domingo, 20 de maio de 2012


A política de drogas e o Brasil.


Esta semana em Brasília constatou-se, mais uma vez, uma situação muito preocupante em relação ao enfrentamento das drogas no Brasil: de um lado, a primeira reunião do ano do Conselho Nacional sobre Drogas, cuja missão é acompanhar as políticas desenvolvidas pelo Governo e pela sociedade, entre elas a distribuição e aplicação do dinheiro público e de outro, a 15ª Marcha dos Prefeitos, que culminou com um debate sobre a política de drogas, principalmente diante de um triste cenário brasileiro: o crack já está no varejo.
Se na reunião do Conselho apresentava-se a atual organização do sistema de saúde, de assistência social, do direcionamento das ações policiais e do papel do Brasil na política de drogas das Américas, ações empíricas e ainda muito desarticuladas, como por exemplo, consultórios de rua, quando nem médicos existem na maior parte dos centro de atenção psicossocial álcool e drogas, ações na contramão daquelas que estão sendo preconizadas pelos países desenvolvidos e pela própria Organização Mundial da Saúde, quase tudo por fazer, do outro, quase 5000 participantes, entre prefeitos e assessores, mostravam suas experiências baseadas nas necessidades, muito diferentes entre si, carregadas de uma visão pessoal de cada um deles, desenvolvidas sem recursos suplementares, sem indicadores para avaliar os resultados, o que possivelmente os conduzirá a impactos mínimos ou nulos na realidade local.
A questão é: será possível no curto e médio prazos direcionar as políticas para o microssistema, uma região, por exemplo, cujos gestores decidam, por vontade política pessoal e do grupo, assumir o problema como um programa da gestão municipal, amparados pelos estados e pela federação quanto aos recursos técnicos especializados para se obter algum resultado efetivo? Ou continuaremos a dar tiros no pé? Ou até mesmo tiro de canhão em mosca branca, deixando de lado questões estruturais como a política do álcool, a política do adolescente, a política da criança, o direito humano de viver em um país que oferece um modelo de proteção para todos os cidadãos, o direito de não usar drogas?
O Brasil e seus representantes políticos manterão a retórica ou um toparão o jogo da verdade que confirmará um diagnóstico sombrio da situação atual: uma nau a deriva na questão das drogas?
Minha sugestão para um impasse tão grave é que a Abead possa criar um comitê de especialistas para assessorar os municípios, unir a política com a ciência, já que temos ouvido por aí que “droga é uma questão de estado”, mas nem de longe se vislumbra uma solução adequada para cuidar do fenômeno do crack no brasil!
Ana Cecília Marques - Conselheira da Abead

sábado, 12 de maio de 2012




Vidas preservadas.

Depois de quatro ano atuando sob nossos olhos com deficiência na fiscalização por parte do governo federal, a Lei Seca brasileira poderá enfim causar desestímulo aos que insistem em beber e dirigir.

No começo do mês de abril nós, deputados federais, aprovamos por unanimidade uma nova versão da Lei Seca por meio do Projeto 5607/09, que vai permitir novos métodos de comprovação de alcoolismo e punições mais severas aos motoristas que estiverem alcoolizados.

Como relator da comissão que investigou as causas e o consumo excessivo do álcool no Brasil, atuei fortemente no sentido de endurecer a lei que até então abre tantas brechas para que homicídios “culposos” aconteçam em todo o Brasil, limitando vidas na maioria das vezes inocentes da impunidade que vem assombrando nosso país.

Hoje podemos comemorar o primeiro passo deste projeto que deverá ter seu caminho concluído e permitirá o uso de vídeos, testemunhas e exames clínicos em processos para comprovar a embriaguez de um motorista.

É triste constatar que, segundo pesquisas, mesmo depois da aplicação da Lei Seca, 50% das mortes no trânsito têm envolvimento de pessoas alcoolizadas.

Ouvi muitos parentes de vítimas dizerem que alguma coisa deveria ser feita para atentar o brasileiro sobre o perigo da mistura volante e bebida. Pediam multas mais severas e argumentavam: “Quem sabe doendo no bolso as pessoas se sensibilizam”.

Neste sentido também tivemos avanço já que a multa para quem dirigir alcoolizado passará de R$ 957,70 para R$ 1.915,40 nos valores atuais, sendo aplicada em dobro no caso de reincidência em até 12 meses e permanecendo a suspensão do direito de dirigir por um ano.

Infelizmente no Brasil algumas coisas funcionam desta maneira. Contudo, se a vitória for completa e a lei for aplicada corretamente, certamente muitas vidas serão preservadas e toda essa luta terá valido a pena.

Vanderlei Macris, deputado federal e vice-presidente do PSDB de São Paulo


terça-feira, 8 de maio de 2012



O submundo das drogas.
Revista Veja - André Mattos

Nunca antes em toda a história uma substância química se proliferou com tanta velocidade quanto nos dias atuais. "Há dez anos 200.000 brasileiros haviam tido contato com o crack, em uma década esse número saltou para 800.000." diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da UNIFESP, um dos maiores especialistas do país no assunto.

O crack derrubou as barreiras de classes sociais e invadiu assustadoramente a classe C, hoje 91% dos municípios brasileiros já tem viciados em crack. Uma pesquisa do Instituto Nacional de Políticas Públicas, do álcool e drogas, realizada em dezembro de 2011, traçou um perfil da população da cracolândia em São Paulo e descobriu que do total de 178 ocupantes, 17 tinham curso superior completo - 24 jovens estavam matriculados em faculdades - 2 deles em curso de medicina.

Os números são ainda mais alarmantes quando se tem um raio-x da situação, nos últimos cinco anos, o número de viciados em crack subiu 60%, diz o psiquiatra Pablo Roig, proprietário da clínica Greenwood em Itapecirica da Serra - SP. Estima-se que 40% das pessoas que usam cocaína no Brasil já fumaram crack, muitas delas nem pensavam em entrar neste submundo, mas estimuladas por amigos ou porque o traficante que fornecia a droga estava sem o pó para vender, decidiram experimentar as pequenas pelotas de cor amarelada queimadas em cachimbos improvisados. E esse número tende a crescer, afirma o psiquiatra Laranjeira.

O crack vicia em tamanha proporção e velocidade devido ao seu poder de provocar uma falsa sensação de bem estar, ele faz aumentar em 900% a dopamina do cérebro, o neuro transmissor que regula a sensação, assim, bastam algumas experiências com a droga para que o mecanismo cerebral responsável pelo sistema de recompensa passe a registrá-la como fonte mais intensa de prazer.

A partir da primeira tragada marca-se o começo do fim para quem entra nesse submundo. Em 3 anos, quase toda a totalidade dos viciados estará gravemente doente, terá se envolvido em crimes e visto a família se desmantelar. Ao fim de cinco anos um terço deles estarão mortos; as vítimas de homicídios e overdose são as mais frequentes.

A droga é produzida da pasta de coca, matéria-prima que pode se transformar também em cocaína, mas enquanto o crack faz aumentar em 900% a sensação de prazer, a cocaína aumenta em apenas 230%, motivo pelo qual o vício se prolifera com tamanha velocidade.

Para os traficantes, o crack apresenta mais vantagens devido a quantidade e a velocidade com que é consumido. Hoje uma clínica especializada em tratamento de dependentes químicos, com acompanhamento médico e psicológico em tempo integral, custa até 23.000 reais por mês, mesmo assim, 90% dos que fazem tratamentos sofrem recaídas nos oito primeiros meses. Metade desiste durante o tratamento e volta de vez para as pedras. Dos que persistem e passam até um ano em tratamento, 90% conseguem voltar a estudar e trabalhar ainda que, em grande parte das vezes nunca consigam se livrar de recaídas eventuais.

A consultora de beleza P. F. de 31 anos, conta que aos 14 anos começou a fumar maconha, depois cocaína e aos 28 anos conheceu o crack, depois de duas internações e cinco meses sem usar nada, teve uma recaída, "fumei cinquenta pedras de crack em 24 horas." Por causa do filho de 9 anos decidiu ir para uma terceira internação, hoje lamenta: "por causa da droga não conseguir fazer faculdade, agora preciso cuidar mais do meu filho."

O administrador F. P. N. de 44 anos, passou por 25 internações, morou 6 anos na rua chegando a pesar 40 quilos. Conheceu o crack aos 27 anos e veio a se tornar mendigo, tendo que pedir dinheiro nos semáforos para sustentar o vício. Quando conseguiu parar em 2003, passou dois anos tomando remédios para controlar a ansiedade, recuperar a memória e a capacidade de raciocínio, 3 vezes por semana ia ao psicólogo e ao psiquiatra mensalmente, "o crack destrói a capacidade de planejar." diz.

Em Barreiras, no Oeste da Bahia, o uso do crack não está tão disseminado quanto na capital baiana, Salvador, onde o consumo aumentou 140%. Em Brasília (DF) com aumento de apreensão de pedras de crack em 175% em apenas um ano; e Goiânia (GO), onde existem 50 mil usuários, cerca de 4% da população. Segundo o Dr. Jorge Aragão, são através dessas cidades que a droga chega até Barreiras, entretanto, ainda não existe indícios de que haja pessoas ricas ou autoridades envolvidas no tráfico. “Em Barreiras, o que existe são traficantes que vendem nos seus setores, em pontos de bairros, mas nenhum que possa abastecer a cidade inteira. Apesar de o lucro ser bastante alto, não temos informações de que exista um grande ‘barão do crack’ na cidade”.

Como essa é uma droga barata, maior é o consumo, principalmente por usuários de baixa renda, segundo o delegado, os de classe média alta ainda estão usando cocaína e maconha. “O crack aqui em Barreiras continua sendo uma droga consumida por usuários de baixa renda. Temos feito “batidas” principalmente nos bairros periféricos como: Vila Rica, Santo Antônio, Vila Amorim, Santa Luzia, Sombra da Tarde, Vila Nova, Vila Brasil, bairros cuja situação nos deixa mais preocupados”.

Na tentativa de abolir o crack, a polícia Civil tem trabalhado em operações semanais, na maioria das vezes, com registro de flagrantes e como consequência, a prisão dos traficantes.

domingo, 6 de maio de 2012



Especial: Brasil age como "gringo" na defesa das fronteiras.

A ascensão econômica obriga o país a lidar com um problema que durante muito tempo foi visto como de nações ricas como os EUA: a necessidade de reduzir o fluxo de drogas
Brian Winter, da Reuters
Cáceres - Durante os 500 primeiros anos da história do Brasil, praticamente qualquer coisa que quisesse cruzar suas fronteiras poderia fazê-lo em relativa paz, e isso valia para gado, índios ou intrépidos exploradores.
Essa era agora está chegando ao fim. A ascensão econômica do Brasil obriga o país a lidar com um problema que durante muito tempo foi visto como exclusividade de nações ricas como os Estados Unidos: a necessidade de proteger suas fronteiras e reduzir o fluxo de drogas, contrabando e imigrantes ilegais.
A presidente Dilma Rousseff, sob pressão política para combater a epidemia de crack nas cidades brasileiras, está gastando mais de 8 bilhões de dólares e revendo as defesas estratégicas do país para enfrentar uma questão que tem implicações para o comércio, a agricultura e a economia como um todo.
A prosperidade brasileira criou uma nova classe de consumidores, com dezenas de milhões de pessoas, num país que por acaso faz fronteira com os três maiores produtores mundiais de cocaína: Colômbia, Bolívia e Peru. O Brasil é hoje o segundo maior consumidor mundial dessa droga, atrás apenas dos Estados Unidos, segundo dados do governo norte-americano. É também um crescente mercado para a maconha, o ecstasy e outros narcóticos.
Os esforços do governo Dilma para sufocar o fluxo de drogas podem gerar muito dinheiro para empresas brasileiras, como a Embraer, que planeja produzir uma nova linha de aviões não-tripulados para patrulhar as fronteiras. Companhias estrangeiras, como Boeing e Siemens, também podem se beneficiar.
Mas a proteção de uma área que tem cinco vezes o tamanho da fronteira EUA-México, que serpenteia por quase 16 mil quilômetros sendo grande parte na Amazônia e que estabelece limites com dez países é um enorme desafio. Também gera um debate sobre a conveniência de o governo despender tanto dinheiro e esforço.
Para o tenente da Polícia Militar do Mato Grosso Rafael Godoy de Campos Marconi, instalado em um solitário posto de controle fronteiriço entre as cobras do Pantanal, a tarefa parece inglória.
A unidade de Marconi é responsável por patrulhar um trecho de 200 quilômetros na fronteira com a Bolívia, origem de cerca de 80 por cento da cocaína consumida no Brasil. Num dia qualquer, Marconi acredita que dezenas de contrabandistas conseguem se infiltrar pela sua jurisdição, com drogas escondidas nos sapatos, camisas e cuecas.
O problema, segundo Marconi, é que ele tem apenas 10 a 12 homens para abranger toda a área. A última apreensão deles foi há duas semanas.
"Ah, eles estão por aí", suspirou o policial, varrendo o horizonte com os olhos e suando muito sob o calor úmido. "Mas somos tão poucos que eles sabem exatamente onde estamos."
Mesmo com o dobro dos recursos atuais, acrescentou, seria "muito difícil" controlar uma região tão remota do interior brasileiro. Com um sorriso maroto, ele mencionou uma solução que está na boca de muitos brasileiros da região. "Talvez se construirmos um muro, como os Estados Unidos têm (na fronteira com o México). Talvez então possamos reduzir o fluxo dessa gente."
O Brasil não está construindo nenhum muro. Mas está tentando absorver outras lições dos Estados Unidos, e recorrendo a Washington para receber recursos e capacitação técnica. O chefe Do Estado-Maior das Forças Armadas brasileiras viajou no ano passado a El Paso, no Texas, junto à fronteira com o México, para se reunir com militares dos EUA e com funcionários do Departamento de Segurança Doméstica.
A nova ênfase do Brasil no controle das fronteiras, e o óbvio subtexto disso que o Brasil vê seus vizinhos com crescente desconfiança, estão começando a gerar na América do Sul um tipo de ressentimento que habitualmente era reservado a um certo país do norte do continente onde se fala o inglês.
"Dói-me dizer isso, mas já ouvi gente dizendo que somos os novos gringos", disse o senador Pedro Taques (PDT-MT), cujo Estado faz fronteira com a Bolívia. "Controlar a fronteira é um problema que o Brasil nunca pensou que teria de enfrentar..., e está nos obrigando a fazer algumas coisas desconfortáveis."
Mas Taques disse que uma maior proteção da fronteira é "crítica" para a saúde econômica e social do Brasil, e manifestou frustração com a demora nos resultados, depois de mais de um ano da posse do governo Dilma. "Até agora, vimos muitos discursos", disse ele. "Mas as pessoas que vivem na fronteira não estão vendo resultados suficientes."
Fronteira invisível
Não faz muito tempo, ninguém no Brasil levava as fronteiras a sério nem seus presidentes.
Em sua autobiografia, Fernando Henrique Cardoso conta das férias que passou no Pantanal depois de ser eleito para o seu primeiro mandato presidencial, em 1994.
Durante um passeio, seu grupo sem querer foi parar no território boliviano, onde após cerca de uma hora um soldado armado os abordou pedindo documentos. Nem FHC, nem sua mulher, Ruth Cardoso, nem o segurança tinham identificação.
"Foi preciso uma boa meia hora explicando, apaziguando e implorando, mas finalmente conseguimos convencer o soldado boliviano da minha identidade", escreveu o ex-presidente. "Ele disse... que éramos as primeiras pessoas que ele precisava impedir de cruzar a fronteira brasileira, e então pediu desculpas por ter nos assustado com a arma."
Historicamente, havia dos dois lados das fronteiras poucas razões para protegê-las. O Brasil não trava guerras com seus vizinhos desde 1870. E, na maior parte da sua história, a hiperinflação e a instabilidade política fizeram com que a economia brasileira fosse apenas mediana pelos padrões sul-americanos. Por isso, pouca gente vinha procurar trabalho no país.
Isso tudo começou a mudar na época em que FHC tomou posse. Políticas favoráveis aos investidores e programas de redução da pobreza vêm desde então garantindo um desempenho econômico estelar para o Brasil, que se aproveita de um movimento mais amplo no equilíbrio global de poder, pendendo agora para os mercados emergentes.
No ano passado, o Brasil superou a Grã-Bretanha como sexta maior economia mundial, e agora só três dos seus dez vizinhos têm uma renda per capita mais alta.
Esse dinamismo, e a moeda excepcionalmente valorizada, atraem imigrantes de toda a América do Sul, que costumam ganhar aqui três ou quatro vezes mais do que nos seus países de origem. Mais de 1,46 milhão de estrangeiros estavam formalmente registrados no Brasil em julho de 2011 -um aumento de 50 por cento em relação ao ano anterior.
O afluxo de trabalhadores estrangeiros ajuda a aliviar uma escassez de mão de obra qualificada, num momento em que o desemprego do Brasil atinge o menor nível da história. Mas esse fenômeno também começa a causar inquietação, especialmente entre os sindicatos, que formam uma das principais bases de apoio de Dilma.
O governo dela prometeu em fevereiro reforçar os controles fronteiriços e as práticas de deportação, depois de ter anistiado mais de 4.000 haitianos que entraram ilegalmente no Brasil, a maioria no Acre, vindos do Peru. O número total de imigrantes sem documentos no Brasil pode chegar à casa das centenas de milhares.
"Muitas dessas pessoas estão vindo em busca de melhores empregos. Esse é o problema", disse o deputado federal Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), presidente da Força Sindical.
A negligência do Brasil com suas fronteiras também tem contribuído com uma enxurrada de produtos importados baratos, o que segundo políticos prejudica a indústria local.
Em entrevista, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, disse que "incontáveis" produtos da China e de outros lugares entram no Brasil pelos países vizinhos sem serem detectados e sem pagarem impostos.
Apesar de tudo isso, o maior problema -enfatizado por Dilma ao apresentar sua iniciativa para as fronteiras, em junho de 2011- é o crescimento no uso de drogas, sempre acompanhado pelo crime organizado.
São Paulo e outras grandes cidades têm testemunhado a proliferação das chamadas "cracolândias", onde centenas de pessoas esfarrapadas se reúnem para consumir crack à vista das autoridades. A opinião pública tem ficado chocada com imagens exibidas na imprensa de grávidas e crianças fumando a droga.
Quadrilhas de traficantes na prática dominam territórios em várias cidades, inclusive o Rio, que será sede da Olimpíada de 2016. A campanha presidencial de 2010 foi provavelmente a primeira na história do Brasil em que o uso de drogas surgiu como uma questão importante, e isso gerou uma pressão para que Dilma reagisse logo depois da sua posse.
"Uma das principais prioridades para a presidente Dilma, voltando à campanha, é a questão de combater a violência e as drogas", disse em entrevista o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. "Controlar as fronteiras é uma parte crítica dessa estratégia."
"Uma desgraça"
Na linha de frente, porém, a mudança tem sido lenta.
Em seu posto de fronteira, 50 km a oeste de Cáceres (MT), o tenente Marconi e seus colegas policiais vivem em casebres metálicos sobre palafitas. Galinhas ciscam ao redor, e homens com chapéu de boiadeiro passam lentamente de bicicleta, aparentemente alheios à presença policial.
Embora seja o único posto policial importante em um dos maiores corredores do narcotráfico no Brasil, o local não tem aparelhos de raios-X nem scanners para detectar drogas em veículos. Para as inspeções, os carros sobem em uma plataforma de madeira de aspecto frágil. Cães farejadores raramente são empregados, segundo Marconi.
"Isso é uma desgraça", disse o promotor Mauro Zaque, que visitava o local. "Não é possível que você me diga que o Estado não tem 2 milhões de reais para colocar uma instalação decente aqui. O que falta é vontade política."
A fronteira, na verdade, fica a mais de 30 quilômetros. Isso levou um visitante a perguntar: os contrabandistas não poderiam simplesmente contornar o posto?
Marconi fez uma careta. "É, parece que muitos deles fazem isso."
As autoridades da região do Pantanal já detectaram inúmeras rodovias clandestinas abertas por contrabandistas para evitar os controles. Mas especialmente difíceis de detectar é o silencioso exército de "mulas" que cruzam da Bolívia a pé, geralmente à noite, para desovar suas cargas em pontos previamente combinados, de onde outros se encarregam de distribuí-las para as cidades brasileiras.
Ao fazer uma patrulha numa tarde recente, Marconi apontou aberturas em cercas de fazendas, que segundo ele foram feitas por contrabandistas.
A própria fronteira é tão mal demarcada que Marconi às vezes não sabe exatamente onde ela fica, entrando em alguns momentos no que pode ou não ser a Bolívia. "Não devemos ficar aqui por muito tempo", disse ele a certa altura.
Aliás, essa é uma região até fácil de patrulhar para os padrões brasileiros: plana e relativamente sem árvores. Cerca de 10 mil quilômetros das fronteiras brasileiras -uns 60 por cento do total- são formados por selvas densas, cortadas por rios que nascem em países vizinhos e entram em território brasileiro, o que facilita a vida dos contrabandistas.
Os integrantes de alto escalão do governo federal dizem não ter ilusões quanto aos obstáculos que enfrentam. "Não podemos supor ou ter a visão antiga de que faremos isso colocando em fileira homens para proteger 16 mil quilômetros de fronteiras", disse Dilma ao lançar a iniciativa para as fronteiras no ano passado. "Isso não é possível."
A presidente tem focado em soluções que aproveitem os recursos humanos já existentes. Uma das primeiras medidas dela foi ampliar o papel dos militares na proteção das fronteiras, basicamente lhes dando poder de polícia, como a autoridade para parar e vistoriar veículos a até 150 quilômetros da fronteira.
Ela também exigiu uma coordenação total entre os militares e as várias forças policiais brasileiras -algo que antes não existia. Marconi disse que, em dois anos trabalhando na fronteira, só teve contato com o Exército uma vez. Ao saber disso, Cardozo assentiu tristemente. "Estamos trabalhando nisso", afirmou.
Um novo comando conjunto para questões de fronteira foi construído na sede do Ministério da Defesa. O vice-presidente Michel Temer começou a comandar reuniões multidepartamentais, abrangendo não só Exército e polícia, mas também autoridades ambientais, comerciais e de outras áreas.
Esse novo foco representa uma mudança fundamental para as Forças Armadas, que vinham desempenhando um papel não muito claro desde o fim do regime militar, em 1985. O general José Carlos de Nardi, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, pendurou junto à porta do seu gabinete, em Brasília, uma foto da visita a El Paso, como lembrança das suas novas prioridades.
"É uma mudança para nós, certamente", disse De Nardi em entrevista. "Essa será uma parte central da nossa estratégia durante décadas."
Mais recursos
Cientes dos desafios enfrentados por seu pessoal de campo, De Nardi, Cardozo e outras autoridades concluíram que os dois principais fatores para o sucesso do Brasil serão tecnologia e trabalho de inteligência.
Uma das mais eficazes novas ferramentas, dizem eles, são os aviões não-trupulados capazes de detectar barcos, pessoas e até gado -um elemento crítico para proteger o setor pecuarista, maior exportador mundial, com vendas de 4 bilhões de dólares por ano, contra pragas devastadoras, como a febre aftosa.
Caças de última geração da FAB, radares terrestres, embarcações fluviais e outros equipamentos também serão adquiridos. De Nardi disse que o Brasil está apenas começando a obter os recursos necessários, e que haverá muitas oportunidades para empresas locais e estrangeiras. "Vamos precisar de muitas ferramentas", disse ele.
Cardozo disse que o governo vai duplicar o contingente da Polícia Federal na região da fronteira até 2013, em parte ao obrigar que todos os agentes recém-contratados passem um período ali. Instalações como a cabana do tenente Marconi serão melhoradas, e um projeto de lei será enviado ao Congresso oferecendo um incentivo salarial a funcionários que trabalhem na região da fronteira, segundo o ministro.
Mas alguns se perguntam se tanto gasto vale a pena, especialmente com relação às drogas. Se os Estados Unidos, com todos os recursos decorrentes do fato de ser a maior economia do mundo, não conseguem impedir a entrada da cocaína pelas suas fronteiras, como o Brasil vai conseguir?
Entre os céticos está o ex-presidente FHC, que se tornou nos últimos anos um importante crítico da "guerra às drogas" internacional. Ele disse que, embora um maior grau de segurança nas fronteiras seja necessário por razões econômicas e estratégicas, o Brasil dificilmente conseguirá tolher a enorme demanda por entorpecentes.
"Não faz sentido", disse o ex-presidente, que defende a legalização das chamadas drogas leves, como a maconha. "A experiência da América Latina durante os últimos 30 anos mostra que resistir a essas forças só gera mais violência."
De fato, o Brasil está ampliando seus esforços justamente quando países da região parecem explorar alternativas, depois de sofrerem enormes custos humanos e financeiros ao enfrentarem com rigor as quadrilhas de traficantes nos últimos anos.
O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, disse no ano passado que daria "boas vindas" à legalização se isso privasse os traficantes do lucro. Seu colega mexicano, Felipe Calderón, sugeriu num discurso em setembro de 2011 que estaria aberto a algo semelhante.
O coronel João Henrique Marinho, que comanda o Segundo Batalhão de Fronteira do Exército, em Cáceres, observou que, no momento, os traficantes brasileiros na região da fronteira não chegam nem perto dos cartéis mexicanos e colombianos em termos de sofisticação ou poder de fogo. Segundo Marinho, eles mantêm uma operação "artesanal", baseada em "mulas" e aviões pequenos.
Questionado sobre a razão para os traficantes locais não terem se organizado em cartéis do estilo mexicano, Marinho levantou as sobrancelhas e respondeu: "Será porque não estamos resistindo?".
Operações no exterior
As preocupações com os cartéis são igualmente acentuadas no outro lado da fronteira. Na poeirenta localidade boliviana de San Matías, próxima a Cáceres, os locais sussurram que já viram um amedrontador aumento no número de criminosos no último ano. Mas os malvadões, dizem eles, são brasileiros.
"São os brasileiros que comandam as coisas por aqui", disse o comerciante José Contreras, fazendo um sinal de gatilho com o indicador. "Sabe, os brasileiros culpam os bolivianos por tudo, mas são eles que roubam e matam. Eles usam isto aqui como base. Está piorando."
Cardozo admitiu que há questionamentos e possíveis riscos na estratégia do governo. Mas disse que o Brasil irá perseverar.
Dilma descarta a legalização das drogas, e disse em 2010 à revista Rolling Stone que "a sociedade não está pronta para uma mudança dessa natureza".
Cardozo observou que o Brasil já tentou uma espécie de abordagem tolerante com relação às drogas -com resultados desastrosos, visíveis nas cracolândias, nas favelas dominadas pelo tráfico e em outros lugares.
Questionado sobre como o Brasil pode ter sucesso onde os EUA não conseguiram, Cardozo disse que a chave é "ter uma relação com esses países (produtores) para que a questão possa ser atacada no território deles."
Para tal, o Brasil começou a se envolver com práticas muito parecidas com aquilo que Washington faz há décadas na América Latina toda. Cardozo disse que agentes da PF entraram no Paraguai no ano passado e destruíram pessoalmente plantações de maconha, com autorização das autoridades locais.
O ministro disse que uma ação semelhante aconteceu em agosto de 2011 no território peruano para erradicar plantações de coca, a matéria-prima da cocaína. Ele também citou um novo acordo de cooperação envolvendo EUA, Brasil e Bolívia, pelo qual as forças brasileiras irão oferecer treinamentos e equipamentos aos bolivianos.
Felipe Cáceres, vice-ministro de Defesa Social da Bolívia, disse que o acordo ajudará o seu país, o mais pobre da América do Sul, ao proporcionar "apoio logístico para cobrir a extensa geografia (da Bolívia)".
Cardozo disse ter havido progressos significativos desde que o plano de fronteiras foi lançado. De junho de 2011 a fevereiro de 2012, as forças de segurança brasileiras apreenderam 123 toneladas de maconha e 17 toneladas de cocaína em operações conjuntas na fronteira, segundo dados do Ministério da Justiça. Mais de 5.000 pessoas foram presas em decorrência disso.
As apreensões também incluíram carros roubados, armas, munições, explosivos e centenas de milhares de dólares em outros produtos de contrabando. "É um bom começo, e é muito importante proteger todos os nossos setores da economia", disse o ministro Pimentel.
Na linha de frente, alguns estão igualmente esperançosos.
Augusto César de Borges, funcionário do Indea (Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso), trabalha em um pequeno posto fiscal novo, com ar condicionado, bem na fronteira, em frente a San Matías, basicamente vistoriando carros à procura de contrabando.
Até 2007, não havia presença do Estado por aqui, e "qualquer coisa podia entrar" no Brasil, segundo ele. "Isso tudo é novo para nós, e estamos melhorando", disse Borges. "Agora, só precisamos de mais ferramentas."
Como quais?
"Sei lá", disse ele, com um sorriso. "Talvez um muro."