pode dizer assim: a) nos primeiros 10 anos do surgimento das CTs (década de 80), o vigor era extraordinário. Os frutos do trabalho eram visíveis e havia um grande entusiasmo; b) nos 10 anos seguintes (década de 90), se cristalizou a proposta e muitas CTs foram abertas, “copiando” o que estava dando certo e o número delas cresceu; c) nesta primeira década do novo milênio, os processos cada vez mais sofisticados de produção das drogas e seus efeitos devastadores, o número significativo daqueles que não conseguem “segurar as pontas” e voltam, e repetem o programa, e se tornam “fazendeiros de carteirinha”, parece nos mostrar a necessidade de questionar alguns pontos centrais dos programas de recuperação em DQ, como por exemplo: 1) a duração do período de residência; b) as poucas alternativas de ressocialização; c) os métodos para a correção dos defeitos de caráter e mudança de atitudes; d) a diversidade no modo de entender o que seja espiritualidade; e) o uso dos recursos técnicos nas áreas da saúde e assistência social... Os novos tempos estão pedindo serenidade, coragem e discernimento. É preciso adequar-se aos novos tempos e exigências.
É necessário passar os olhos no quadro de pessoal. Vejo aqui duas situações a serem consideradas: por primeiro, a mudança de óptica de uma boa parcela dos que exercem a monitoria (supervisão, estagiários, etc.). Este serviço central nas CTs nasceu como retribuição pela vida recuperada como um dom. A primeira e mais radical motivação dos membros da equipe terapêutica é o serviço gratuito como forma de reparação por tudo o que significou a vida passada e, mais ainda, pelo que significa a vida presente. Não existe monitoria saudável sem esta coluna vertebral na qual se ligam todas as outras motivações. Entretanto, um certo espírito de profissionalização vai entrando lentamente no setor, a ponto de já existirem aqueles que falam em sindicalização e reconhecimento da “profissão” de monitor. Se não somos capazes de gerar bons monitores, deveríamos nos perguntar primeiro pela qualidade do programa antes de perguntar pela qualidade das pessoas... Em segundo lugar, existe a tensão entre voluntariado e equipe técnica (psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e outros agentes de saúde). As exigências sempre maiores feitas pelos gestores públicos no sentido de equipar as CTs com estes profissionais, tem produzido esse tipo de situação: aqueles que historicamente sempre acreditaram na mística como ferramenta fundamental para a recuperação e aqueles que acreditam primeiramente nos recursos da técnica e da inter-disciplinariedade. É preciso superar o preconceito da exclusividade e caminhar na direção da complementaridade.
A imensa maioria das CT não se utiliza das casas de triagem. Apenas 15% delas tem este tipo de suporte. Normalmente utilizam o atendimento dos CAPs para o ingresso dos residentes e a realização dos primeiros passos da desintoxicação. Com o advento dos convênios e as exigências de desintoxicação feitas pelo setor da saúde mental do poder público, a procura pelos CAPs tem aumentado. Muitas CTs não exigem exames clínicos e laboratoriais, como condição para a admissão ao programa e isso não é bom nem recomendável. Esta é uma das fragilidades das CTs, pois um período de adaptação é necessário e contribui em grande escala para o enraizamento no programa e, conseqüentemente, diminui o índice de desistência na CT e facilita um diagnóstico mais preciso. A realidade das drogas cada vez mais sintéticas parece estar a exigir estas casas e este processo inicial (“o dependente do crack já não sofre. Ele deixa de ser humano. Age instintivamente como um animal atrás da sobrevivência: a pedra que o aliviará por alguns minutos” – Dr. Eduardo Krause Bittencourt) Além disso, a casa de triagem serve como âncora da CT na cidade. Penso ser oportuno, prudente e necessário que, residentes e monitores (supervisores, estagiários...), ao retornarem da visita ou da folga, passem primeiro pela casa de triagem como se passassem pelo detector de “metais pesados”.
Outra grave fraqueza das CTs é a incapacidade em progredir na prevenção e na ressocialização. Somos peritos no diagnóstico de todas as formas de dependência; somos capazes de transformar fragmentos humanos em pessoas humanamente robustas após um tempo de residência; somos iluminados em restituir a alegria de viver para aqueles que viviam na “sobra da morte”. Somos capazes de transformar mãos sujas em mãos limpas. Entretanto, de todo esse aprendizado, não surgiu ainda uma luz para nos guiar efetivamente nos caminhos da prevenção e nem mesmo para a criação de mecanismos de geração de emprego e renda para aqueles e aquelas que passaram pelas CTs. Se encontramos 5 mil homens e mulheres, jovens e adultos, que hoje estão buscando a recuperação nas 200 CTs gaúchas, certamente são mais de 50 mil os que precisam de ajuda imediata e, se considerarmos o alcoolismo, são mais de um milhão os gaúchos que estão se batendo pelos caminhos tortos da doença e da morte prematura. Buscá-los é nossa tarefa, acolhê-los é nossa missão, propor-lhes a mudança de vida é nossa meta... depois disso farão cada um a sua parte, a criatura e o Criador, a seu modo e há seu tempo...
A TÍTULO DE CONCLUSÃO
- A Resolução 029 da ANVISA, em seu artigo primeiro, § único, reconhece as CTs como instrumento terapêutico válido para o tratamento de adictos.
- A mesma resolução, em seu artigo segundo, § único, pede que este serviço (as CTs) se adeque às normas e se atualize no instrumental.
- Compete às CTs realizarem sua missão, acatando as normas e crescendo em credibilidade.
- Entre os três modelos de abordagem (ambulatorial - internação clínica - residencial na CT), certamente as comunidades terapêuticas vieram para ampliar as alternativas de tratamento.
Pe. Vitor Hugo Gerhard - licenciado em Filosofia e Pedagogia e mestre em teologia, ex secretário regional da CNBB, colabora há 16 anos nas áreas de prevenção e recuperação em dependência química. Formação em DQ pela FEBRACT, APOT, SENAD e Hospital Mãe de Deus.